Assim, como dissemos na última reunião,
é necessária uma mente religiosa. E, sem
dúvida, a mente religiosa é aquela que se
depurou de todas as crenças e de todos os dogmas;
esta mente é capaz de um percebimento, uma compreensão
interior que dá uma certa tranqüilidade, serenidade.
E, quando a mente está interiormente tranqüila,
há intenso percebimento de tudo o que se passa
fora dela. Isto por que, compreendendo todos os conflitos,
frustrações, perturbações,
agitações e sofrimentos interiores, ela
está serena e, por conseguinte, exteriormente ela
se torna intensamente ativa, com todos os sentidos bem
despertos, capaz, portanto, de observar sem nada desfigurar,
de seguir cada fato de maneira não tendenciosa.
A mente religiosa, pois, não
só é capaz de observar as coisas externas
com clareza, lógica e precisão, mas também,
graças ao autoconhecimento, ela se tornou interiormente
tranqüila, de uma tranqüilidade que tem seu
movimento próprio. E dissemos que essa mente religiosa
se acha, por conseguinte, num estado de revolução
constante. Não estamos interessados em nenhuma
espécie de revolução parcial, nenhuma
revolução comunista, socialista ou capitalista.
Os capitalistas, em geral, não desejam revolução
alguma, mas os outros a desejam; e a revolução
deles é sempre de natureza parcial — econômica,
etc. Mas a mente religiosa promove a revolução
total, não só interiormente, mas também
exteriormente; e, no meu sentir, só a revolução
religiosa, e nenhuma outra, pode resolver os múltiplos
problemas da humana existência.
E que pode fazer essa mente? Que podemos
fazer, vós e eu, como dois indivíduos, neste
mundo monstruoso e insano? Não sei se já
pensastes nisto, alguma vez. Que pode fazer uma mente
religiosa?
Já explicamos com muita clareza
que a mente religiosa não é a mente cristã,
hinduísta ou budista, ou pertencente a alguma seita
extravagante ou sociedade com fantásticas crenças
e idéias; a mente religiosa é aquela que,
tendo percebido interiormente sua própria validade,
a verdade de suas percepções, sem desfiguração,
é capaz de resolver lógica, racional e sãmente
os problemas que surgem, não permitindo que nenhum
deles crie raízes. Desde que deixamos um problema
lançar raízes na mente, existe conflito;
e onde há conflito, está presente o “processo”
de deterioração, não só exteriormente,
no mundo objetivo, mas também interiormente, no
mundo das idéias, dos sentimentos, das afeições.
Que pode, então, fazer a mente
religiosa? Provavelmente muito pouco. Porque o mundo,
a sociedade é constituída de indivíduos
ambiciosos, ávidos, “aquisitivos”,
facilmente influenciáveis e que desejam pertencer
a alguma coisa, crer em alguma coisa, filiando-se a certas
correntes de pensamento e padrões de ação.
Essas pessoas não podem ser modificadas senão
pela influência, a propaganda, o oferecimento de
novas formas de condicionamento. Mas a mente religiosa
lhes diz que se despojem, interiormente, de tudo. Porque
é só em liberdade que se pode descobrir
o que é verdadeiro e se existe a Verdade, Deus.
A mente que crê nunca descobrirá o que é
verdadeiro ou se existe Deus; só a mente livre
pode descobri-lo. E para sermos livres, temos de penetrar
todas as servidões que a mente a si mesma impôs.
Isto é dificílimo, pois requer muita penetração,
exterior e interiormente.
Quase todos, sabemo-lo, andamos às
voltas com o sofrimento. Sofremos de uma ou de outra maneira,
física, intelectual, ou interiormente. Somos torturados
e nos torturamos a nós mesmos. Conhecemos o desespero,
e a esperança, e o medo sob todos os seus aspectos;
e nesse vórtice de conflito e contradições,
preenchimentos e frustrações, ciúmes
e ódio, debate-se a mente. Aprisionada que está,
sofre, e todos sabemos que sofrimentos são estes:
o sofrimento ocasionado pela morte, o sofrimento da mente
insensível, o sofrimento da mente muito racional
e intelectual, que conhece o desespero, porque reduziu
tudo a pedaços e nada mais lhe resta. A mente sofredora
faz nascer várias filosofias do desespero; busca
refúgio através de numerosas vias de esperança,
confiança, conforto, através do patriotismo,
da política, das argumentações verbais,
das opiniões. E para a mente sofredora existe sempre
uma igreja, uma religião organizada pronta a acolhê-la
e torná-la mais embotada ainda, com suas promessas
de consolo.
Conhecemos tudo isso; e quanto mais
refletimos, tanto mais intensa a mente se torna e nenhuma
saída se encontra. Fisicamente, é possível
fazer algo contra o sofrimento, tomar uma pílula,
procurar o médico, alimentar-se melhor, mas aparentemente
nenhuma saída existe senão pela fuga. Mas
a fuga torna a mente muito embotada. Ela poderá
ser penetrante em seus argumentos, em suas defesas; mas
a mente em fuga está sempre temerosa, porque precisa
proteger a coisa em que se refugiou, e, evidentemente,
tudo aquilo que protegemos, que possuímos, faz
nascer o medo.
E, assim, o sofrimento continua; conscientemente,
talvez, possamos afastá-lo, mas interiormente ele
continua existente, corrompendo, putrefazendo. Mas podemos
ficar livre dele, totalmente, completamente? Esta me parece
a pergunta correta que se deve fazer; porque, se perguntamos
“Como ficar livre do sofrimento?”, então,
o “como” cria o padrão” do que
se deve fazer e do que não se deve fazer”,
e isso significa seguir por uma via de fuga, em vez de
enfrentar o problema, a causa-efeito do próprio
sofrimento. Assim, antes de começarmos a discutir,
gostaria de investigar esta questão.
O sofrimento perverte e deforma a
mente. O sofrimento não é o caminho da Verdade,
da Realidade, de Deus (ou como quiserdes chamá-lo).
Temos tentado enobrecê-lo, dizendo-o inevitável,
necessário, alegando que traz a compreensão,
etc. Mas a verdade é que, quanto mais intensamente
uma pessoa sofre, tanto mais ansiosa se torna de fugir,
de criar uma ilusão, de encontrar uma saída.
Parece-me, pois, que a mente sã, saudável,
deve compreender o sofrimento e ficar completamente livre
dele. E isso é possível?
Ora, como compreender por inteiro
o sofrimento? Não estamos tratando de uma única
qualidade de sofrimento por que acaso estejais passando
ou eu esteja passando; existem, como sabeis, muitas variedades
de sofrimento. Mas estamos falando sobre o penar em geral,
estamos falando da totalidade da coisa; e como compreender
ou sentir o todo? Espero me esteja fazendo claro. Através
da parte nunca é possível sentir o todo;
mas, se se compreende o todo, a parte pode então
ajustar-se nele e tornar-se, assim, significativa.
Ora, como se sente o todo? Entendeis o que quero dizer? Sentir,
não apenas como inglês, mas sentir a totalidade da humanidade; sentir não apenas a
beleza das paisagens da Inglaterra, que são realmente
belas, porém a beleza de toda a Terra; sentir o
amor total — não apenas o amor por minha
mulher e meus filhos, mas o sentimento total de amor;
conhecer o sentimento total da beleza, não da beleza
de um quadro pendente da parede, ou de um sorriso num
rosto belo, ou de uma flor, de um poema, porém
aquele sentimento de beleza que transcende todos os sentidos,
todas as palavras, toda expressão. Como sentir
assim?
Não sei se alguma vez já
vos fizestes esta pergunta. Porque, vede, satisfazemo-nos
tão facilmente com um quadro na parede, com nosso
jardim particular, uma árvore que num campo nos
atrai a atenção. E como alcançar
esse sentimento da inteireza da Terra
e do céu, e da beleza da humanidade? Percebeis
o que quero dizer — o sentimento profundo disso?
Prosseguirei examinando este tópico,
se desejais seguir-me, mas deixemo-lo de parte, por enquanto.
Deixemos a questão em “fervura”, em
ebulição, e entremos numa diferente ordem
de considerações.
A mente que está em conflito,
em batalha, em guerra, interiormente, se torna embotada;
não é uma mente sensível. Ora, que
é que torna a mente sensível, não
apenas para uma ou outra coisa, porém sensível
como um todo? Quando é ela sensível não
apenas para o belo, mas também para o feio, para
tudo? Só o é, por certo, quando não
há conflito; isto é, quando a mente está
tranqüila interiormente e, por conseguinte, é
capaz de observar todas as coisas exteriores com todos
os seus sentidos. Ora, que é que gera o conflito?
E existe conflito não apenas na mente consciente,
exterior — a mente que está sumamente cônscia
de seus raciocínios, seus conhecimentos, sua proficiência
técnica, etc. — mas também a mente
interior, inconsciente, a qual, provavelmente se acha
no “ponto de fervura” a todas as horas. Que
é, pois, que cria o conflito? Por favor, não
respondais, porquanto a mera análise mental ou
investigação psicológica não
resolve o problema. O exame verbal pode mostrar intelectualmente
as causas do sofrimento, mas nós estamos falando
sobre o “estar de todo livre do sofrimento”.
Cabe-nos, pois, experimentar ao mesmo tempo que falamos,
sem nos deixarmos ficar no nível verbal.
O que cria o conflito é, obviamente,
o “puxão” em diferentes direções.
O homem que se deixou comprometer completamente com alguma
coisa é, em geral, insano, desequilibrado;
para ele não há conflito: ele é essa
coisa. O homem que crê inteiramente numa dada coisa,
sem duvidar, sem interrogar, que se identificou completamente
com aquilo que crê — esse homem não
tem conflito nem problema. Tal é mais ou menos
o estado de uma mente doente. E a maioria de nós
gostaria muito de identificar-se, de “comprometer-se”
com alguma coisa de tal maneira que não houvesse
mais problema algum. Em geral, por não termos compreendido
o processo do conflito, só desejamos evitar o conflito.
Mas, como já assinalamos, o evitar só produz
mais sofrimentos.
Assim, percebendo tudo isso, faço
a mim mesmo e, portanto, também a vós, esta
pergunta: Que cria o conflito? E conflito implica não
só desejos contraditórios, vontades, temores
e esperanças contraditórias, mas tudo quanto
é contradição.
Ora, por que existe contradição?
Espero estejais escutando, através de minhas palavras,
a vossas mentes e corações. Espero vos estejais
servindo de minhas palavras como um portal através
do qual estais observando, escutando a vós mesmos.
Uma das causas principais do conflito
é a existência de um centro, um ego, “eu”,
resíduo de todas as lembranças, todas as
experiências, todos os conhecimentos. E esse centro
está sempre tratando de ajustar-se ao presente
ou de absorvê-lo: sendo o presente o hoje, cada
momento de nosso viver, que envolve sempre desafio e reação.
Está sempre a traduzir tudo o que encontra nos
termos daquilo que já conhece. O que ele já
conhece é todo o conteúdo de milhares de
dias pretéritos, e com esse resíduo procura
enfrentar o presente. Por conseguinte, ele modifica o
presente, e nessa própria atividade modificadora
alterou o presente, criando assim o futuro. E nesse processo
do passado que traduz o presente e cria o futuro, se acha
aprisionado o “eu”, o ego.
E nós somos isso.
Assim, a fonte do conflito é
o “experimentador” e a coisa que está
“experimentando”. Não é assim?
Quando dizeis “amo-vos” ou “odeio-vos”,
existe sempre esta separação entre vós
e aquilo que amais ou odiais. Enquanto houver separação
entre pensador e pensamento, experimentador e coisa experimentada,
observador e coisa observada, tem de haver conflito. Divisão
é contradição. Ora, pode-se anular
esta divisão ou separação, de modo
que sejais o que vedes, sejais o que sentis?
Importa compreender, primeiramente,
que enquanto há divisão entre pensador e
pensamento, tem de haver conflito, porque o pensador está
sempre tentando fazer alguma coisa em relação
ao pensamento, procurando alterá-lo, modificá-lo,
controlá-lo, dominá-lo, tentando tornar-se
bom, não ser mau, etc. Enquanto perdurar a divisão
geradora de conflito, tem de haver esta agitação
da existência humana, não só internamente,
mas também externamente.
Ora, existe pensador separado do pensamento?
Está clara esta pergunta? O pensador é uma
entidade separada, algo distinto, algo permanente, separado
do pensamento? Ou existe só pensamento, o qual
cria o pensador, porque assim poderá dar-lhe (ao
pensador) permanência? Entendeis? O pensamento é
impermanente, acha-se num constante fluir, e a mente não
gosta desse estado de fluidez. Deseja criar algo permanente,
em que possa ficar em segurança. Mas, se não
há pensamento, não há pensador, há?
Não sei se já alguma vez experimentastes
isto, se já seguistes esta ordem de reflexões,
ou investigastes inteiramente o processo do pensar e quem é o pensador. O pensamento declarou que o pensador
é supremo, que existe a alma, o “eu superior”,
conferindo assim ao pensador existência permanente
— mas tudo isso continua a ser resultado do pensamento.
Assim, se observamos este fato, se
o percebemos realmente, vê-se então que não
há centro.
Notai, por favor, que isto pode ser
muito simples de declarar, verbalmente; mas penetrar o
fato, vê-lo, experimentá-lo, isto é
muito difícil. No meu sentir, a fonte do conflito
é esta separação entre o pensador
e o pensamento. Esta separação cria conflito;
e a mente em conflito não pode viver, no mais elevado
sentido desta palavra: não pode viver totalmente.
Não sei se já notastes
alguma vez que, quando tendes um sentimento muito forte,
seja do belo, seja do feio, provocado do exterior ou despertado
interiormente, nesse estado imediato de intenso sentir
não existe, momentaneamente, observador, nem divisão.
O observador só se apresenta quando o sentimento
se atenuou. Entra então em ação todo
o processo da memória: Dizemos: “Devo repetir
este estado” ou “devo evitá-lo”
— e tem início o processo do conflito. Podemos
ver a verdade aí? E que entendemos por ver?
Como vedes a pessoa que está sentada aqui, neste
tablado? Não a vedes apenas visualmente, mas também
intelectualmente; estais vendo a pessoa com vossa memória,
vossas simpatias e antipatias, vossas diferentes formas
de condicionamento; e, por conseguinte, não estais vendo, não é verdade? Quando
vedes alguma coisa realmente, vós
a vedes sem nada daquilo (condicionamento, simpatias,
antipatias, etc.) É possível olharmos para
uma flor sem lhe dizermos o nome, sem “colar-lhe”
uma etiqueta: olhá-la, simplesmente?
E não é possível, ao ouvirdes algo
grato aos ouvidos — não apenas música
organizada, mas o canto de uma ave na floresta, etc. —
escutá-lo com todo o vosso ser? E pode-se, pela
mesma maneira, perceber realmente uma
coisa? Porque, se a mente é capaz de perceber,
de sentir realmente, então só há
experimentar e não existe experimentador; pode-se
então ver que o conflito, com todas as suas angústias,
esperanças, defesas, etc., termina.
Quando se percebe a verdade integral
de uma coisa; ao vermos a verdade de que o conflito só
pode cessar quando não há divisão
entre o observador e a coisa observada; quando se experimenta
realmente este estado, sem nos socorrermos da memória
nem dos dias passados, então está terminado
o conflito. Então seguis fatos e não estais
tolhido pela divisão que a mente faz entre o observador
e o fato.
O fato é: sou estúpido, estou cansado, preso
na monótona rotina da existência diária.
Isto é um fato, mas não gosto dele; por
isso, há divisão. Detesto o que estou fazendo,
e põe-se, assim, em movimento o mecanismo do conflito,
com todas as defesas e fugas e sofrimentos que ocasiona.
Mas o fato é que minha vida é feia, superficial,
vazia, cruel, escrava dos hábitos.
Ora, se a mente não criar
esse senso de divisão e, por conseguinte, conflito,
pode então seguir simplesmente
o fato; seguir toda a rotina, todos os hábitos;
seguir tudo, sem procurar alterar nada? Isto é
percepção, no sentido em que estamos empregando
a palavra. E vereis que o fato nunca é estático,
nunca se acha imóvel. É uma coisa que se
move, uma coisa viva; mas a mente preferiria torná-lo
estático e daí é que vem o conflito.
Eu vos amo, desejo apegar-me a vós, possuir-vos;
mas vós sois uma coisa viva, que se modifica, com
existência própria; por isso, existe conflito
e todos os sofrimentos dele decorrentes. E pode a mente
ver o fato e segui-lo? Isso, em verdade,
significa uma mente muito ativa, muito viva, muito intensa,
exteriormente, e ao mesmo tempo muito tranqüila interiormente.
A mente que no interior não está de todo
quieta não pode seguir um fato, pois este é
muito rápido. Só a mente interiormente tranqüila
é capaz desse “processo”, capaz de
seguir continuamente cada fato que se apresenta, sem dizer
que o fato devia ser “deste jeito”
ou “daquele jeito”, sem criar separação,
conflito, sofrimento: só essa mente pode cortar
todas as raízes do sofrimento.
Podeis ver, então, se alcançastes
este ponto — não no espaço e no tempo,
mas na compreensão — que a mente entra num
estado em que se vê completamente só.
Como sabeis, para a maioria de nós “estar
só” é uma coisa terrível. Não
me refiro aqui solidão, que é coisa diferente.
Refiro-me ao “estar só”: estar só
com alguém ou com o mundo: estar só com
um fato. Só, no sentido de que
a mente não está sujeita a influências,
já não se acha presa ao passado, nem tem
futuro, nem busca, nem teme: está só.
O que é puro está só; a mente que
está só conhece o amor, porque já
não se enreda nos problemas do conflito, do sofrimento
e do preenchimento. Só essa mente é uma
mente nova, uma mente religiosa. E, talvez, só
ela pode curar as feridas deste mundo caótico.
Krishnamurti – Do livro: O PASSO DECISIVO – Ed. Cultrix
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