Estamos
todos bem familiarizados com a presente situação
mundial, sendo desnecessário que nos falem dos
embustes, da corrupção, das desigualdades
sociais e econômicas, do perigo de guerras, da perene
ameaça do Oriente contra o Ocidente, etc. Para
se compreender toda esta confusão e produzir a
claridade, deve haver uma radical transformação
da mente em si, e não apenas uma reforma de remendos
ou mero ajustamento. Para abrirmos caminho através
dessa confusão existente não apenas no exterior,
mas também dentro em nós; para enfrentarmos
eficazmente as crescentes tensões e exigências,
necessitamos de uma revolução radical na
própria psique, de uma mentalidade
inteiramente nova.
Para mim, revolução
é sinônimo de religião. Com a palavra
“revolução” não me refiro
a imediatas reformas econômicas ou sociais, porém
a uma revolução na própria consciência.
Todas as outras formas de revolução, seja
comunista, seja capitalista, seja qual for, são
puramente reacionárias. Uma revolução
na mente — que significa total destruição
do que foi, para que a mente se torne
capaz de ver sem deformação e sem ilusão
o que é verdadeiro — essa é a ação
própria da religião. Penso que a mente real,
a verdadeira mente religiosa, existe, pode existir. E
ela pode ser descoberta por quem nisso penetrou com profundeza.
A mente que deitou abaixo, que destruiu todas as barreiras,
todas as mentiras que lhe impôs a sociedade, a religião
organizada, o dogma, a crença, e passou além
para descobrir o verdadeiro, essa é a verdadeira
mente religiosa.
Consideremos, pois, em primeiro
lugar, a questão da experiência. Nosso intelecto
resulta de experiência secular; o intelecto é
o depósito da memória. Sem essa memória,
sem essa acumulação de experiência
e conhecimento, ser-nos-ia completamente impossível
funcionar como entes humanos. A experiência, a memória,
são obviamente necessárias num certo nível.
Mas, por igual me parece óbvio que toda experiência
baseada no condicionamento pelo saber, pela memória,
é necessariamente limitada. Por conseguinte, a
experiência não é fator de libertação.
Não sei se já pensastes nisso.
Toda experiência é
condicionada pelas precedentes. Portanto, não há
experiência nova, porque cada experiência
traz sempre o colorido do passado. No próprio processo
de experimentar existe a deformação proveniente
do passado, sendo o passado: conhecimento, memória,
várias experiências acumuladas, não
só as individuais, mas também as da raça,
da coletividade. Ora, é possível rejeitarmos
toda essa experiência?
Não sei se já
considerastes a questão da rejeição,
o que significa rejeitar uma coisa. Significa capacidade
para rejeitar a autoridade do conhecimento, rejeitar a
autoridade da experiência, rejeitar a autoridade
da memória, rejeitar sacerdotes, igrejas, tudo
que foi imposto à psique. Para a maioria de nós,
só há duas maneiras de rejeitar —
por meio do saber ou por meio de reação.
Rejeitais a autoridade do sacerdote, da igreja, da palavra
escrita, do livro, ou porque estudastes, investigastes,
acumulastes outros conhecimentos, ou porque não
gostais da coisa e reagis contra ela. Mas a verdadeira
rejeição significa rejeitar sem saber o
que acontecerá depois, sem esperanças para
o futuro. Dizer: “Não sei o que é
verdadeiro, mas isto é falso”,
isso, decerto, representa a única rejeição
verdadeira, porquanto não provém do conhecimento
calculista nem de reação. Afinal de contas,
se sabeis de antemão o resultado de vossa rejeição,
trata-se então de mera troca, mera transação;
por conseqüência, isso não é
de modo nenhum a verdadeira rejeição.
Acho necessário compreender
isso um pouco, examiná-lo com certa profundeza,
porquanto desejo averiguar, por meio de rejeição,
o que é a verdadeira mente religiosa. Tenho para
mim que por meio da rejeição se pode descobrir
o que é verdadeiro. Não se pode descobrir
o que é verdadeiro por meio de asserção.
É preciso limpar completamente a lousa de tudo
o que é conhecido, antes que se possa descobrir
o verdadeiro.
Vamos, pois, averiguar o que
é a mente religiosa, por meio da rejeição,
isto é, por meio da negação, por
meio do pensar negativo. E, evidentemente, não
há investigação negativa quando a
rejeição se baseia no conhecimento, na reação.
Espero esteja bem claro isso. Se rejeito a autoridade
do sacerdote, do livro ou da tradição, porque
não gosto dela, isso é mera reação,
porquanto substituo por outra coisa aquilo que rejeitei;
e se rejeito porque possuo suficientes conhecimentos,
fatos, informações, etc., nesse caso o meu
saber se torna o meu refúgio. Mas existe uma rejeição
que não é produto do conhecimento, porém
proveniente da observação, do perceber uma
coisa como é, o fato que ela é; e essa é
a rejeição verdadeira, porquanto deixa a
mente purificada de todas as suposições,
ilusões, autoridades, desejos.
É possível, pois,
rejeitar a autoridade? Não me refiro à autoridade
do policial, da lei do país, etc.; rejeitá-la
seria estúpido, infantil, e nos levaria à
prisão. Refiro-me, sim, à rejeição
da autoridade imposta pela sociedade à psique,
à consciência, muito profundamente; rejeitar
a autoridade de toda experiência, todo conhecimento,
de modo que a mente fique num estado de não saber
o que acontecerá, sabendo apenas o que não
é verdadeiro.
Se penetrardes até aí,
isso vos dará um extraordinário sentimento
de integração, de não vos estardes
debatendo entre desejos contraditórios, em conflito.
Ver o que é verdadeiro, o que é falso, ou
ver o verdadeiro no falso, isso vos dá um sentimento
de percepção real, vos dá clareza.
Está a mente então numa posição
uma vez que destruiu todas as seguranças, temores,
ambições, vaidades, visões, propósitos,
tudo — num estado em que se acha completamente só,
não influenciada.
Por certo, para encontrar a
realidade, encontrar Deus — ou o nome que preferirdes
— a mente deve estar só, livre de influências,
porque ela é então uma mente pura; e uma
mente pura pode prosseguir. Ao ocorrer a destruição
completa de todas as coisas que a mente criou em si mesma,
como segurança, como esperança e como resistência
contra a esperança — que é o desespero
— etc., surge então, seguramente, um estado
de destemor no qual a morte não existe. A mente
que está só, está vivendo integralmente
e nesse viver há um morrer a cada minuto; por conseguinte,
para essa mente não existe a morte. Isso é
realmente extraordinário para quem penetrou nesse
estado; descobris, então, por vós mesmo,
que a morte não existe. Existe, tão-só,
aquele estado de austeridade pura, da mente que está
só.
Essa solidão não
é isolamento; não é fuga para uma
torre de marfim; não é abandono. Tudo isso
ficou para trás, foi esquecido, dissipado, destruído.
Essa mente, por conseguinte, sabe o que é destruição;
e precisamos conhecer a destruição, senão
não poderemos achar nada novo. E que medo temos
de destruir tudo o que acumulamos!
Há um ditado sânscrito:
“As idéias são os filhos das mulheres
estéreis”. E parece que a maioria de nós
gosta de se entreter com idéias. Podeis estar considerando
estas nossas palestras como uma troca de idéias,
“processo” de aceitar idéias novas
e abandonar idéias velhas, ou “processo”
de rejeitar idéias novas e conservar as velhas.
Não nos estamos ocupando com idéias, absolutamente.
Estamos-nos ocupando com fatos. E quando estamos interessados
nos fatos, não há ajustamento; ou aceitamos
o fato, ou o rejeitamos. Podeis dizer: “Não
gosto destas idéias, prefiro as velhas, e continuarei
a viver no meu próprio padrão” —
ou podeis aceitar o fato. Não podeis transigir,
não podeis ajustar. Destruição não
é ajustamento. Ajustar, dizer: “Devo ser
menos ambicioso, não devo ser tão invejoso”
— isso não é destruição.
E devemos, decerto, perceber a verdade de que a ambição,
a inveja, é feia, estúpida, e que é
necessário destruir todos esses absurdos, O amor
nunca ajusta. Só o desejo, o medo, a esperança,
ajustam. Eis por que o amor é uma coisa destrutiva,
pois se recusa a adaptar-se, a ajustar-se a qualquer padrão.
Começamos, pois, a descobrir
que, havendo destruição de toda autoridade
que o homem criou para si mesmo, no desejo de se pôr
em segurança interiormente, há criação.
Destruição é criação.
Em seguida, se abandonastes
as idéias, e não vos estais ajustando a
vosso próprio padrão de existência
ou a um novo padrão que, pensais, este orador está
criando — se alcançastes esse ponto, descobrireis
que o intelecto pode e deve funcionar unicamente em relação
às coisas exteriores, corresponder tão-só
às exigências exteriores; por conseqüência,
o intelecto se torna completamente tranqüilo. Isso
significa que a autoridade de suas experiências
terminou e, portanto, é incapaz de criar ilusões.
E descobrir o que é verdadeiro, isso é essencial,
para que termine o poder de criar a ilusão, em
qualquer forma que seja. E o poder de criar a ilusão
é o poder do desejo, do desejar ser isto e não
desejar ser aquilo.
O intelecto, pois, deve funcionar
neste mundo com raciocínio, com sanidade, com clareza;
mas, interiormente, ele deve estar completamente quieto.
Dizem os biologistas que o cérebro
levou milhões de anos para evolver até o
seu estado atual, e levará outros milhões
de anos para evolver mais. Mas a mente religiosa não
depende do tempo para sua evolução. Eu gostaria
que compreendêsseis isto. O que desejo transmitir
é que quando o cérebro, o intelecto —
que deve funcionar com suas reações à
existência externa — se torna quieto interiormente,
não existe mais o mecanismo de acumulação
de experiência e conhecimento e, por conseguinte,
o intelecto está completamente quieto, porém
plenamente vivo e pode então saltar por sobre milhões
de anos.
Vemos, pois, que para a mente
religiosa o tempo não existe. Só existe
o tempo quando um estado de continuidade passa para outro
estado de continuidade e de realização.
Quando a mente religiosa destruiu as autoridades do passado,
as tradições, os valores que lhe foram impostos,
é ela então capaz de existir sem o tempo.
Está então plenamente desenvolvida. Porque,
ao negarmos o tempo, negamos todo o desenvolvimento através
do tempo e do espaço. Notai, por favor, que isto
não é uma idéia; não é
uma coisa para com ela nos entretermos. Se passastes por
isso, sabeis o que é o amor, achai-vos naquele
estado; mas, se não passastes por isso, podeis
então apossar-vos destas idéias e entreter-vos
com elas.
Vedes, pois, que destruição
é criação; e na criação
não existe o tempo. A criação é
aquele estado em que o intelecto, tendo destruído
todo o passado, está completamente quieto e, portanto,
no estado em que não existe tempo nem espaço,
para crescer, expressar-se, “vir a ser”. E
esse estado de criação não é
a criação de uns poucos indivíduos
prendados — pintores, músicos, escritores,
arquitetos. Só a mente religiosa pode encontrar-se
num estado de criação. E a mente religiosa
não é aquela que pertence a certa igreja,
crença, dogma — essas coisas só podem
condicionar a mente. Ir à igreja todas as manhãs
e render culto a este ou àquele não vos
torna uma pessoa religiosa, embora a sociedade respeitável
possa considerar-vos como tal. O que faz a pessoa religiosa
é a destruição total do conhecido.
Nessa criação
há um sentimento de beleza; uma beleza não
construída pelo homem; uma beleza que transcende
o pensamento e o sentimento. Afinal, o pensamento e o
sentimento são puras reações; e a
beleza não é reação. Possui
a mente religiosa aquela beleza — que não
é a mera apreciação das montanhas
graciosas, da torrente impetuosa, porém um sentimento
bem diferente da beleza — e de par com ela está
o amor. Não se me afigura possível separar
a beleza do amor. Como sabeis, para a maioria de nós
o amor é coisa dolorosa, porque é sempre
acompanhado do ciúme, do ódio e dos instintos
de posse. Mas esse amor de que falamos é um estado
em que se acha presente a chama sem fumo.
A mente religiosa, pois, conhece
essa destruição completa, total, e sabe
o que significa achar-se num estado de criação,
estado que não se pode comunicar. E nela existe
o sentimento da beleza e do amor, que são inseparáveis.
O amor não é divisível em amor divino
e amor físico. É Amor. E não é
necessário dizer que ele se acompanha, naturalmente,
de um sentimento de paixão. Não se pode
ir muito longe sem paixão — paixão,
que é intensidade. Não a intensidade do
desejar alterar algo, fazer algo, a intensidade que tem
causa, de modo que se se remove a causa a intensidade
desaparece. Não é um estado de entusiasmo.
A beleza só pode existir quando há a paixão,
que é austera; e a mente religiosa encontrando-se
nesse estado, tem uma força de qualidade peculiar.
Sabeis que, para nós,
força é o resultado da vontade, de muitos
desejos entrelaçados que formam a corda da vontade.
E essa vontade, para a maioria de nós, significa
resistência. O processo de resistir a uma coisa
ou de buscar um resultado desenvolve a vontade e essa
vontade é geralmente chamada força. Mas
a força a que nos referimos nada tem em comum com
a vontade. E força sem causa. Não pode ser
utilizada, mas sem ela nada pode existir.
Assim, quando uma pessoa penetrou
profundamente no descobrimento de si mesma, existe a mente
religiosa; e esta não pertence a um dado indivíduo.
Ela é a mente, a mente religiosa, separada de todas
as humanas lutas, exigências, ânsias e compulsões
individuais, etc. Estivemos apenas descrevendo a totalidade
da mente, que poderá parecer dividida pelo emprego
de diferentes palavras; mas ela é uma coisa total,
na qual tudo se contém. Por conseguinte, essa mente
religiosa pode receber aquilo que não é
mensurável pelo intelecto. Essa coisa é
indenominável; nenhum templo, nenhum sacerdote,
nenhuma igreja, nenhum dogma pode conter. Rejeitar tudo
isso e viver naquele estado, essa é que é
a verdadeira mentalidade religiosa.
PERGUNTA: Pode a mente religiosa ser
adquirida pela meditação?
KRISHNAMURTI: A primeira coisa que
se deve compreender é que ninguém pode adquiri-la,
ninguém pode obtê-la, e que ela não
pode ser produzida pela meditação. Nem virtude,
nem sacrifício, nem meditação, nada
sobre a Terra pode comprá-la. O senso de alcançar,
realizar, adquirir, comprar, deve cessar totalmente, para
que ela seja. Não se pode fazer
uso da meditação. A coisa de que estive
falando é a meditação. Descobrir
a cada momento da vida diária o que é verdadeiro
e o que é falso, isso é meditação.
A meditação não é uma certa
coisa para a qual fugimos, uma certa coisa em que se nos
dão visões e toda sorte de sensações;
isso é auto-hipnose, infantilidade. Mas observar
cada momento do dia, ver como o vosso pensamento está
funcionando, ver o mecanismo de defesa em ação,
ver os temores, ambições, a avidez, a inveja
— observar tudo isso, investigá-lo a todas
as horas, isso é meditação, ou faz
parte dela. Sem se lançar a base adequada, não
há meditação, e o lançamento
da base adequada consiste em ser livre de ambição,
inveja, avidez e todas as coisas que criamos em defesa
própria. Não precisais procurar ninguém
para dizer-vos o que é a meditação
ou para receberdes um método. Posso descobrir com
muita simplicidade, pela observação de mim
mesmo, quanto sou ou não sou ambicioso. Ninguém
me precisa dizer; eu o sei. Extirpar a raiz, o tronco,
o fruto da ambição, vê-la e destruí-la
totalmente — eis o que é absolutamente necessário.
Vede, queremos ir muito longe, sem darmos o primeiro passo.
E vereis, se derdes o primeiro passo, que ele é
também o último passo — não
há outro passo.
PERGUNTA: É verdade que não
podemos servir-nos da razão para descobrir o que
é verdadeiro?
KRISHNAMURTI: Senhor, que se entende
por razão? A razão é pensamento organizado,
como a lógica são idéias organizadas,
não é exato? E o pensamento, por mais inteligente,
por mais vasto, por mais erudito que seja, é limitado.
Todo pensamento é limitado. Podeis observá-lo
vós mesmos; isso não é novidade.
O pensamento nunca pode ser livre. O pensamento é
reação, reação da memória;
é “processo” mecânico. Ele poderá
ser razoável, poderá ser são, poderá
ser lógico, mas é limitado. É como
os computadores eletrônicos. E o pensamento nunca
pode descobrir o que é novo. O intelecto adquiriu,
acumulou, através de séculos, experiências,
reações, lembranças; e quando essa
coisa pensa, está condicionada e, portanto, não
pode descobrir o novo. Quando, porém, esse intelecto
compreendeu todo o processo da razão, da lógica,
do investigar, do pensar — não rejeitou,
mas compreendeu — então ele se torna quieto.
E, então, esse estado de quietude pode descobrir
o que é verdadeiro.
Senhor, a razão vos diz que
deveis ter líderes. Tendes tido líderes
políticos ou religiosos. Eles não vos conduziram
a parte alguma, a não ser a mais sofrimento, mais
guerras, maior destruição e corrupção...
E se, interiormente, percebo o inteiro significado da
autoridade, se a estudo, observo, examino, nunca rejeitando,
nunca aceitando, porém vendo,
cai então por si a autoridade.
Krishnamurti -
13 de agosto de 1961
Do livro: O PASSO DECISIVO – Ed. Cultrix
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