Mas, parece-me,
a mente que busca segurança se torna embotada,
medíocre; e, em tais condições, ela
é incapaz de resolver seus próprios problemas.
Assim, para vivermos neste mundo —
com suas rotinas, seu tédio, a existência
superficial da classe média, da classe superior
ou da inferior — e resolvermos os nossos problemas,
ultrapassá-los, penetrar profundamente em nós
mesmos, só há dois caminhos: o científico
ou o religioso. O “caminho” religioso inclui
o científico, mas o científico não
contém em si o religioso. Mas necessitamos do espírito
científico, uma vez que este é capaz de
examinar rigorosamente todas as causas da miséria
humana; o espírito científico poderá
promover a paz mundial, objetivamente — alimentar
a humanidade, dar-lhe casas para morar, roupas etc. —
não apenas aos ingleses ou aos americanos, mas
a todo o mundo. Não se pode viver na prosperidade
numa extremidade da terra, enquanto na outra extremidade
existe degradação, doença, fome e
esqualidez. Talvez a maioria de vós ignoreis isso,
mas o deveis saber. Para se resolverem todos esses imensos
problemas, perceber toda a estupidez do nacionalismo,
dos conchavos políticos, das ambições,
da avidez de poder, necessita-se do espírito científico.
Mas, infelizmente, como se vê, o espírito
científico está agora interessado em viagens
à Lua ou mais além, em aumentar nossos confortos
com geladeiras melhores, carros melhores, etc. Isto está
certo, de modo geral, mas afigura-se-me um ponto de vista
muito limitado.
Sabemos o que é “espírito
científico”: espírito de investigação,
nunca satisfeito com seus achados, sempre variável,
nunca estático. Foi o espírito científico
que criou o mundo industrial; mas esse mundo industrial,
sem revolução interior, produz uma medíocre
maneira de viver. Sem essa revolução interior,
todas as glórias e belezas da chamada vida intelectual
só podem tornar a mente mais embotada, mais contentada,
satisfeita, segura. O progresso em certos sentidos é
essencial, mas também destrói a liberdade.
Não sei se já notastes que, quanto mais
coisas tendes, tanto menos sois livres. E, por isso, os
homens religiosos do Oriente têm dito: “Renunciemos
às coisas materiais, pois não importam.
Busquemos a outra coisa; mas
eles não acharam também essa “outra
coisa”. Sabemos, pois, mais ou menos, o que é
espírito científico — o espírito
que existe no laboratório. Não me refiro
ao cientista como indivíduo; este é provavelmente
igual a vós e a mim, entediado da existência
de cada dia, avarento, ávido de poder, posição,
prestígio.
Agora, muito mais difícil é
averiguar o que é espírito religioso. Como
proceder, quando se deseja descobrir algo verdadeiro?
Queremos saber o que é espírito religioso
— não esse estranho espírito que prevalece
nas religiões organizadas, porém o genuíno
espírito religioso. Como proceder?
Só se começa a descobrir
o que é o verdadeiro espírito religioso
por meio do pensar negativo, porquanto, para mim, o pensar
negativo é o pensamento em sua forma mais elevada.
Entendo por pensar negativo aquele que despreza, que rompe
e destroça as coisas falsas construídas
pelo homem para sua própria segurança, seu
sossego interior; que destroça todas as defesas
e o mecanismo de pensamento construtor dessas defesas.
É preciso destroçar tudo isso, ultrapassá-lo,
rapidamente, celeremente, para ver se algo existe além.
E o ultrapassar dessas coisas falsas não é
uma reação ao que existe. Certo, para descobrirmos
o que é o espírito religioso e dele nos
abeirarmos negativamente, precisamos ver no que cremos,
e porque cremos, porque aceitamos todos os inumeráveis
condicionamentos que as religiões organizadas do
mundo inteiro impõem à mente humana. Por
que credes em Deus? Por que não credes em Deus?
Por que tendes tantos dogmas e crenças?
Direis, porventura, que se ultrapassarmos
todas essas chamadas estruturas positivas atrás
das quais a mente se abriga, ultrapassá-las sem
desejar encontrar algo mais — nada mais restará
senão desespero. Mas eu acho que temos de passar
também pelo desespero. Só existe desespero
quando há esperança — a esperança
de nos pormos em segurança, permanentemente confortados,
perpetuamente medíocres, perenemente felizes. Para
a maioria de nós, o desespero é reação
à esperança. Mas, para se descobrir o que
é o espírito religioso, acho que essa investigação
deve realizar-se sem nenhuma provação, nenhuma
reação. Se vossa busca é apenas uma
reação — porque desejais mais segurança
interior — nesse caso vossa busca visa apenas a
um conforto maior, seja numa crença, numa idéia,
seja no conhecimento, na experiência. E a mim me
parece que tal modo de pensar nascido da reação
só pode produzir mais reações, e,
por conseguinte, não oferece a libertação
do processo de reação que impede o descobrimento.
Não sei se está claro o que estou dizendo.
Deve haver uma maneira negativa de
proceder, e isso significa que a mente necessita tornar-se
cônscia do condicionamento imposto pela sociedade,
em relação à moralidade; cônscia
das inumeráveis sanções impostas
pela religião; e cônscia, também,
de como, rejeitando essas imposições exteriores,
cultivamos certas resistências internas, crenças
conscientes e inconscientes, baseadas na experiência,
no conhecimento, e que se tornam fatores diretores.
Assim, para descobrir o que é
o verdadeiro espírito religioso, a mente deve achar-se
num estado de revolução, e este significa
a destruição de todas as coisas falsas que
lhe foram impostas, seja por pressão externa, seja
por ela própria; pois a mente está sempre
em busca da segurança.
Afigura-se-me, pois, que o espírito
religioso encerra esse constante estado mental que nunca
constrói para sua própria segurança.
Por que se a mente constrói com essa ânsia
de segurança, então ela fica vivendo atrás
de seus próprios muros e, portanto, é incapaz
de descobrir algo novo.
Por conseguinte, a morte, a destruição
do “velho”, é necessária: destruição
da tradição, libertação total
do que foi, abandono das coisas
acumuladas como memória através de séculos.
Então, direis, por ventura: “Que mais resta?
Tudo o que sou é constituído por todo esse
conjunto de fatos, essa “história”,
a experiência; se tudo isso desaparece, se apaga,
que resta?” — Em primeiro lugar, pode-se apagar
tudo isso? Podemos falar a esse respeito, mas é
verdadeiramente possível apagá-lo? Eu digo
que é possível — mas não por
influência ou coerção, pois isso é
insensatez, falta de maturidade. É possível,
se o penetrarmos profundamente, afastando de nós
toda autoridade. E esse “limpar da lousa”
— que significa morrer todos os dias e de momento
em momento, para as coisas acumuladas — requer abundante
energia e profundo discernimento; e isso faz parte do
espírito religioso.
Outra parte do espírito religioso
é o “espírito-força”,
que inclui a ternura e o amor. Estou tentando expressar-me
por meio de palavras, mas tende a bondade de não
vos contentardes com palavras, apenas. Eu disse que outra
parte do espírito religioso é a força
proveniente do amor. E com a palavra “força”
quero referir-me a algo completamente diferente do impulso
para ser poderoso, do desejo de dominação,
controle; do poder que a abstinência confere; ou
do poder de uma mente sagaz, cheia de ambição,
avidez, inveja, ávida de perfeição.
Este poder é maligno. O domínio de uma pessoa
sobre outra, o poder do político, o poder de influenciar
outros para pensarem de certa maneira, seja exercido pelos
comunistas, pelas igrejas, seja pelos sacerdotes ou pela
imprensa — este poder, para mim, é extremamente
nocivo. Estou-me referindo a coisa muito diferente, tanto
em grau como em qualidade, algo sem nenhuma relação
com o poder dominador. Existe essa força, esse
poder, uma coisa “exterior”, não produzida
por nossa vontade ou desejo. Nesse poder reside aquela
coisa extraordinária que é o amor; e este
faz parte do espírito religioso.
O amor não é sensual;
nenhuma relação tem com a emoção;
não é reação ao medo; não
é amor materno, amor conjugal etc.
Segui bem isso, por favor, penetrai-o,
sem nada aceitar, nem rejeitar, pois estamos jornadeando
juntos. Direis, talvez: “Um tal amor, um tal estado
mental não baseado em lembrança, é
impossível”. Mas eu acho que ele pode ser
encontrado. Encontramo-lo por vias obscuras, ao investigarmos
no seu todo o processo do pensamento, as peculiaridades
da mente. E um poder existente por si só; é
energia não causada. Difere inteiramente da energia
gerada pelo “eu” em sua ânsia de alcançar
as coisas que deseja. E aquela energia existe, mas só
será encontrada pela mente livre, não vinculada
ao tempo e ao espaço. Nasce aquela energia quando
o pensamento — como experiência, conhecimento,
como “ego”, centro — o “eu”
— gerador de sua própria energia, volição
e concomitantes pesares, aflições etc. —
se dissolve. Dissipado esse centro, manifesta-se aquela
energia, aquela força que é o amor.
E há, também, outra
camada da mente religiosa que é movimento —
movimento não dividido em exterior e interior.
Tende a bondade de seguir isso por instantes. Conhecemos
os movimentos exteriores, objetivos; e desse conhecimento
resulta uma reação que chamamos movimento
interior, um afastamento do exterior, renúncia
ao exterior, ou, também, aceitação
dele como inevitável, resistência a ele pelo
cultivo de uma reação de “movimento
interior”, com suas crenças, experiências
etc. Existe o movimento para o exterior, o impulso para
fora — ser ambicioso, ávido etc.; e quando
esse movimento falha, nos voltamos para o interior. Não
se busca a verdade quando a mente é feliz. Quando
a mente se acha contentada, deleitada, tamanha é
sua própria vitalidade que não precisa murmurar,
sequer, o nome de Deus. Só quando nos sentimos
infelizes, quando as coisas exteriores falharam, quando
já não temos êxito, quando temos desgostos
domésticos, quando há morte, conflito etc.,
só então nos voltamos para o interior, como
costumam fazer os velhos. Nunca recorremos à religião
quando somos jovens, porque então as nossas glândulas
estão funcionando “a toda velocidade”.
Encontramos satisfação no sexo, na posição,
no prestígio, no dinheiro, na fama etc. Quando
essas coisas começam a falhar-nos, só então
nos voltamos para o interior; ou, se ainda somos jovens,
nos tornamos beatniks (seita
de “intelectualistas”). Tudo isso é
reação: e revolução não
é reação.
Ora, se se percebe com toda a clareza
a verdade contida em tudo isso, ocorre então um
movimento que é tanto exterior como interior; não
há divisão. E um movimento: movimento que
consiste em ver as coisas exteriores precisa, clara e
objetivamente, tais como são; e esse mesmo movimento
se verifica também interiormente, não como
reação, porém como o movimento das
marés, que é o fluxo e refluxo das mesmas
águas. O movimento para fora significa ter os olhos,
os sentidos, todo o nosso ser, abertos, vivos. E o movimento
para dentro é o fechar dos olhos — emprego
esta expressão como meio de comunicação;
ninguém precisa ficar de olhos fechados. O movimento
para dentro é a visão interior. Depois de
compreender o exterior, os olhos se voltam para dentro;
mas não como reação. E a visão
interior, a compreensão interior significa quietude,
tranqüilidade, completas; porque nada mais há
para buscar, para compreender.
Não gosto de empregar a palavra
“interior”, mas espero tenha mos entendido.
Esse estado interior é que é criação.
Ele nada tem em comum com o poder humano de inventar,
de produzir coisas, etc.
É o estado de criação.
Esse estado de criação só se manifesta
quando a mente compreendeu a destruição,
a morte. E só quando a mente vive esse estado de energia, que é amor, só então
há criação.
Agora, a parte nunca é o todo.
Temos descrito as partes; mas os raios de uma roda não
constituem a roda, embora a roda contenha os raios. Não
podemos alcançar o todo por meio de uma parte.
O todo só pode ser compreendido ao perceber-se
tudo o que estivemos dizendo sobre as várias partes
da mente religiosa. Ao terdes esse percebimento total,
então, nesse sentimento total está incluída
a morte, a destruição, o sentimento de força
pelo amor, e a criação. E isso é
a mente religiosa. Mas para alcançar esse estado
religioso, a mente deve ser precisa, pensar com clareza,
logicamente, nunca aceitando as coisas externas ou as
coisas internas que para si mesma criou, como conhecimento,
experiência, opinião, etc.
Vemos, pois, que a mente religiosa
encerra em si a mente científica; mas a mente científica
não contém a mente religiosa. O mundo vem
tentando consorciar as duas, mas isso é impossível;
assim sendo, tratarão de condicionar o homem para
aceitar a separação. Mas esta mos falando
de coisa totalmente diferente. Estamos tentando uma jornada
de descobrimento, e isso significa que tendes
de descobrir. Aceitar o que se está
dizendo não tem valor algum, pois, assim, estais
de volta à velha rotina, sois escravos da propaganda,
da influência e tudo o mais.
Mas, se empreendestes também
a jornada e sois capazes de descobrir, vereis então
que podeis viver neste mundo; então, as agitações
deste mundo têm significação. Porque,
neste conteúdo total, neste sentimento total, há
ordem e desordem. Não é assim? É
preciso destruir, para criar. Mas não é
a destruição à maneira dos comunistas.
A desordem, se podemos empregar tal palavra, existente
na mente religiosa, não é o contrário
da ordem. Sabeis como gostamos da ordem. Quanto mais burgueses
somos, quanto mais limitados e medíocres, tanto
mais amamos a ordem. A sociedade precisa de ordem; quanto
mais corrupta se torna, tanto mais deseja ordem. E o que
querem os comunistas: um mundo em perfeita ordem. E nós
outros desejamos a mesma coisa: temos medo à desordem.
Compreendei, por favor, que não estou advogando
um mundo em desordem; não estou absolutamente empregando
a palavra “desordem” em sentido reacionário.
A criação é desordem; mas essa desordem,
sendo criadora, contém a ordem. Isto é muito
difícil de transmitir. Percebeis?
A mente religiosa, pois, não
é escrava do tempo. Onde existe o tempo —
ontem, com todas as suas lembranças, movendo-se
através de hoje e criando, assim, o futuro e condicionando
a mente — não existe aquela desordem criadora.
A mente religiosa, portanto, é uma mente que não
tem futuro, não tem passado, e tampouco não
está vivendo no presente, compreendido como oposto de ontem e de amanhã, porquanto nesta mente religiosa
não está contido o tempo. Não sei
se estais entendendo.
A mente, pois, pode alcançar
aquele estado religioso. Estou empregando a palavra “religioso”
com um novo sentido, indicando algo não relacionado
com as religiões do mundo, todas elas mortas, moribundas,
decadentes. Assim, a mente religiosa é aquela que
só pode “viver com a morte”, com a
extraordinária e poderosa energia do amor. Não
traduzais isto. Não façais perguntas sobre
o “amar um” ou “amar todos”; isto
é infantil. Só a mente religiosa pode voltar-se
para dentro; e esse “voltar-se para dentro”
não está em relação com o
tempo e o espaço. É ilimitado, infinito,
não pode ser medido por uma mente aprisionada no
tempo. E só a mente religiosa resolverá
os nossos problemas, porque ela não tem problemas.
E só a mente que não tem problemas, uma
mente realmente religiosa, pode resolver todos os problemas.
Essa mente, por conseguinte, está em relação
íntima com a sociedade; mas a sociedade não
está em relação com ela.
Assim, no sentido da palavra “religioso”,
é necessária uma revolução
em cada um de nós — revolução
total e não parcial. Toda reação
é parcial; e a revolução a que nos
referimos não é parcial e, sim, uma coisa
total. E só essa mente pode ter intimidade com
a Verdade. Só essa mente pode ter “amizade”
com Deus — ou o nome que preferirdes. Só
essa mente pode participar da Realidade.
Krishnamurti – Do livro: O PASSO DECISIVO – Ed. Cultrix |