Brasigóis Felício nasceu em Aloândia (Go) em 1950. Tem 20 livros publicados, entre obras de poesia, conto, romance, crônica e crítica literária. Em sua bibliografia destacam-se Hotel do tempo, poesia, (Editora Civilização Brasileira, l982); Monólogos da Angústia, contos, (Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Diários de André, romance censurado e apreendido em 1976, por ordem do ex-ministro da Justiça, Armando Falcão; Viver é devagar, crônicas, l998, Literatura Contemporãnea em Goiás, crítica literária, O tempo dos homens sem rosto, poesia, Editora Estação Liberdade, e Memória da solidão, contos, Coleção Karajá, da Agência Goiana de Cultura.
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Vivendo em estado de alerta máximo, somos prisioneiros do medo. Reduzindo tudo a produtividade e à economia, fazemos da criação de animais indústria geradora de lucro a qualquer custo. Daí não economizar crueldade para chegar ao abate em tempo mínimo, e para oferecer produtos para cuja produção foi necessário um grande dispêndio de sofrimento. Assim caímos na loucura de produzir a vaca louca, ao fazer que se alimente de sua própria espécie.
Outros, para multiplicar e potencializar os lucros, fazem que as vacas comam vísceras e fezes de frango – sem falar que entra no cardápio, ou no rango do frango doses maciças de hormônio e penicilina, que minam e desboroam a saúde da sanidade humana. É preciso aumentar os lucros, não importando os custos à saúde anônima de quem consome para viver, e com isto chamam doenças, e abreviam a sua morte.
Em que ponto de sua trajetória o humano tornou-se catrumano (ex-humano) a ponto de tornar-se desumano? Pois que atenta contra sua própria dignidade, e polui as fontes que lhe sustentam a vida, não importando se colherá como resultado demências e doenças que chegaram antes nas almas, em corações e mentes. Como colher frutos naturais e sadios da natureza que falsificamos? Assim vimos nos tornando experts na arte de adoecer e matar a vida.
Vivendo como vivem os catrumanos, ainda estranham que sejam tão infelizes e doentios. Como esperar que vivam em harmoniosa felicidade os que envenenam e matam a mãe terra, contaminam as águas, e desmatam sem piedade os cílios dos rios? Se a saúde da vida é o dom natural que herdamos da perfeição infinita, como chegamos a sabotá-la de modo tão selvagem, seduzidos pela ilusão narcísica de que somos os reis da natureza? Um rei assim, tão desastrado, que devasta o seu reino, merece ser destronado.
Neste mundo de mortais e sinistras incoerências, poluídos pagam pelos poluidores – como os inocentes pagam pelos pecadores. Assim distorcemos e traímos nossas potencialidades – como o ferro, tornado ferrugem, perde o seu dom, e as suas propriedades. Como e por que nos tornamos tão neuróticos que a música do silêncio nos incomoda e irrita, a ponto de enlouquecer, se formos conclamados a não tagarelar incessantemente, e a não escutar os ruídos do bate-estaca enervante, em face da capacidade de escutar, que em muitos já não existe?
Na normose das distorções ruinosas uns não têm amor por si mesmos, e outros acreditam ser o estofo do universo. Se ao menos tivessem ouvidos para ouvir as sábias palavras de Humberto Rodhem: “Estamos diante do caos da humanidade, mas a humanidade não vai por nossa conta. Por nossa conta vai cada um de nós”.
P.S. Crônica publicada na edição de 5/4/08, no jornal O Popular, de Goiânia-Go.
Brasigóis Felício
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