A vida humana se caracteriza por perguntas
e respostas relacionadas ao conhecimento, ao prazer, ao
sentido da vida. É neste intercâmbio de buscas
e satisfações que o ser humano vai construindo
sua história pessoal tecida em três dimensões:
biológica, psico-afetiva, espiritual. Estes três
grandes aspectos da vida humana demandam respostas segundo
a natureza das indagações de todo e qualquer
ser humano.
Quem já não se perguntou:
Para que nasci? Para que estou gastando a minha vida?
Por que sinto necessidade de amar e de ser amado? Por
que as pessoas têm fé? Por que e para que
existe Deus? Por que sinto este sentimento tão
forte de justiça? O que vai acontecer comigo após
a morte? Estas e uma centena de outras perguntas estão
em nossas cabeças e nos atormentam.
Parece que o homem se apresenta
com uma tríplice "fome":
a) fome de tudo aquilo que se relaciona
com a sua realidade biofísica e lhe dá prazer;
b) fome de tudo aquilo que se relaciona com a afetividade,
o amor, a valorização pessoal e lhe dá
prazer;
c) fome de tudo aquilo que está relacionado com
o sagrado, o sentimento religioso, Deus, os mistérios
da vida e do além. Estas "fomes ou sedes "
precisam ser satisfeitas para realizar o equilíbrio
humano .
A questão da busca do sagrado,
ou simplesmente falando, a busca de Deus, é algo
inerente e próprio da natureza humana. O sentimento
religioso, a inquietude do coração humano
é que gerou, através dos tempos, as diferentes
religiões. A tendência para Deus é
um fenômeno universal, misterioso e incontestável.
Ele está ao nível da experiência pessoal
. Érico Veríssimo, nosso grande romancista
gaúcho escreveu; "Meu nicho interior está
vazio à procura de uma imagem". Santo Agostinho
expressou a essência da atitude religiosa em seu
grito espiritual: "Fizeste-nos para Ti, Senhor, e
o nosso coração permanece inquieto enquanto
não repousar em Ti ". A raiz da fé,
da religiosidade está na abertura do homem para
o Infinito, o Eterno, o Permanente.
Cada pessoa procura alimentar-se,
segundo as suas necessidades e preferências, mas
precisa se alimentar, pois alimento é vida. A manifestação
do sentimento religioso - a religiosidade ou a religião
- é algo encontrado nos grupos humanos desde sua
aparição no teatro da vida, no palco da
história. Esta expressão foi cultivada entre
os povos mais primitivos e em todas as populações
de qualquer nível cultural. Um grande estudioso
do assunto Félicien Challaye afirma:
"O sentimento religioso é
a mais complexa inclinação que se pode descobrir
no fundo do coração do homem; em torno desta
tendência fundamental agrupam-se todas as espécies
de aspirações, entusiasmos, curiosidades
sobre a vida, sobre o universo, sobre o além."
Depois de um certo tempo obscurecida
ou abafada, hoje a questão religiosa volta a cenas
públicas com uma força surpreendente e um
ritmo acelerado. A expressão religiosa volta com
novas formas e sem os limites de espaços, tempos
e rituais. Reza-se em Estádios diante de massas
humanas: vale lembrar a Copa Mundial nos Estados Unidos,
atitude religiosa de nossos jogadores diante do silêncio
de milhares de torcedores e telespectadores.
Na decisão do Campeonato Brasileiro
em Porto Alegre, quando todos os jogadores do Grêmio
entraram em campo abraçados e no centro do gramado,
ostensivamente se colocaram em atitude de oração
e o público, de mais de seis mil pessoas, fez um
profundo e respeitoso silêncio.
O cantor Roberto Carlos compõe
suas últimas canções, como uma homenagem
de fé em Jesus Salvador, em Maria, a Mãe
de Jesus (Nossa Senhora), e não se sente constrangido
em declarar, frente às câmeras, que reza
o terço diariamente. A animadora de programas Mara
Maravilha faz de seus programas testemunhos vivos de sua
fé, seu louvor a Deus.
Esta volta ao sagrado, no dizer de
Umberto Ecco, não é moda. A busca sempre
existiu, o que mudou são as formas de expressar
esta busca. Nunca, no passado, se viu na Televisão
tantos programas, notícias, entrevistas, debates,
filmes tanta preocupação com o tema religioso.
Está surgindo a cada dia mais movimentos de cunho
religioso, construção de templos de oração,
terreiros de Umbanda, sala de meditação
oriental, capelas, oratórios domésticos,
centros esotéricos, visando preencher o vazio interior
que as pessoas sentem.
O turismo religioso está em
alta. Organizam-se viagens, excursões a cidades
e locais onde existem videntes, para-normais, sensitivos,
ou para "tomar um banho" de energia cósmica,
o que vai ajudar no equilíbrio psico-somático-espiritual,
segundo os organizadores.
Quando a procura, a busca é
grande, intensa e urgente, surgem as ofertas. Nossa sociedade
vê-se invadida por magos, videntes, bruxos, sacerdotizas,
tarólogos, astrólogos, pais-de-santo, gurus
de toda sorte oferecendo cada um a sua proposta espiritual
muito light, que seduz e atrai, entenda-se aqui, todos
os programas, cursos, técnicas, terapias, oferecidas
através dos meios de comunicação
social. Parecem saciar a busca de Deus.
Em meio a este turbilhão de
ofertas , que mais se poderia chamar de "mercado
espiritual " que prometem responder às ansiedades
mais profundas do coração humano, permeiam
ambigüidades e contradições.
Por isso muito cuidado com o alimento
que se vai dar ao espírito que não seja
falsificado pelo colorido e pelas facilidades atraentes
dos pacotes oferecidos: isto vale para a realização
da felicidade humana nas três dimensões,
em especial a espiritual, que responde ao sentido da vida.
Erinida Gema Gheller
Fonte: http://www.pucrs.br/uni/poa/teo/erinid1.htm
|