Declaração de Veneza
UNIVERSIDADE HOLÍSTICA INTERNACIONAL

Os participantes do colóquio "A ciência face aos confins do conhecimento" organizado pela UNESCO , com a colaboração da Fundação Giorgio Cini,impelidos por um espírito de abertura e de questionamento dos valores de nosso tempo, chegaram a um acordo sobre os seguintes pontos:

1. Somos testemunhas de uma importantíssima revolução no domínio da ciência, engendrada pela ciência fundamental ( em particular, pela física e pela biologia ) , pela pertubação que suscita na lógica, na epistemologia e também na vida cotidiana através das aplicações tecnológicas. No entanto, verificamos, ao mesmo tempo, a existência de uma defasagem importante entre a nova visão do mundo que emerge do estudo dos sistemas naturais e os valores que ainda predominam na filosofia, nas ciências humanas e na vida da sociedade moderna. Pois estes valores estão fundamentados, em grande parte, no deformismo mecanicista, no positivismo e no nilismo. Sentimos essa defasagem extremamente prejudicial e portadora de pesadas ameaças de destruição da nossa espécie.

2. O conhecimento científico, por seu próprio movimento interno, chegou aos confins, onde pode começar o diálogo com outras formas de conhecimento. Neste sentido, reconhecendo as diferenças fundamentais entre a ciência e a tradição, constatamos não a sua oposição, mas a sua complementaridade. O encontro inesperado e enriquecedor entre a ciência e as diferentes tradições do mundo permite pensar no aparecimento de uma nova visão da humanidade, até um novo racionalismo, que poderia levar a uma nova perspectiva metafísica.

3. Recusando qualquer projeto globalizador, qualquer sistema fechado de pensamento, qualquer nova utopia, reconhecemos, ao mesmo tempo, a urgência de uma pesquisa verdadeiramente transdisciplinar em intercâmbio dinâmico entre as ciências "exatas", as ciências "humanas", a arte e a tradição. De certa forma, esta abordagem transdisciplinar está inscrita em nosso próprio cérebro, através da interação dinâmica entre seus dois hemisférios. O estudo conjunto da natureza e do imaginário, do universo e do homem poderia, assim, melhor aproximar-se do real e permitir-nos enfrentar melhor os diferentes desafios de nossa época.

4. O ensino convencional da ciência, através de uma apresentação linear dos conhecimentos, dissimula a ruptura entre a ciência contemporânea e as visões ultrapassadas do mundo. Reconhecemos a urgência da pesquisa de novos métodos de educação, que levem em conta os avanços da ciência, os quais se armonizam agora com as grandes tradições culturais, cuja preservação e estudo aprofundado parecem fundamentais. A UNESCO seria a organização apropriada para promover tais idéias.

5. Os desafios de nossa época - o desafio da autodestruição de nossa espécie, o desfio informático, o desafio genético,etc. - esclarecem de uma nova maneira a responsabilidade social dos cientistas, na iniciativa e na aplicação da pesquisa ao mesmo tempo. Se os cientistas não podem decidir quanto à aplicação de suas próprias descobertas, não devem assistir passivamente à aplicação cega de suas descobertas. Em nossa opinião, a amplidão dos desafios contemporâneos demanda, de um lado, a informação rigorosa e permanente da opinião pública e, de outro lado, a criação de órgãos de orientação e até de decisão de nutureza pluri e transdisciplinar.

6. Expressamos a esperança de que a UNESCO levará adiante esta iniciativa , estimulando uma reflexão dirigida para a universidade e a transdisciplinaridade

Agradecemos a UNESCO que tomou a iniciativa de organizar tal encontro, em conformidade com sua vocação de universalidade. Agradecemos também à Fundação Giorgio Cini por ter permitido a realização em um local ideal para o desenvolvimento deste fórum.

Veneza, 7 de março de 1986

PARTCIPANTES

Professor D.A. Akyeampong (Gana), físico-matemático, Universidade de Gana.

Professor Ubiratan d'Ambrosio (Brasil) , matemático, coordenador geral dos institutos, Universidade Estadual de Campinas.

Professor René Berger (Suiça), prfessor honorário, Universidade de Lausanne.

Professor Nicolo D'allaporta (Itália), professor honorário da escola Inernacinal de attos Estudos em Trieste.

Professor Jean Dausset (França), Prêmio Nobel de Fisiologia e de Medicina (1980), Presidente do Movimento Universal da Responsabilidade Científica ( MURS - França ) .

Madame Maitraye Devi ( Índia ), poeta - escritora.

Professor Gilbert Duand ( França ), filósofo, fundador do Centro de Pesqisa sobre o Imaginário.

Dr. Santiago Genovès ( México ) , pesquisador do Instituto de Pesquisa Antropológica, acadêmico titular da Acvademia Nacional de Medicina.

Professor Avishi Margalit ( Israel ) , filósofo, Universidade Hebraica de Jerusalém.

Professor Yujiro Nakamura ( Japão ), filósofo - escritor, professor da Universidade Meiji.

Professor David Ottoson ( Suécia ) presidente do Comitê Nobel para a Fisiologia ou a medicina, professor e diretor, Departamento de Fisiologia, Instituto Karolinska.

Professor Abdus Salam ( Paquistão ), Prêmio Nobel de Física ( 1979 ), diretor do Centro Internacional de Física Teórica,Trieste, Itália, representado pelo Dr. Dr. L.K. Shayo ( Nigéria ), professor de Matemática.

Dr. Rupert Sheldrake ( Reino Unido ), Ph.D. em Bioquímica,Universidade de Cambridge.

Professor Henry Stapp (USA) , Físico, Laboratório Lawrence Berkeley, Universidade da Califórnia Berkeley.

Dr. David Suzuki ( Canadá ) , geneticista, Universidade de British Columbia.

PARTICIPANTES E AUTORES DO DOCUMENTO DE TRABALHO

Dr. Susantha Goonatilake ( Sri Lanka ), pesquisador , antropologia cultural.

Dr Basarab Nicolescu ( França ) , físico, C.N.R.S.

OBSERVADORES PARTICIPANTES

Sr. Michel Random ( França ), escritor - editor.

Sr. Jacques G. Richardson ( França / USA ), escritor científico