Em virtude de tal entendimento de separatividade, o “Eu”
torna-se todo poderoso; dessa consciência de separação
nasce o medo. E onde quer que exista o medo, manifesta-se imediatamente
o desejo de buscar o conforto, em lugar do entendimento que dissipa
todo o temor. Pois o conforto adormece o vosso temor inato de
perder vossa identidade separada.
O conforto produz tão somente um ajuste
temporário, mas não uma harmonia e equilíbrio
permanentes; produz um alivio imediato em vez de um entendimento
compreensivo, contínuo; produz o adiamento do esforço,
uma evasão contínua em lugar da luta para compreender
no presente. Por causa desse temor, buscais o consolo no culto,
na prece, no erguimento de imagens, por intermédio de ritos
e cerimônias. Essa ilusão de separação
vos leva à preocupação da morte, e do que
vai acontecer no futuro, isto é, sobre se tereis de vos
reencarnar e sobre o que haveis de ter sido no passado. Por outras
palavras, são o passado e o futuro que empolgam o homem
que se acha atemorizado; a compreensão do presente, nunca.
Enquanto o presente não for compreendido, o futuro jamais
vos proporcionará seu verdadeiro significado, pois que
o futuro, na realidade, não existe.
Todos esses problemas – o de porque
nasci, ou o que acontecerá após a morte, o da sobrevivência
da alma, o da reencarnação, o de como posso tornar-me
algo mais e de como posso adquirir mais qualidades afim de encontrar
a verdade – todas essas coisas nascem da consciência
da separação.
Quando é compreendida a idéia
de que a verdade, essa realidade viva, existe em todas as coisas
e em todos os instantes, em toda a sua integridade, então
não mais existirá o pensamento de progresso, ou
seja – tornar o que é ilusório, o “Ser”,
em algo permanente. Em todas as fases da vida dá-se importância
ao individuo – não a individualidade que, tornada
plenamente consciente, dissipa sua própria consciência,
para o engrandecimento do “Eu”.
Observe a maioria das pessoas, e verificareis
que todas pensam que, por tornarem-se maiores, por ampliarem sua
consciência, mediante uma série de experiências,
pelo fato de retroceder, avançar e reencarnar, se estão
aproximando cada vez mais da verdade.
Para mim, essa concepção é
inteiramente ilusória, pois a realidade, em sua inteireza,
em sua plenitude, em sua riqueza, existe em tudo e, portanto,
é eterna. O que é permanente, eterno em tudo, não
pode progredir. O que denominamos progresso somente pode ser aplicado
a determinado fato, não à realidade.
Nossa principal preocupação deverá ser, então, a de por
qual maneira cada um se poderá tornar apercebido desse eterno, dessa viva realidade que sustenta, nutre e eleva todas as coisas e que se acha em nós mesmos.
Enquanto criardes um mundo exterior e um mundo interior e vos
esforçardes por produzir um ajustamento entre ambos, jamais,
encontrareis a realidade.
Quando o homem está consciente de
si próprio como entidade separada, continuamente busca
o exterior para encontrar auxilio, para sua subsistência,
para seu bem-estar; e desse modo cria ele desordem em lugar de
ordem, e por causa dessa desordem surgem as superstições,
as ilusões, as cerimônias.
Trata-se, portanto, da maneira, do processo
mediante o qual cada um pode realizar essa realidade interior
que assegura a tranqüilidade da vida, não a estagnação,
não a paz que obscurece, que destrói, porém
essa tranqüilidade que é a fonte da compreensão
viva e eterna.
É somente por meio do esforço
individual que a verdade pode ser realizada, não por meio
de associações de qualquer espécie que sejam.
Não podereis, por via de uma instituição,
encontrar a verdade, pois a verdade habita em vós mesmos
e as instituições não podem ajudar o indivíduo
a encontrar a verdade. Não importam quais sejam elas. Todas
tendem a tornarem-se cada vez mais formalistas e a verdade cada
vez mais delas se distancia. Precisais buscar a verdade por vós
mesmos, como indivíduos; visto que ela mora em vós,
não no exterior. Quando o individuo se houver compreendido
a si mesmo, viverá num ambiente de perfeita harmonia e
não contribuirá para a desordem do mundo.
A partir do momento em que vós, como
indivíduos, tende resolvido vosso problema particular,
tenhais realizado a verdade por vós mesmos, não
mais contribuireis para a crueldade, para as guerras, para a espantosa
tirania e desgraça que imperam no mundo.
É importante que cada individuo
compreenda, não os adornos superficiais da vida, mas como,
pelo continuamente deixar de parte a consciência que cria
a separação, se pode ele tornar apercebido dessa
realidade interior que reside em todas as coisas.
Se quiserdes verificar isto, vós,
como indivíduos, tendes que inteiramente vos desapegar
de todos os sistemas tradicionais, convencionados e socializados,
de pensamento e de conduta. Verificareis, então, quão
necessário é não confiar, quer em autoridades
de tradição, quer na conduta sistematizada. Antes
que possais compreender a verdade, é preciso que vos torneis
plenamente conscientes de vossa própria separatividade
e, assim, de todas as qualidades e seus respectivos opostos. Isto
é, tendes que vos tornar tão consciente de vós
mesmos que todos os vossos desejos, propósitos e conflitos
ocultos sejam trazidos à evidência, examinados e
compreendidos por vós. Por vos tornardes intensamente conscientes,
consumireis toda a subconsciência, pois que, quando estiverdes
plenamente cônscios de vossas ações, de vossos
pensamentos e emoções, a hipocrisia cessará
de existir, cessarão as ilusões, os desejos secretos
e as fantasias não mais terão ascendência
sobre vós. E então, quando estiverdes assim, limpos
e cheios de propósito, podereis chegar à esse estado
em que não existem pretensas qualidades e, portanto, não
há conflitos.
Quando introduzis o elemento pessoal em vosso
julgamento, inevitavelmente perverteis vossa compreensão.
Necessitais distinguir entre o que é pessoal e o que é
individual. O pessoal é acidental, e por acidental entendo
eu, as circunstancias de nascimento, o ambiente em que fostes
criados, vossa educação, vossas tradições,
vossas superstições, vossas distinções
de nacionalidade e classe, e todos os preconceitos que por este
processo se desenvolvem. O que é pessoal somente se relaciona
com o acidental, com o que é momentâneo, ainda que
esse momento possa durar o período inteiro de uma existência.
A educação moderna conduz à perversão
do pensamento e o espírito de nacionalidade, de classe,
de tradição aumentada pelo medo. Quando ajuizardes
de um fato não o façais partindo do ponto de vista
pessoal: julgai-o sob o ponto de vista do individuo, que é
o do eu.
Pois as qualidades – as virtudes e
os pecados, o bom e o mau, as alegrias e as tristezas –
pertencem a consciência do “Eu”. Quando estou
consciente de mim mesmo, invento virtudes e pecados, o bom e o
mau, o céu e o inferno, para me proporcionarem equilíbrio
em minha luta com os opostos.
Enquanto houver tal consciência da
separação, do eu, da personalidade, não pode
existir a realização da verdade; antes, porém,
que possais transcender essa consciência, tendes que vos
tornar plena e vitalmente auto-conscientes. Tal significa que
necessitais vos tornar conscientes de vós próprios
como indivíduos, não como uma máquina, não
como um mero dente da engrenagem desta rude civilização
onde impera a competição.
Antes que vos possais tornar plenamente conscientes,
e, dessa forma, perder a auto-consciência, há três
condições a passar, relativas à consciência.
Na primeira delas, o individuo é escravo dos sentidos e
de seus anseios. Para satisfazê-los, torna-se ele simplesmente
egoísta, dependendo, inteiramente, para a sua felicidade,
das coisas exteriores, das sensações e excitações
e, desse modo, fica cada vez mais emaranhado na tristeza e na
dor. Sua conduta é encaminhada pelo egoísmo. Toma
cada vez maiores responsabilidades sobre si e torna-se, por essa
forma, um simples escravo da ação. Tal homem não
tem tempo nem inclinação para a quietação
do pensamento, para a reflexão, para o exame. Pois a verdadeira
reflexão cria a dúvida, as investigações
que levam ao isolamento, ao afastamento, o que ele cuidadosamente
evita.
Depois, vem o segundo estágio em que
o homem se apercebe de suas faltas, de seus defeitos, de suas
ilusões, de suas crueldades. Tornando-se, assim, consciente
de sua própria natureza, tenta desembaraçar-se,
livrar-se do domínio dos sentidos e começa a libertar
a mente e o coração. Começa por diminuir,
gradualmente as próprias responsabilidades, sem abandonar
sua vida na torrente do mundo. A ação, nascida da
consciência de si mesmo, e na qual existe a separatividade,
é embaraçante, limitadora, pesada; porém
a ação, que é o resultado da liberdade, da
individualidade, é libertação.
O indivíduo que possui, agora, o forte
desejo de libertar-se, começa a disciplinar-se. Essa disciplina
não lhe é imposta pelo exterior, não é
o resultado da repressão; antes, em virtude do seu desejo
de ser livre, de realizar a verdade, impõe ele a si próprio
uma disciplina oriunda do entendimento – não oriunda
do medo, não coagido pelas circunstâncias sociais
ou pelo ambiente. Deseja então libertar a mente, o coração
e, desse modo, viver em harmonia. Impõe a si mesmo, por
isso, uma disciplina maior do que qualquer das disciplinas provindas
do exterior.
Em seguida vem o terceiro estágio
de consciência, em que o homem está completamente
senhor dos sentidos, completamente senhor do seu corpo. Isso não
significa ser desenvolvido muscularmente, nem que o corpo não
sinta dores, nem tão pouco que ele morra; será senhor
do corpo, no sentido de não mais se emaranhar em seus anseios,
suas sensações e excitações.
Começa ele, então, a libertar-se
do medo e das ilusões que ele próprio cria.
Uma vez que estejais libertos das ilusões,
do temor, de todas as outras qualidades, haverá para vós,
um como retiro interior nascido da alegria, retiro nascido não
do tédio, nem do retraimento, nem do intuito de fugir a
este mundo de conflito, porém um retiro interno de alegria
em meio da ação.
Quando tal acontecer, a reflexão e
a analise virão dar lugar a uma concentração
tremenda; não a concentração sobre um objeto,
mas a concentração em que não há sujeito
nem objeto, o pleno conhecimento em que não há mais
contrastes.
Ulteriormente, proveniente deste retiro,
manifesta-se uma harmonia interior, a equanimidade entre a razão
e o amor – o pensamento liberto das fantasias e teorias
pessoais, o amor liberto da especialização, amor
que é como o perfume de uma flor.
Quando existe esta harmonia, não mais
se inquire a respeito de futuro e de passado.
Não mais terá lugar a pergunta
de – se continuarei “Eu” a viver como entidade
separada.
O passado com suas faltas e tristezas, desaparece,
e o futuro, com suas esperanças, anseios e antecipações,
desaparece também: oriunda desses dois termos, nasce a
harmonia do presente, a qual é a realização
dessa inteireza que existe em todas as coisas.
Quando ela for realizada, haverá tranqüilidade,
haverá a realidade viva da felicidade.
Krishnamurti – Palestra realizada
em Londres – 1931 – Do livro: Coletânea de Palestras
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