I
O Homem moderno vive um drama: Matou um Deus que lhe faz
falta
"O
ocultismo experimenta actualmente um renascimento sem
precedentes, quase obscurecendo a luz do espírito
ocidental. Não penso em nossas academias e seus
representantes. Sou médico e lido com pessoas simples.
Sei, por isso, que as universidades não são
mais fonte de conhecimento. As pessoas estão cansadas
de especialização científica e do
intelectualismo racional. Eles querem ouvir a verdade
que não limite, mas amplie; que não obscureça,
mas ilumine; que não escorra como água,
mas que penetre até aos ossos."
C. G. Jung
A tese
central deste texto é a reiteração
de uma ideia historicamente recente, mas já mil
vezes formulada, por mil agentes diferentes, em milhares
de contextos diferentes, servindo interesses diferentes
e muitas vezes contraditórios: o homem das sociedades
ocidentais modernas perdeu a conexão com o sagrado
e precisa de novas referências espirituais. Precisa
de novos valores. Precisa de um novo Verbo que funde ontologicamente
o seu lugar no mundo. Precisa de redescobrir os porquê,
os como, os para quê; precisa de redescobrir (ou
relembrar) as respostas às eternas perguntas que
ao longo da história têm servido de ponto
de partida, e fundamento, a toda a interrogação
metafísica: Quem sou eu? De onde venho? Para
onde vou? O que posso esperar? O que devo fazer? Qual
é o sentido da vida? - porque, afinal, essas
são inquietações comuns a todos os
homens sem excepção, de todos os tempos
e lugares. Dir-se-ia mesmo que correspondem, mais do que
a uma inquietação, a uma necessidade profunda
e intrinsecamente humana. Daí a sua intemporalidade
- e a sua recuperação - numa época
histórica em que valores, consciências e
visões do mundo estão em crise profunda.
Esta necessidade
assumiu, nas sociedades tradicionais, a forma de uma modalidade
religiosa da existência humana. A história
das religiões, desde a mais primitiva até
à mais elaborada, é composta por diversas
manifestações de realidades sagradas, aquilo
que Mircea Eliade denomina de "hierofanias":
manifestações de algo de "ordem diferente"
- de uma realidade que não pertence ao nosso mundo
- em objectos que fazem parte integrante do nosso mundo
"natural", "profano".
Para o homem
religioso das sociedades tradicionais, toda a Natureza
é susceptível de se revelar como sacralidade
cósmica. O Cosmos na sua totalidade se pode tornar
uma hierofania. O homem das sociedades arcaicas tem a
tendência para viver o mais possível no sagrado
ou muito perto dos objectos consagrados, "em contacto"
com o sagrado, num estado de eterno "encantamento"
que pauta a sua relação com o mundo à
sua volta e consigo próprio.
Para os "primitivos",
o sagrado equivale ao poder, e portanto à realidade
por excelência. O sagrado está saturado de
ser, pois significa ao mesmo tempo realidade, perenidade
e eficácia. O sagrado funda ontologicamente o real:
atribui um lugar e uma explicação à
experiência humana histórica e contingente,
e dita a sua forma de organização. E é
a esta luz que são lidas as próprias mudanças
que ocorrem no desenrolar factual dos acontecimentos,
assegurando-lhes, assim, coerência e inteligibilidade.
O homem moderno
vive, em contrapartida, num mundo dessacralizado, e sente
por isso uma dificuldade cada vez maior em reencontrar
as dimensões existenciais do homem religioso das
sociedades arcaicas. O homem moderno não tem como
fundar e legitimar o seu lugar no mundo, um topos a partir
do qual as suas acções possam ser legítimas,
significativas, eficazes - numa palavra, reais.
O homem moderno
precisa de fundar a sua experiência em algo que
a legitime, a oriente e lhe confira sentido. Se não
se reconhecem valores transcendentes, que sirvam de instância
fundadora à existência humana na sua múltipla
e complexa variedade de níveis, domínios
e actividades, torna-se impossível qualquer estrutura
axiológica e cai-se no relativismo de valores:
se não há uma direcção "certa"
para a acção (i.e., que seja ditada por
uma instância superior ao subjectivismo do homem),
qualquer direcção é boa ou, pelo
menos, qualquer direcção "serve".
Se não há um lugar atribuído ao homem
por uma instância transcendente, que lugar vai ele
ocupar?
Tentar resolver
este dualismo pelo intelecto e pelo uso da razão
(e é essa a principal razão da crise de
valores do homem moderno) não conduz a lado nenhum.
Não existe tal coisa como um homem puramente racional;
o que existe, quando muito, é a parte racional
de um Homem que é também o seu instinto
e o seu inconsciente, a parte de si que ainda não
veio à consciência e que por isso permanece
"enterrada" nas suas profundezas, sem ter como
integrar a parte racional do homem, - influenciando-a,
no entanto, sem se deixar revelar.
Os contributos
de Lacan, Freud, Jung e de outros pioneiros da psicanálise
vieram aliás "desmontar" a noção
da "objectividade", que o sujeito pensante reclamava
para si e cuja legitimidade teria ido buscar ao edifício
cartesiano, ao demonstrarem o papel preponderante que
o inconsciente joga no psiquismo humano.
O racionalismo
que caracteriza a nossa modernidade, profundamente devedora
da Iluminismo do século das Luzes (a promisssora
"Aufklarung") e herdeira do pensamento greco,
não permite abranger a totalidade da experiência
humana e não pode ir mais além do que um
nível "mental" ou intelectual de compreensão
do mundo. Por quê? Não só pela preponderância
do psiquismo humano face ao seu lado "racional",
mas também porque a mente tem, em si própria,
o germen da sua própria limitação:
é dual, funciona por contraste e por comparação,
estabelece relações entre as coisas, mas
não tem como subsumir-se à - ou melhor,
elevar-se acima da - dualidade. O maniqueísmo ideológico
que insiste em classificar definitivamente as coisas em
boas ou más, pretas ou brancas, materiais ou espirituais,
é uma perversão de uma mente que é
redutora porque absolutiza e radicaliza os opostos. Porque
para que essa mente possa funcionar é necessário
pressupor um princípio lógico de não-contradição:
uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo
tempo. Racionalmente, os opostos não podem conviver
porque se excluem mutuamente.
Ora, sabemos
que nada é absolutamente só e apenas essa
coisa - verdade recorrente que descobrimos nas conclusões
recentes da física quântica (ao afirmar,
por exemplo, que a matéria é simultaneamente
matéria e energia; que a energia assume simultaneamente
a forma de onda ou de partícula; que o facto de
haver um sujeito observador influi no comportamento do
objecto observado - conhecida, esta última ideia,
como o "princípio da incerteza", formulado
por Heisenberg). Também descobrimos esta verdade
no taoísmo, filosofia milenar que postulava o princípio
da complementaridade dos opostos (a coincidentia oppositorum
de que nos fala Jung e antes dele todas as tradições
de alquimistas e esoteristas). Até ao nível
do próprio senso comum podemos encontrar esta ideia
- utilizemos duas imagens perfeitamente evidentes para
qualquer pessoa: a noite traz em si a semente do dia que
começará a "nascer" quando esta
atingir o seu auge, e portanto dia e noite são
inseparáveis; não faria sentido eu estar
a mentir se não existisse uma verdade que evito
e de que me estou a desviar - posso mentir porque há
uma verdade que me assegura a mentira. Uma coisa só
existe e ganha sentido por referência ao seu oposto.
Vemos, assim, como qualquer ideia contém em si
o seu próprio oposto em potência e como são
inseparáveis.
Mas a aposta
feita no racionalismo, acreditar que o intelecto terá
o poder de nos revelar a totalidade do mundo e do homem,
e assim apreender-lhe a realidade, não é
específico do mundo actual - no entanto, o que
caracteriza a viragem específica da modernidade
é a subordinação da maioria das dimensões
da vida individual e da vida colectiva à dimensão
produtiva, votando-as assim a uma definição
predominantemente económica da razão; a
própria validação da racionalidade
submetida, pois, à eficácia utilitária
do saber e da acção.
À semelhança
do mundo moderno que "cortou" com a religiosidade
tradicional instaurando o pensamento racional para chegar
à verdade, os filósofos gregos "cortaram"
com o pensamento mágico-religioso e místico
do Médio e Extremo Oriente que imperava na altura
e que, pela sua simplicidade (estreitamente ligado aos
elementos naturais, e sem mitologias, cosmogonias ou divindades
elaboradas), seria talvez a religião mais "simples"
que se poderia conhecer.
Talvez ao edifício
filosófico e lógico aristotélico
seja imputável parte da responsabilidade por esta
"fé cega na razão", característica
da Grécia e recuperada pelos pensadores do renascimento
- intensificada até chegar à situação-limite
a que o homem moderno chegou (a própria expressão
que empregamos, "fé cega na razão",
traduz bem o carácter da modalidade da experiência
humana moderna: substitui-se "deus" pela "razão"
que tudo pode - supostamente - conhecer); o edifício
aristotélico, dizíamos, pode ser responsabilizado
pela crença ilimitada no raciocínio e na
lógica, ao afirmar como postulado e condição
sine qua non de cognoscibilidade que "uma coisa não
pode ser e não ser ao mesmo tempo". Parafraseando:
se A é A, então só pode ser A e não
pode ser não-A. É indispensável que
aceitemos que A é imutável, parcial, sempre
igual a si mesmo e isolado do resto do mundo para que
o possamos conhecer com segurança.
A dicotomia
entre "ser e não ser" sempre minou todo
o pensamento ocidental desde a aurora helénica;
sempre presente, e por vezes denunciada, como por exemplo
no caso da célebre locução de Hamlet:
"Ser ou não ser, eis a questão!",
a resolução da dicotomia ontológica
que consistiu na radicalização dos opostos
estava irremediavelmente embutida na cultura ocidental:
tanto que o ocidental pouco lúcido viria a repetir
essa frase de William Shakespeare vezes sem conta, como
se revelasse uma verdade filosófica profunda. Afinal,
e temos as mais recentes descobertas da física
a suportar este argumento, ela não é mais
do que um grande equívoco ontológico. Como
afirmou o mestre taoísta Lao-Tzu, "ser e não
ser são os dois pólos de uma mesma curva":
a questão não é "ser ou não
ser", mas sim "ser e não ser". Uma
verdade da sabedoria oriental, ensinada ao longo de várias
gerações cujos últimos mestres viveram
2000 anos antes do Senhor Jesus, o Cristo.
Até agora,
dissertámos um pouco sobre a relatividade - a dualidade
- de uma mente que para conhecer tem de isolar, de classificar,
de dissecar, de proceder enfim por análise, por
dedução, indo do mais geral para o mais
concreto, e que o homem tem utilizado para se afirmar
e desbravar os mistérios do mundo. Ora, para perceber
toda a complexidade do homem, do mundo e das leis que
o regem, há que utilizar faculdades outras que
não o raciocínio analítico. Como
escreveu Novalis, poeta alemão do final do século
XVIII, "a ciência é apenas metade; a
outra metade é a fé".
O grande drama
do homem moderno é não ter valores transcendentes
que expliquem o seu lugar no mundo, que dêem sentido
à sua experiência, seja prazerosa, seja de
sofrimento - e todos sabemos como a parte maior de intolerabilidade
do sofrimento vem de não percebermos o seu sentido
(se fôssemos alquimistas, diríamos que o
sofrimento é "fogo" no laboratório
que é a nossa experiência humana, destinado
a alquimizar o que de nós há de mais denso
e transformá-lo em algo de mais subtil: sofrendo
mas integrando conscientemente toda a experiência
vivida, alquimizaríamos o que há de material
e instintivo em algo de luminoso e espiritual - a lenta
ascensão da consciência humana, ou - simbolicamente
- a transformação do "chumbo"
em "ouro").
Mas mais importante,
e complementar deste quadro de falta de valores transcendentes,
é o facto de o homem insistir em substituir a dimensão
de sagrado que perdeu por uma razão fragmentária,
e torná-la única instância legitimadora
de toda a acção e entendimento do mundo;
insuficiente, porém, e como vimos, para apreender
a total complexidade do homem total - única via
de acesso, e de reconhecimento, ao sagrado. Não
há dúvida de que a ciência é
um utensílio de valor inestimável, mas tem
limitações e não deve ser tomada
como a arauta da verdade e da plena realização
do homem no mundo: "a ciência deve servir
e erra somente quando pretende usurpar o trono (...) é
um instrumento da nossa compreensão e só
obscurece a vista quando reivindica para si o privilégio
de constituir a única maneira adequada de apreender
as coisas" (Carl Jung)
Veremos em
seguida algumas das consequências da absolutização
da razão no decurso da história, e de como
a sociedade moderna é o produto dos critérios
racionalistas que o Iluminismo nos propôs.
II
Três
consequências exemplares da absolutização
do uso da razão
A
identidade problemática
No início
era o Locutor Primordial, porque no início era
o Verbo. Quando esse Locutor Primeiro era seguro ("Deus
fala no mundo"), a atenção virava-se
para o discernimento dos seus enunciados, para os mistérios
do mundo. Mas quando esta certeza se perturba com a perturbação
das instituições religiosas que a garantiam,
a atenção volta-se para a possibilidade
de encontrar substitutos ao único locutor: Quem
vai falar, e a quem? Dizendo o quê?
É porque
perde o seu lugar como sujeito passivo, lugar conferido
pela organização de um cosmos, que o indivíduo
nasce como sujeito activo, responsável pelo seu
próprio destino. Já não se trata
de ouvir e decifrar as mensagens divinas - e agir em concordância
-, mas de cada um assumir a responsabilidade pela criação
do próprio destino, em interacção
com os restantes membros da comunidade.
Toda a interacção
social é um processo de visibilidade que tem a
ver com a teatralização da vida colectiva,
onde cada um dos actores é simultaneamente espectador.
Os ritos sociais são as regras da teatralidade
da vida colectiva, e são tanto mais indiscutíveis
quanto mais cada um considerar o seu papel como parte
de uma peça ditada por uma instância transcendente,
exterior, por conseguinte, ao espaço e à
história da colectividade, a partir de um ponto
de fuga a partir do qual se perspectivam todos os lugares
da cena. Essa instância é o fundamento indiscutível
da própria representação.
A identidade
e o lugar atribuído a cada um são, assim,
relativamente estáveis e ditados desde esse ponto.
Tanto o desenrolar da cena como os lugares atribuídos
aos actores estão fixados de antemão por
uma ordem transcendente, revelada numa temporalidade a-histórica,
sem uma origem nem um termo determinados no decurso da
temporalidade mortal dos homens, e que se sobrepõe
assim ao desenrolar factual da história humana.
Por isso se designa como temporalidade mítica,
por apresentar o cenário de uma outra representação,
a dos deuses, o das gesta fundadoras do cosmos, onde a
sociedade dos homens ocupa o centro, ao mesmo tempo que
este é o seu reflexo especular e a sua razão
de ser.
Nas sociedades
tradicionais, encontramos sempre a presença de
uma narrativa das origens, que tanto atribui um lugar
e uma explicação à experiência
histórica e contingente como dita a sua forma de
organização. São estes mitos fundadores
que asseguram às mudanças coerência
e inteligibilidade.
Nas sociedades
ocidentais, as narrativas das origens que desde sempre
serviram de quadro à estruturação
de percepção do cosmos e da vida colectiva
são os mitos judaico-cristãos da criação.
As versões bíblicas da criação
do mundo, assim como as versões eclécticas
dos mitos indo- -europeus que nos chegaram através
dos mitólogos gregos, nomeadamente Homero, Hesíodo,
e os autores pré-socráticos, formam a herança
mitológica que estrutura o nosso imaginário.
A partir do
século XVII, o contacto dos povos europeus com
outras culturas, nomeadamente asiáticas, africanas
e ameríndias, reforçou o processo de desencantamento
característico da nossa modernidade. A Antrolopologia
e a Etnologia têm posto em relevo que para além
da natureza multifacetada do mosaico das culturas e da
relativa convergência da lógica que preside
às suas representações míticas,
todas as culturas estabelecem um princípio demiúrgico
ou divino a partir do qual um quadro estável preside
ao desenrolar histórico da experiência contingente
da vida humana com as suas múltiplas dimensões
e os seus diversos domínios.
A consciência
da diversidade dos mitos das origens, das teogonias, é
em grande parte responsável pela relativização
moderna do fundamento religioso da experiência.
O desencantamento
é o processo através do qual a razão
humana procura indagar os mistérios do mundo da
experiência, tanto individual como colectiva, e
aspira a um questionamento autónomo em relação
às razões que o quadro mítico lhe
oferece, instituindo-se, assim, a razão humana
em sujeito de saber e de fazer independente do Númen
da Palavra mágica originária.
É este
processo de desencantamento que fundamenta a secularização
observada como atitude nas mais diversas formas de sociedade.
Traduz-se, nomeadamente, na emergência de uma nova
modalidade de racionalidade, a da razão iluminista,
enquanto princípio imanente do conhecimento, da
acção e da linguagem. A contrastar com a
lógica religiosa, a lógica da secularização
moderna - fundamentada na indagação autónoma
da razão humana -, esvazia os ritos sociais da
sua referência transcendente de legitimição
e da consequente estabilidade das normas, para em seu
lugar instaurar a experimentação, a observação
e o cálculo como modalidades legitimadoras do saber,
da acção e da linguagem. A própria
necessidade de legitimar é fonte de instabilidade.
À razão
humana está, por isso, reservada doravante já
não apenas a escuta e a interpretação
de uma Palavra transcendente, do Verbo bíblico
ao Logos Grego, como processo fundador da legitimidade,
mas o recorte de um lugar particular a partir do qual
se possa instaurar como sujeito autónomo. É
a identidade deste sujeito autónomo que se torna
problemática, instável, processo de realização
nunca acabado definitivamente na modernidade.
É neste
quadro moderno que se assiste à promoção
de categoria de sujeito, autonomizado em relação
a uma identidade fixa e institucionalmente marcada de
maneira definitiva e indiscutível. Mas no próprio
processo da sua produção, o sujeito esvazia-se
de qualquer conteúdo substantivo e concreto, relegando-o
para um destino movediço e flutuante, nómada,
o de um duplo sem modelo fixo. Nasce assim o problema
da Identidade. Quem sou eu, agora que já não
tenho um "deus" que me diga quem devo ser?
O habitante de um espaço vazio
Para o homem
religioso, o espaço não é homogéneo:
há um espaço sagrado e há outros
espaços não sagrados, sem estrutura nem
consistência. Esta não-homogeneidade espacial
traduz-se por uma oposição entre o espaço
sagrado - o único que é real, o que existe
realmente - e tudo o resto, a extensão informe
que o envolve.
Quando o sagrado
se manifesta por uma qualquer hierofania, não só
há ruptura na homogeneidade do espaço, como
revelação de uma realidade absoluta que
se opõe à não- -realidade da imensa
extensão envolvente. A manifestação
do sagrado funda ontologicamente o mundo. Esta descoberta
do espaço sagrado tem, pois, um valor existencial
para o homem religioso, porque nada pode começar,
nada se pode fazer, sem uma orientação prévia
- e toda a orientação implica a aquisição
de um ponto fixo e central - o axis mundi. Para
viver no mundo é preciso fundá-lo - e nenhum
mundo pode nascer no caos da homogeneidade e da relatividade
do espaço profano.
Esta experiência
religiosa da não-homogeneidade do espaço
constitui uma experiência primordial, homologável
a uma fundação do mundo. É a ruptura
operada no espaço que permite a constituição
do mundo, porque é ela que descobre o "ponto
fixo", o eixo central de toda a orientação
futura.
Ao habitar,
pois, um território, o homem está a consagrá-lo
e a repetir a cosmogonia original. O "centro"
equivale à criação do mundo, e aí
onde o sagrado se manifesta surge uma abertura, uma porta
comunicante entre as três "zonas cósmicas":
o céu, a terra e o "submundo" dos infernos.
O homem primitivo vive, pois, aí onde há
uma "abertura" para o sagrado.
A ruptura mais
significativa nas sociedades primitivas situa-se ao nível
da fronteira entre o espaço da comunidade (o cosmos),
por um lado, e o mundo informe e indefinido dos outros
(o caos). Instalar-se num território implica sempre
uma decisão vital, quer para o indivíduo,
quer para a comunidade. O homem assume com a reiteração
da Cosmogonia a criação do "mundo"
que escolheu habitar, e a responsabilidade de o manter
e de o renovar: a habitação é santificada
porque constitui uma imago mundi e o mundo é
uma criação divina. Habitar uma moradia
é uma decisão religiosa.
A concepção
estética renascentista, em ruptura para com as
concepções místicas (é de
referir, a este propósito, a Civitate Dei de Santo Agostinho), é distintiva de uma pluralidade
de espaços funcionais. A concepção
funcional integrou-se no paradigma dominante da organização
do espaço habitado moderno, ao mesmo tempo abstracto
(geométrico) e empírico (funcional).
A Revolução
Industrial respeitou esta herança moderna do funcionalismo,
redefinido a partir da visão eufórica da
Luzes dos ideais de progresso de uma razão ilumista.
Radicalizou o funcionalismo, aliás, rompendo com
a polifuncionalidade que impedia a especialização
racional dos espaços - o que viria a dar lugar
aos projectos de desconcentração e segmentação
do tecido social.
Esta forma
funcional e progressista de urbanismo insere-se no quadro
da explosão urbana que acompanha o desabrochar
da industrialização com o consequente êxodo
rural. O crescimento demográfico urbano acelerou
a necessidade de planificação racional das
novas cidades. A população urbana da Europa
passou, entre 1850 e 1970, de cerca de 20 milhões
de habitantes para mais de 250 milhões. Era uma
população recentemente emigrada do campo,
habituada por isso a uma concepção global
e integrada da vida colectiva, contando com os laços
que prendem o indivíduo ao grupo, em que todos
se conheciam em função de uma história
comum e o controlo social era exercido à ordem
à conservação da produção
de uma cultura própria, em que a segurança
social perante os reveses da natureza era, por conseguinte,
assegurada em virtude de formas de solidariedade concreta
e directa.
Os recém-chegados
às novas cidades e aos novos subúrbios das
antigas urbes, confrontados agora com espaços onde
a história colectiva se havia processado sem eles,
perdem os pontos de referência que até então
tinham garantido o reconhecimento recíproco e assegurado
as condições indispensáveis ao desenvolvimento
de formas concretas de solidariedade. Ficam assim votados
à irrupção de comportamentos anómicos
de resposta das disfunções sociais e são
atirados para espaços marginais em relação
aos centros de decisão e de normalidade. A anomia,
conceito cunhado pelo sociólogo Durkheim, refere-se
precisamente ao desaparecimento das redes de sociabilidade
tradicional e à sua substituição,
pelo anonimato, pela alienação, pela marginalização
e por uma solidão demasiado insuportável
que, como uma orquestra ensurdecedora, conduziram a inúmeros
e desesperados actos de suicídio.
O ideal funcionalista
atingiu o seu máximo entre as duas grandes guerras,
com o arquitecto Le Corbusier apresentando ao Congresso
de Urbanismo de Atenas uma proposta dominada pela ideia
de zoning - "a cada função
e a cada indivíduo o seu justo lugar". O resultado
foi amplamente negativo: monotonia, degradação,
fealdade, gigantismo, distâncias cada vez maiores
entre locais de habitação, de trabalho e
de serviços, insuficiência dos indispensáveis
meios de transporte, solidão e aborrecimento sobretudo
nas pessoas idosas, insegurança dos espaços
intersticiais cada vez mais votados à circulação
de uma população anónima, criminalização,
esvaziamento e terceirização dos centros
urbanos.
Uma sociabilidade comprometida e sem raízes
Mais do que
qualquer outro invento, o relógio mecânico
- cuja invenção data do século XIV
-, é o resultado de uma estreita e fecunda convergência
de conhecimentos científicos, em particular da
astronomia e da mecânica, com o engenho técnico.
E esta convergência é já uma das características
fundamentais da modernidade, visto indiciar a autonomia
de uma indagação racional em relação
a um saber transcendente e mítico. Daí a
natureza escandalosa deste invento e as probições
de que os seus autores começaram a ser alvo por
parte da Igreja, como todo o imaginário efabulador
que as rodeavam.
Até ao
século XIV, havia na Europa duas maneiras de contagem
do tempo: o sistema canónico e o sistema dito temporário.
O sistema canónico consistia na regulação
das horas pelo sino que chamava para os ofícios
religiosos, sete vezes por dia, por altura das orações
regulares de Matinas (a meio da noite), de Primas (cerca das actuais 6 horas da manhã), das Laudes (ao nascer do Sol), de Terças (pelas 9
horas), das Sextas (pelas 12 horas), das Nonas (pelas actuais 15 horas), das Vésperas (ao pôr do Sol) e das Completas (ao deitar).
O sistema temporário,
por seu lado, dividia as 24 horas do dia em duas metades
isócronas, correspondendo o ponto de partida da
divisão ao nascer do sol. A distância entre
as horas do sistema temporário variava, assim,
de acordo com as estações do ano e com a
latitude em que nos encontrássemos. Em cada manhã,
a tarefa de dividir o dia e de regular o pêndulo
comum revestia-se, por conseguinte, de uma grande importância
para o ritmo da vida de toda a comunidade, pois dessa
função dependia o ritmo dos trabalhos e
de todas as práticas colectivas.
A experiência
colectiva tradicional é, aliás, pontuada
por diversos ciclos: a alternância dia/noite, a
sucessão das semanas e das estações
do ano, etc. Esta periodicidade sem fim, o devir cíclico
dos ritmos da vida são associados com a Lua, que
controla as águas, a chuva, a vegetação,
a fertilidade... Os ritmos lunares são a medida
do tempo e os primeiros calendários são
lunares. Da mesma forma, o percurso anual do Sol marca
o início de um novo ano e, portanto, a altura de
recriar a fundação original do mundo imitando a Cosmogonia fundadora.
A invenção
do relógio mecânico e a redução
cronométrica da duração do tempo
a uma sucessão estereotipada de batimentos uniformes,
a uma pura sucessão rítmica de momentos
homogéneos, estava destinada a desempenhar um papel
fundamental no devir das nossas sociedades ocidentais.
Há, inclusivamente, quem lhe atribua a responsabilidade
pela viragem na nossa modernidade.
A duração
torna-se, assim, graças a este novo dispositivo
cronométrico, pura potencialidade, aberta em permanência
a toda a espécie de projectos, na medida em que
esvazia a temporalidade de toda e qualquer duração
concreta de sociabilidade. Não sendo já
o tempo de ninguém, o tempo cronométrico
e o ritmo que imprime à vida colectiva tornam-se
o tempo e o ritmo de toda a gente.
Nas sociedades
tradicionais, o tempo é vivido como pleno, uno
e indiviso. Esta plenitude da experiência do tempo
traduz-se na referência do presente aos tempos originários
fundadores, associados à própria origem
cósmica do universo. Situado fora da temporalidade
efémera da vida, marcada pela experiência
limite da morte (esta muitas vezes encarada como uma transição e não verdadeiramente um fim), o tempo mítico
originário assegura, como vimos, a coerência
e a inteligibilidade do mundo humano.
A constrastar
com a concepção una, plena e indivisa da
temporalidade que encontramos nas sociedades tradicionais,
assistimos nas sociedades modernas a um processo de divisão
do tempo, análogo ao que se fez com o espaço.
A divisão moderna do tempo apresenta, nomeadamente,
as seguintes características: autonomização
positiva do presente em relação à
memória do passado e aos projectos do futuro, estereotipização
dos ritos sociais, estratégia amnésica.
A autonomização
positiva do presente equivale à prossecução
de uma espécie de processo interminável
de libertação do sujeito em relação
à memória do passado, encarado como coacção
às virtualidades de autonomia do sujeito na fruição
plena de cada um dos momentos da experiência.
O homem moderno
dá prioridade à plena fruição
das oportunidades que se lhe abrem actualmente e faz depender
dessa fruição a plenitude da sua autonomia
e a sua realização pessoal, valores centrais
e indiscutíveis da visão moderna do mundo.
Ao contrário
do mundo tradicional, que procura o restabelecimento de
uma ordem ancestral e transcendente, o homem moderno intervém
no presente no sentido de cortar as amarras com tudo o
que o impeça de valer por si e fazer eclodir as
oportunidades que se lhe oferecem. A racionalidade funcional
torna-se, assim, o princípio da acção
e da linguagem modernas e estende-se aos mais diversos
domínios da experiência, tanto do mundo exterior
como do mundo interior.
São,
assim, relegados para o domínio individual o prosseguimento
das funções totalizantes da experiência.
Já não contam tanto as solidariedades fundamentadas
pela partilha de um território e de um tempo comuns,
mas a partilha de projectos comuns autónomos e
privados. O encontro e o convívio até podem
ser alargados indefinidamente, mas este alargamento faz-se
em função de uma escolha individual de modo
a serem privilegiadas a evasão e a ruptura em relação
às estratégias que ditam o modo de funcionamento
dos processos colectivos.
Numa frase:
o homem passa a relacionar-se individualmente com outros
indivíduos por afinidades electivas, formando redes
de sociabilidade privadas entre quem partilha de hobbies,
interesses e preferências comuns.
III
A religiosidade do homem não-religioso e as novas
formas de "religare" a Deus
Será
o homem moderno realmente não-religioso?
O homem religioso
assume um modo de existência específica no
mundo, e apesar da diversidade formas histórico-religiosas,
este modo específico é sempre reconhecível.
Em qualquer contexto histórico, o homo religiosus crê sempre que existe uma realidade absoluta, o
sagrado, que transcende este mundo mas que se manifesta
neste mundo, e, por este facto, o santifica e o torna
real. Crê, além disso, que a vida tem uma
origem sagrada e que a existência humana actualiza
todas as suas potencialidades na medida em que é
religiosa, i.e., na medida em que participa da realidade.
O homem moderno
a-religioso assume uma nova situação existencial:
reconhece-se unicamente sujeito agente da história,
e recusa todo o apelo à transcendência. Dito
por outras palavras, não aceita nenhum modelo de
humanidade fora da condição humana, tal
qual ela se deixa decifrar nas diversas situações
históricas. O Homem faz-se a si próprio,
e não consegue fazer-se completamente senão
na medida em que se dessacraliza e dessacraliza o mundo.
O sagrado é o obstáculo por excelência
diante da sua liberdade. O homem só se tornará
ele próprio no momento em que estiver radicalmente
desmistificado. Só será verdadeiramente
livre no momento em que tiver matado o seu último
Deus.
No entanto,
o homem moderno descende do homo religiosus, e queira-o
ou não, é também um resultado das
situações assumidas pelos seus antepassados.
Assim como a Natureza é o produto de uma secularização
progressiva do Cosmos obra de Deus, assim o homem profano
é o resultado de uma dessacralização
da existência humana. Mas isto quer dizer que o
homem a-religioso se constituiu por oposição
ao seu predecessor, esforçando-se por se "esvaziar"
de toda a religiosidade e de toda a significação
trans-humana. Reconhece-se a si próprio na medida
em que se liberta e se purifica das "superstições"
dos seus antepassados.
Por outras
palavras, o homem profano, queira-o ou não, conserva
ainda os vestígios do comportamento do homem religioso,
mas esvaziado das significações religiosas.
Faça o que fizer, é um herdeiro. Não
pode abolir definitivamente o seu passado, porque ele
próprio é o produto desse passado.
Para dispor
de um mundo para si, dessacralizou o mundo em que os seus
antepassados viviam - mas para chegar aí, foi obrigado
a tomar o inverso de um comportamento que o precedia,
e este comportamento sente-o ele sempre, sob uma forma
ou outra, prestes a reactualizar-se no mais profundo do
seu ser.
A maioria dos
homens modernos ainda se comporta religiosamente, se bem
que não esteja consciente desse facto. Não
se trata somente da massa das "superstições"
ou dos "tabus" do homem moderno, que têm
todos uma estrutura e uma origem mágico-religiosas.
O homem moderno
que se pretende não-religioso dispõe ainda
de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritualismos
degradados (festejos de ano novo, inauguração
de uma casa, se bem que laicizados, têm a estrutura
de um ritual de renovação; festas e alegrias
que acompanham um casamento ou o nascimento de uma criança,
a obtenção de um novo emprego ou de uma
subida na escala social, etc.)
Os mitos do
homem moderno estão camuflados nos espectáculos
que ele prefere, nos livros que ele lê. Até
a leitura comporta uma função mitológica,
ao permitir a "saída do tempo" comparável
à efectuada pelos mitos, projectando-o fora do
seu tempo pessoal e integrando-o noutros ritmos, fazendo-o
viver uma outra "história".
A grande maioria
dos "homens sem religião" não
está, em rigor, liberta dos comportamentos religiosos,
das teologias e das mitologias. Por exemplo, o nudismo
ou os movimentos a favor da liberdade sexual absoluta,
são ideologias onde é possível decifrar
os vestígios da "nostalgia do paraíso",
o desejo de reintegrar o estado edénico de antes
da queda onde o pecado não existia e não
havia ruptura entre as beatitudes da carne e a consciência.
Persistem ainda
diversas encenações iniciáticas em
numerosas acções e gestos do homem não-religioso
dos nossos dias. Mesmo técnicas especificamente
modernas, como a psicanálise, mantêm ainda
o padrão iniciático. O paciente é
convidado a descer muito profundamente em si mesmo, a
fazer reviver o seu passado, a afrontar de novo os seus
traumatismos e -, do ponto de vista formal, esta operação
perigosa assemelha-se às descidas iniciáticas
aos "infernos", entre os espectros, e aos combates
com os "monstros". Assim como o iniciado devia
"morrer" e "resuscitar" para poder
aceder a uma existência plenamente responsável
e aberta aos valores espirituais - a análise dos
nossos dias deve afrontar o seu próprio "inconsciente",
assediado de espectros e de monstros, para encontrar nisso
a saúde e a integridade psíquicas, e, por
consequência, o mundo de valores culturais.
A iniciação
está tão estreitamente ligada ao modo de
ser da existência humana que um número considerável
de gestos e de acções do homem moderno ainda
repetem os quadros iniciáticos. A "luta pela
vida", as "provas" e as "dificuldades"
que entravam uma vocação ou uma carreira
repetem de algum modo as práticas iniciáticas:
é em consequência do "sofrimento"
que um jovem se experimenta a si próprio, conhece
as suas possibilidades, toma consciência da sua
força e acaba por tornar-se ele próprio
espiritualmente adulto e criador.
O homem profano
é o descendente desse homo religiosus e não pode anular os comportamentos dos seus antepassados;
além disso, uma grande parte da sua existência
é alimentada por pulsões que lhe chegam
do mais profundo do seu ser, desta zona que se chamou
o inconsciente.
Como Carl Gustav
Jung concluiu, os conteúdos e as estruturas do
insconsciente apresentam similitudes surpreendentes com
as imagens e as figuras mitológicas. Os conteúdos
e as estruturas do inconsciente são o resultado
das situações existenciais imemoriais, sobretudo
das situações críticas, e é
por essa razão que o inconsciente apresenta uma
aura religiosa. Toda a crise existencial põe de
novo em questão ao mesmo tempo a realidade do mundo
e a presença do homem no mundo: isto quer dizer
que a crise existencial é, em suma, religiosa,
visto que, aos níveis arcaicos de culturas, o ser
confunde-se com o sagrado.
A religião
é a solução exemplar de toda a crise
existencial, porque é a experiência do sagrado
que funda o mundo. Solução exemplar, não
somente porque é indefinidamente repetível,
mas também porque é considerada de origem
transcendental e, por consequência, valorizada como
uma revelação recebida de um outro mundo,
trans-humano. A solução religiosa não
somente resolve a crise, mas ao mesmo tempo torna a existência
"aberta" a valores que já não
são contingentes nem particulares, permitindo assim
ao homem ultrapassar as situações pessoais
e, no fim de contas, o acesso ao mundo do espírito.
Até
o homem mais profundamente a-religioso partilha ainda,
no mais profundo do seu ser, de um comportamento religiosamente
orientado. Mas as "mitologias" privadas do homem
moderno - os seus sonhos, os seus devaneios, os seus fantasmas,
etc. - não conseguem alçar-se ao regime
ontológico dos mitos, justamente porque não
são vividos pelo homem total e, por consequência,
não transformam uma situação particular
em situação exemplar. Do mesmo modo como
as angústias do homem moderno, as suas experiências
oníricas ou imaginárias, bem que "religiosas"
do ponto de vista formal, não se integram, como
entre o homem religioso, numa concepção
do mundo e não fundam um comportamento.
A actividade
inconsciente do homem moderno não cessa de lhe
apresentar inúmeros símbolos, e cada um
tem uma certa mensagem a transmitir, uma certa missão
a desempenhar, tendo em vista assegurar o equilíbrio
da psique ou restabelecê-lo. O símbolo não
somente torna o mundo "aberto", mas ajuda também
o homem religioso a aceder ao universal. Porque é
graças aos símbolos que o homem sai da sua
situação particular e se "abre"
para o geral e para o universal. Os símbolos despertam
a experiência individual e transmudam-na em acto
espiritual, em compreensão metafísica do
mundo. Compreendendo o símbolo, o homem das sociedades
pré-modernas consegue viver o universal.
O homem a-religioso
das sociedades modernas é ainda alimentado e ajudado
pela actividade do seu inconsciente, sem que por isso
aceda a uma experiência e a uma visão do
mundo propriamente religioso. O inconsciente oferece-lhe
soluções para as dificuldades da sua própria
existência, e neste sentido desempenha o papel da
religião, porque, antes de se tornar uma existência
criadora de valores, a religião assegura-lhe a
integridade. De um certo ponto de vista, quase poderia
dizer-se que, entre aqueles modernos que se proclamam
não-religiosos, a religião e a mitologia
estão "ocultas" nas trevas do seu inconsciente
- o que quer dizer também que as possibilidades
de reintegrar uma experiência religiosa da vida
jazem, em tais seres, muito profundamente neles próprios.
Por isso, e
em resposta à pergunta "Será o homem
moderno realmente não-religioso?", este texto
avança com uma hipótese de resposta: "não!".
De uma concepção sagrada da experiência
a um racionalismo exacerbado, com todas as consequências
que daí advieram, encontramo-nos agora num ponto
de viragem, num momento crítico da existência
humana. E isto, porque o sentimento religioso é
uma realidade universal, intemporal e comum a todos os
homens sem excepção - por muito "desconectados"
que estejam dessa sua dimensão interior.
Ao "cortar"
a ligação com o sagrado, o homem alimentava
a ilusão de que a razão lhe explicaria tudo
e lhe conferiria sentido à experiência. O
momento actual é o da desilusão face às
respostas que o racionalismo prometia fornecer. Desencantadas
com esse racionalismo, cada vez mais pessoas procuram
formas de se "religarem" ao divino, ao sagrado,
como numa tentativa de recuperarem o "tempo perdido"
por séculos de uso da mente analítica. Porque,
como vimos, o substrato do sentimento religioso se mantém
oculto no interior do homem.
O que nos conduz
à questão seguinte: a necessidade de "religião"
é algo de intrinsecamente humano e tal como o rio
que contorna todos os obstáculos para chegar ao
mar, assim essa necessidade do homem derrubará
todas as formas concretas de manifestação
de religiosidade para chegar ao contacto com o divino.
Porque as formas são cada vez mais, em meio de
tudo isto, a parte acessória da religião
e, por isso, não-essencial. O essencial
mantém-se de forma una, indivisa, perene e imutável;
as formas mudam, sofrem actualizações ao
longo do tempo e são indissociáveis dos
contextos histórico-culturais em que se produzem.
A tendência
é para o homem estar cada vez mais liberto das formas de manifestação e objectivação do sagrado no mundo e mais atento ao conteúdo do sentimento religioso no interior do próprio
Homem. "Deus" ou a Verdade estão cada
vez mais no interior do Homem, à espera de serem
reconhecidos, admitidos, relembrados, retomados pela consciência
que esqueceu e foi buscar "fora" algo que está
necessariamente "dentro".
Nas palavras
magistrais de Jiddu Krishnamurti, " 'A verdade
é uma terra sem caminho'. Os homens dela não
se podem aproximar por qualquer organização,
por qualquer credo, por qualquer dogma, sacerdote ou ritual,
nem por qualquer conhecimento filosófico ou técnica
psicológica. O Homem tem de encontrar a verdade
através do espelho das relações,
através do percebimento do conteúdo da sua
própria psique, pela observação,
e não por qualquer dissecação intelectual
e analítica!" (J. Krishnamurti, 1929)
Compreende-se,
neste contexto, que se estejam por toda a Europa recuperando
as filosofias antigas, nomeadamente as orientais, e também
desenvolvendo neo-filosofias orientalistas, inspiradas
nessas filosofias arcaicas (e até fazendo um trabalho
de bricolage, tipicamente moderno, com elementos
retirados das várias tradições místicas)
- porque são filosofias introspectivas e de auto-conhecimento; mas também desenvolvendo
técnicas, recuperando mitologias, explicações
do mundo e linguagens simbólicas que visam permitir
ao homem moderno reencontrar "deus", o "sentido"
e a "verdade", que são os três
aspectos indissociáveis que o homem busca no sagrado,
numa tentativa de recuperar a fé e um equilíbrio
psíquico e emocional que o racionalismo não
permitiu atingir - dado, pela sua própria natureza,
não dar espaço à inclusão
da dimensão "irracional" do homem.
Neste processo
de "busca desenfreada do tempo perdido", o homem
tenta recuperar tradições negligenciadas
pelo racionalismo ocidental no decurso da história:
é o caso da recuperação do budismo,
do taoísmo, do yoga, das técnicas de meditação,
dos rituais da magia e da religião pagãs
(o chamado neopaganismo, ou wicca); da (re)descoberta
da astrologia como linguagem simultaneamente simbólica,
transcendente e psicanalítica; do crescente recurso
às denominadas "medicinas alternativas"
e de naturopatia; mas também da integração
de uma panóplia de conceitos, confusamente misturados,
recolhidos das diversas religiões ancestrais. Cada
vez mais pessoas, hoje em dia, falam de karma, reencarnação,
energias cósmicas, avatares, zen, ashram, mandalas...
O que alguns
chamam de movimento "New Age", ou da Nova Era,
é a redescoberta que o homem está a fazer
do sagrado, não já no exterior, mas no interior
de si próprio. É a descoberta de um "deus
imanente", interior, e não já de um
"deus transcendente" cujos vestígios
há que buscar no mundo.
Esta descoberta
de que o homem "leva deus dentro" altera radicalmente
a relação do homem com a natureza, com os
outros homens e consigo próprio. O Homem aproxima-se
de "deus" na medida em que se afasta dos seus
padrões de comportamento equívocos, baseados
no medo, no instinto de sobrevivência, e em tudo
o que é inconsciente - tudo o que em si é
obscuro e não tem 'luz'. O homem aproxima-se de
"deus" à medida a que actualiza os seus
potenciais criativos, produtivos, relacionais, de dádiva,
de compaixão, de perdão e de cura. Atributos
outrora exclusivos de deus, e agora os reptos do homem
moderno. É ao homem que cabe "ser" deus,
ou deixar "deus" actuar por seu intermédio.
E nessa (re)descoberta
tipicamente moderna, e mormente por estar enquadrada por
uma enorme crise de referências espirituais e de
valores transcendentes, há espaço para todas
as confusões e para todas as iluminações;
há espaço para visões apocalípticas,
gurus cheios de glamour, seitas e religiões
que se fundam de um dia para o outro - tal como diria
alguém que o autor conhece, reformulando uma célebre
máxima de Karl Marx e adaptando-a à confusão
espiritual dos tempos que correm, "a Nova Era é
o ópio do povo".
Mas também
há o espaço para a auto-descoberta, para
a observação consciente do numen e o comprometimento
com a própria evolução, numa jornada
pessoal de tomada de consciência e de ascenção
na matéria. As condições estão
criadas: cabe a cada um de nós, individualmente,
tomar as rédeas do próprio destino e fazer
por actualizar no mundo o deus que traz dentro.
© Nuno
Michaels, 2002
Fonte: http://nunomichaels.no.sapo.pt/A%20busca%20do%20divino.html |