A ARTE DE NÃO FAZER
NADA –
QUANDO É PRECISO PARAR
Tal como os intervalos
entre as notas permitem que a música aconteça, assim
também o nosso cotidiano necessita de pausas para nos fazer
avançar no rumo certo. Descobrir sua forma de parar com arte
pode ser um processo prazeroso e revelador do seu propósito
de vida.
A cultura da globalização reforça
crença de que “a pressa é a inimiga dos nossos
negócios” sob o fascínio das avançadas
tecnologias da informática. Afinal, em nenhuma outra época
a humanidade viveu tamanha revolução na sua percepção
de tempo-espaço, e quem não se atualizar decerto comerá
poeira.
O ritmo acelerado que acompanha tudo isso parece
dizer que a nossa maneira de viver nunca mais será a mesma.
Como se o futuro da era digital fosse nos transformar numa metáfora
dos computadores, já que rapidez e eficiência são
requisitos indispensáveis no violento jogo da concorrência
sem limites.
A agonia da luta para fazer o máximo de
coisas no mesmo prazo de tempo (felizmente, o dia ainda tem 24 horas)
consome muita gente, pois o frenesi da vida em alta rotatividade
é uma estranha qualidade da nossa época, que tem na
ação por impulso um dos seus traços marcantes.
O problema é que, de tão acostumadas a correr, as
pessoas acabam sem saber o verdadeiro sentido do que buscam.
“Não, não posso parar, se eu
paro eu penso, eu penso, eu choro...”, dizia um poema da minha
adolescência, talvez como resposta à resistência
em descobrir esse motivo essencial. E assim a velocidade contribui
para o esquecimento de quem somos, encurtando os horizontes da existência,
alienando seres no meio da massa de anônimos sem rumo.
A cultura da eficiência “nega o ócio”,
- pelo negócio - veementemente.
A idéia de alguém desocupado, contemplativo, quando
tudo à sua volta anda acelerado, sugere transgressão
à ordem, atrai desprezo e intolerância daqueles que
sempre dão duro para se manter, a custa do estresse, do esgotamento,
da eterna falta de tempo para relaxar e cuidar mais de si próprio,
para, enfim, simplesmente ser.
Com base na sua experiência de conselheiro,
e principalmente no seu processo pessoal, o terapeuta norte-americano
David Kundtz escreveu A Essencial Arte de Parar (editora Sextante, 1999, Rio de Janeiro), que propõe um método
tão inédito quanto simples para realizar a paz, o
encontro consigo mesmo. David é um ex-sacerdote da Igreja
católica que ousou fazer uma mudança radical de vida,
e hoje ministra workshops sobre o seu método e atende como
terapeuta familiar.
Sua técnica é simples, porém
requer disposição para manter-se desperto e cultivar
o hábito de recordar. Uma pessoa desperta é alguém
consciente de quem é, atenta ao que acontece dentro e fora
de si própria e ao momento presente. Recordar é lembrar
as perguntas e as coisas importantes à nossa vida e as respostas
que hoje temos para elas. Exemplo: saber a razão do seu envolvimento
numa determinada atividade e o que ela representa na sua evolução,
conhecer suas metas e os caminhos para alcançá-las.
Antes de mais nada, David enfatiza que não
se deve confundir parar com ficar inativo, fugindo da vida e das
suas responsabilidades. Pelo contrário, trata-se de entrar
na vida e nas suas responsabilidades de maneira inteiramente nova,
de passar um tempo ali onde estão os seus significados e
valores.
Parar também não é desacelerar.
É criar espaços aparentemente vazios, nos quais se
pode aprender coisas importantes ou tomar decisões e fazer
escolhas transformadores. Para ser positiva, essa parada não
deve causar expectativa alguma, nem ser encarada como um processo
com resultados mensuráveis. Acostume-se, portanto, a não
avaliá-la pelo enfoque do certo ou errado.
“Você não está em um
ensaio geral da sua vida real, que vai acontecer daqui a algum tempo,
quando você estiver mais preparado. Você não
está esperando que alguma coisa aconteça. Está
no meio dela”, completa o autor, orientando-nos para a atitude
conveniente.
No geral, as pessoas passam o dia superatarefadas
e dispersas, levadas de roldão pelas exigências do
cotidiano. Portanto, antes de pôr em prática a arte
de parar, considere que a percepção e a contemplação
são indispensáveis a essas pausas.
David Kundtz define três níveis de
paradas: pausas breves, escalas
de viagem e paradas gerais.
Vejamos de que maneira cada uma delas se desenvolve e se aplica.
As pausas breves são
essencialmente curtas e alicerçam todo o processo de parar.
Têm a vantagem de ser tão comuns quanto benéficas
e de se adaptarem naturalmente ao dia-a-dia. Você poderá
experimentá-la enquanto espera a saída do fax, no
elevador, aguardando o farol abrir, quando chega ao escritório,
na fila do caixa, no banheiro... Sentado ou de pé, você
iniciará essa pausa rápida respirando fundo, com os
olhos abertos ou não, locando sua atenção interiormente
e recordando o que for preciso. Pare - respire - recorde. Recordar
é resgatar a lembrança de algo em que você crê
ou um fato motivador. Se preferir, recorde uma prece inspiradora
de força ou paz, ou uma mensagem adequada ao momento, do
tipo “sou capaz de executar satisfatoriamente esta tarefa”,
“tenho equilíbrio e nenhuma perturbação
vai mudar isso”. Você também pode, prestando
atenção à sua respiração, lembrar
a imagem de alguém importante (seus pais, seus filhos, o
cônjuge, a namorada, os amigos), sentir seus efeitos positivos
e sorrir placidamente.
Existem Inúmeros momentos e formas para as pausas breves, tal como para intensificar
o poder que elas nos conferem. Exemplo: alguns segundos olhando
para o céu, tendo em mente o pensamento de “como é
bom lembrar a presença de Deus na natureza e na minha vida”,
é algo que produz maravilhosas transformações
no estado da alma.
As escalas de viagem são paradas mais longas, duram de uma hora a vários
dias, de uma tarde a um dia ou fim de semana. São denominadas
pelo autor de “miniférias para o espírito”
e abrangem grande variedade de experiências. Por isso é
aconselhável programá-las carinhosamente, começando
por um final de semana. As escalas de viagem são valiosas
experiências que todos nós devemos aprender a desfrutar.
Contudo, elas pedem uma forte motivação para serem
realizadas.
Isso não quer dizer que você será
submetido a um programa rígido, cheio de etapas a serem cumpridas
no tempo estipulado. Não é por aí. Nem pense
que o tão desejado período de férias do trabalho
seja um modelo de parada. Muitas vezes, as férias transcorrem
de tal forma que não favorecem a criação do
espaço de tempo, externo e interno, a que estamos nos referindo
aqui.
Entre os casos reais de escalas de viagem que ilustram
o livro de David estão um retiro de fim de semana, uma viagem
de três dias de ônibus, o simples ato de ficar em casa
e o devaneio noturno de uma enfermeira estressada. O autor nos sugere
lembrar dos objetivos dessa forma de parar como um estímulo
à nossa motivação: “Despertar para o
que está acontecendo com a sua vida, manter as coisas mais
importantes em primeiro lugar, recordar quem você é
e quem deseja tornar-se, e recordar seus principais valores.”
E nos aconselha a pensar na escala de viagem “como uma expressão
de amor e carinho consigo mesmo”.
Já as paradas gerais costumam acontecer nas épocas de transição
na vida das pessoas, quando é preciso tomar uma decisão
muito significativa, e geralmente funcionam como um divisor de águas.
Duram de uma semana a um mês, sendo sempre um período
de tempo mais extenso. A propósito, foi numa parada geral
que David decidiu abandonar o sacerdócio católico,
sob o peso da sensação de estar decepcionando muita
gente: “Não posso dizer que minha transição
tenha se dado sem problemas, arrependimento ou dor. (...) Posso
também dizer que em todos os estágios dessa transição
tive a impressão de estar, mesmo que em grau mínimo,
consciente dos elementos em jogo. E foi uma decisão feliz,
graças ao processo de parar.”
A parada geral pode ocorrer poucas vezes em toda
uma vida, ou talvez nem chegue a ser necessária para todo
mundo. Porém, ela não é menos benéfica
do que as demais opções de parar. Cada pessoa é
que deve perceber se está ou não num momento de cessar
tudo, quem sabe para facilitar a manifestação de uma
idéia ou força ainda desconhecida.
Você já notou como certos insights irrompem de ocasiões
puramente espontâneas? Tomando banho, andando de bicicleta
ou admirando o mar, por exemplo, dependendo do seu grau de receptividade,
você está sujeito a receber informações
preciosissimas. Pois a maior parte da auto-investigação
proporcionada pela parada é de natureza inconsciente e automática.
Sem descartar, é claro, a função do lado consciente
e deliberado dessa busca.
Ainda que tal processo acorde questões dolorosas
e difíceis, mantenha-se confiante de que a sua parada irá
colocá-lo em contato com a sua verdade, com um potencial
exclusivamente seu. Que lhe dará uma visão clara dos
valores e significados da sua vida, abastecendo-o de força
para livrar-se das suas limitações e ir ao encontro
daquele “algo mais” que confere nova dimensão
à sua existência.
Evidentemente, o autor de A Essencial
Arte de Parar está tratando de um processo
espiritual, uma vez que é a espiritualidade que forma os
significados e valores determinantes das nossas ações,
do rumo que damos à nossa vida. “Com o processo de
parar quero levar você a tomar posse dos seus desejos mais
profundos”, ele nos confessa, porque acredita que todo desejo
profundo e ardente também é “um anseio por integração
e unidade com o mundo e, em última análise, com Deus
ou o que quer que você considere como sendo a realidade divina”.
David relaciona sete beneficies básicos
dessa arte, que são: concentrar a atenção,
conseguir um verdadeiro relaxamento, usufruir
a solidão, abertura para o que é e como é, estabelecer limites fortes e flexíveis, abraçar a própria sombra
e, por fim, identificar e viver o seu propósito.
Quem não consegue ter atenção
vive distraído e com dificuldades para recordar, confunde
o valor das coisas e não está consciente dos seus
objetivos. Existe mecanicamente e acaba sendo manipulado. Por isso
a importância de estar desperto. A atenção nos
ajuda a perceber o que existe em nosso mundo interior, aquilo que
de fato tem importância e o que nos atrai; é ela que
nos faz identificar quais são as nossas maravilhas, o que
constrói uma autêntica relação de amor
e o que possui valor para nós.
Saber relaxar é outra condição
essencial. A modernidade acostuma as pessoas, desde a infância,
a conviver com o estresse e a tensão. Crianças com
agenda repleta de atividades, algo apontado por vários psicólogos,
parecem ser preparadas pelos pais para ingressar, o quanto antes,
na louca corrida do mundo adulto para o sucesso. Então, habitue-se
a respirar fundo, a desfrutar do silêncio, a acalmar o tropel
dos pensamentos e a sintonizar a realidade do seu espírito.
Observe as áreas de tensão do seu corpo, respire pausadamente
(enchendo completamente seus pulmões) e mande, pelo pensamento,
a energia relaxante para tais regiões. Respirar e recordar
também são alternativas naturais para relaxar.
De acordo com o psicólogo Anthony Storr,
“a solidão é uma necessidade humana básica".
Até porque parar é um ato absolutamente individual.
Livre-se dos preconceitos contra a solidão se você
quiser conhecer a arte de parar, de curtir ficar apenas na sua companhia
nas situações em que "dois é demais".
Estar aberto é ter a humildade de ser um
constante aprendiz das lições da vida, para você
poder examinar o que lhe aconteceu por conseqüência da
sua ação. David ressalta o desenvolvimento da capacidade
de fazer inventário de si mesmo para aumentar a autopercepção
nas paradas, com perguntas como: "O que é que eu estou
sentindo agora? O que é que está acontecendo aqui?
"A abertura dá primazia à escuta, ao receber,
ao deixar-se cuidar, ao silêncio, à observação,
à percepção e ao aprender.
Alguém que possui limites emocionais fortes,
porém flexíveis, está capacitado a viver sem
problemas em comunidade. Trata-se de uma pessoa consciente da fronteira
a que ela pode chegar, pois dali em diante começa a realidade
do outro; ela sabe separar o que é emocionalmente seu e o
que não é, consegue colocar as pessoas da sua vida
nos lugares que ela quer que estejam, sem se deixar invadir. E ótimo
preocupar-se com os outros, ser solidário e ter compaixão,
mas isso não precisa levar à perda dos próprios
limites.
Ao parar, inevitavelmente faremos contato com uma
parte de nós muito incompreendida: a sombra, que a psicologia
traduz como a face negativa, trevosa da personalidade. David explica
que "abraçar a sombra é reconhecer que nada é
só branco ou preto, mas um pouco de cada", e que só
quando conseguimos reconhecer que o bem e o mal habitam nossos corações
é que fazemos a transição da infância
para a maturidade, da correria e da fuga para a paz e a justiça.
Parar facilita revelar e curar a sombra, que quer ser integrada
e não rejeitada.
As escalas de viagem e as paradas gerais são
perfeitas àqueles que buscam descobrir seu propósito
maior, seu chamado interior que o conduzirá mais além,
levando-o a vislumbrar um poder transcendente. Pois ter um propósito
é saber da existência de algo situado muito além
de nós, do nosso egocentrismo. “Ter um propósito
é reconhecer que você está destinado a ser algo
que só você pode ser", resume o autor, para afirmar
que o nosso desejo é justamente saber agir na direção
da descoberta desse papel que é exclusivo de cada ser humano.
Manter um propósito encoraja a pessoa a escutar a mensagem
que o universo lhe reserva e traz equilíbrio à sua
condição humana. É uma chave que pode lhe abrir
as portas da consciência da sua vocação.
Diante de todas as coisas envolvidas no salto quântico
de consciência proporcionado pelas paradas, e principalmente
do potencial oculto que ela promete revelar, é bom prevenir-se
contra alguns bloqueios que certamente vão surgir. Um deles
é o medo, que, aliás, cerceia tantas oportunidades
oferecidas pela existência. Mas o autor nos garante que há
meios seguros e eficazes para encarar os nossos medos e retirar
o seu possível domínio sobre nós. Ele ensina
uma técnica composta de três processos: observar, identificar
e contar.
Ao surgir o medo, procure observálo com
isenção, como se fosse outra pessoa e ele não
fosse um sentimento seu. Tente zerar a mente intelectiva para se
envolver o mínimo possível com essa sensação,
sem reprimi-Ia. Identificar o medo é permanecer receptivo
à sua presença, à sua informação,
apenas percebendo e registrando o que ele significa para você.
Exemplo: "Estou com medo de descobrir aspectos indesejáveis
de mim mesmo; será que não saberei lidar com eles?"
Também ajuda nomear, personificar esses sentimentos para
interagir com eles. Assim: "Pois bem, Medo de Errar, você
chegou de novo, né? Quer roubar minha paz e atrapalhar o
que devo fazer!" O ato de observar e nomear desvitaliza esses
sentimentos indesejáveis.
O passo seguinte é contar, compartilhar
o seu medo com alguém amigo, que lhe deixe à vontade
para abrir o seu coração. Quanto mais você travar
contato com a presença dos seus sentimentos incômodos,
menor será a força deles para lhe causar sofrimento.
Utilize a fórmula observar e identificar, sem julgar, para todas as experiências
que surgirem durante o seu processo de parar. A tagarelice da mente
está atrapalhando? Utilize estas perguntas: "Sua tagarelice
tem a forma de palavras e frases? Tem a voz de alguém que
você conhece? Talvez seu pai ou sua mãe, o patrão
ou um amigo? Acontece mais em certas ocasiões do que em outras?
Sua tagarelice se parece mais com imagens ou cenas de cinema que
ficam correndo pela cabeça? Qual é o conteúdo
da sua tagarelice? Trabalho, família, passado, futuro, relacionamentos
ou trivialidades?"
Uma boa opção para ir incorporando
naturalmente o ato de parar à sua vida é seguir pela
trilha do que David Kundtz chama de "seu bosque de parada".
É uma forma de ajudá-lo a descobrir a sua maneira
particular de parar, que tornará o processo mais fácil
e prazeroso. Comece selecionando as coisas que chamam a sua atenção
ou que lhe dão prazer. Exemplos: as leituras de sua preferência,
as correspondências que fazem pausas criativas no seu cotidiano,
as coisas belas que fazem seus olhos brilharem, os sons e os perfumes,
os objetos sacramentais que simbolizam algo de valor ou que tenham
significado espiritual (como talismãs e amuletos), espaços
e lugares convidativos para fazer uma pausa ou os animais de estimação,
entre outros. Tais elementos serão de grande utilidade para
você ir fazendo contato com a arte de parar.
Como se vê, o processo é bastante
flexível e econômico em termos de regras. Mas pode
nos preparar para o início da grande transformação
que, na maioria das vezes não se realiza numa única
existência.
Por Romeo Graciano
Fonte: Revista Planeta, Edição
330 – Ano 28 – nº 3
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