Mergulho na casa do ser.
Uma mariposa se atirando
na chama
A mente se abre para
vislumbrar a própria perfeição;
uma flor que se abre
para acolher o sol.
Dedos de luz penetram
a noite escura
e me devolvem
a visão interna.
Encontrava-me distante de mim,
acanhado na dúvida.
Agora tomo por direito
a coroa de auto-soberano.
Em mim,
as sementes do tempo
ressaltadas na rima
das estações da história.
Em mim,
tudo que fui, e serei.
--
Introdução
Não existe nenhuma situação da qual não
possamos tirar algum benefício. Por mais difícil que
seja, sempre podemos vê-la com uma visão positiva.
Essa afirmação é resultado de uma experiência
que jamais esqueço.
Há alguns anos tive sérios aborrecimentos com uma
pessoa que nitidamente estava querendo o cargo que eu ocupava numa
empresa. Durante seis meses ela me atormentou de tal forma que eu
não conseguia pensar direito. Nessa época eu tinha
iniciado a prática de meditação. Durante a
visita de uma indiana muito mais experiente no caminho espiritual,
aproveitei para contar-lhe a minha história.
Em quinze minutos relatei todos os fatos ocorridos. Depois, ela
me olhou e disse:
-- Tudo foi benéfico, não foi?
Com uma expressão de desapontamento, retruquei:
-- Como assim? Nunca sofri tanto na minha vida e você diz
que tudo foi benéfico? Não entendo e não aceito!
A conversa foi encerrada. O dia passou sob uma nuvem de confusão.
Na manhã seguinte levantei cedo para meditar. Já tinha
adquirido o hábito de começar o dia com 45 minutos
de meditação. De repente, os principais fatos que
marcaram o relacionamento tempestuoso com aquela pessoa desfilaram
em minha mente. Só então percebi exatamente o que
tinha aprendido. Em poucos minutos converti a enorme carga de mágoas
em uma série de lições profundamente gratificantes.
Por exemplo, aprendi a ser mais tolerante, paciente e principalmente
mais aberto. Adquiri uma autoconfiança tão grande
que não posso mais voltar atrás. Não importa
a situação, sempre há uma saída positiva.
Estamos vivendo momentos de grandes transições. A
palavra crise parece estar nos lábios de todos. As crises
econômicas, políticas, de relacionamentos e de valores
assustam as multidões.
As incertezas e frustrações que cercam a vida neste
final de milênio confundem muitas pessoas de tal forma que
parecem não deixar espaço para respirar e muito menos
para se recuperar suficientemente para poder enfrentá-las.
Os três relacionamentos principais - com o ser interior,
com os outros e com a natureza - apresentam graves sinais de deterioração.
Ao contrário do que diz o senso comum, o ser humano, ao
mesmo tempo em que consegue desvendar o fantástico poder
do átomo e curar a mais persistente das doenças, não
aprendeu a utilizar sua própria força interior para
livrar-se da sua dor existencial.
Mas, apesar da situação mundial não estar
tão bem, não devemos deixar de lado nossas aspirações
e ideais mais elevados sem qualquer sinal de luta. Com um pouco
mais de fé em nosso potencial interior podemos enfrentar
e superar todos os obstáculos e viver esse momento não
como o final de tudo, mas como um novo começo - uma celebração
de uma mudança duradoura.
Na terminologia da visão positiva do ser, a transformação
significa a derrota de tudo que é velho e inútil e
a criação e fortalecimento de uma nova perspectiva.
Num mundo onde o ter é o critério das nações,
ser ou não pacífico tem se tornado um questionamento
que ganha cada vez mais força.
Recentemente, numa palestra na cidade de Limeira, interior de São
Paulo, perguntei à platéia, de cerca de 150 pessoas,
quais eram as dificuldades que mais as preocupavam: as políticas,
as econômicas ou as dos seus relacionamentos. Todos, sem exceção,
responderam que era o esforço de resolver problemas internos
e de relacionamentos com outras pessoas que mais ocupa seu tempo
mental. Os problemas de ordem econômica e política
se colocavam em segundo plano. Chegou-se à conclusão
de que se a mente está bem com ela mesma e com as pessoas
da sua convivência, é mais fácil enfrentar as
provas do dia-a-dia.
Há tantos problemas em simplesmente sobreviver, pagar as
contas, ajustar-se às constantes mudanças, que em
um momento nos favorecem e no próximo tornam qualquer planejamento
sem sentido. Mesmo assim, para muitas pessoas não são
os valores materiais os que mais as preocupam.
Hoje, busca-se outros valores. Se os anos setenta foram de grandes
contestações e certo otimismo e os oitenta de desilusão,
a década de noventa já se mostra como um período
de profunda reflexão de valores. As questões ambientais
e a ética política se destacam dentro desse contexto.
Porém, dentre todas as crises, é a interior que deve
ser resolvida.
Numa recente entrevista em Salvador, um repórter perguntou-me
se o crescente interesse pelas "coisas metafísicas"
não representava uma nova moda. Em hipótese alguma
podemos dizer que a necessidade de paz interior é moda. A
necessidade de paz é grande e imediata.
Contudo, há muitas coisas que merecem o epíteto de
bruxaria. Quem vai a uma conferência sobre paz espiritual,
nova era ou o novo misticismo, certamente se espanta com a deslumbrante
variedade oferecida. Para encontrar um caminho que leve a uma experiência
de benefício duradouro entre os charlatões, comerciantes
espiritualistas e os que são realmente sinceros, é
necessário um grande poder de discernimento.
Sempre buscamos saídas para as nossas crises internas. Ingênuos
e exploráveis, assistimos a palestras, montamos bibliotecas
caseiras e fazemos cursos na esperança de que algo ou alguém
possa nos dar uma chave para que consigamos nos entender melhor.
Estive presente em uma conferência na qual o palestrante
entrou em transe depois de cantar por 15 minutos em uma língua
desconhecida. Falou em um idioma que parecia ser alemão durante
meia hora. Os aplausos foram estrondosos. Só me pergunto
quem, dentre os presentes, entendia aquela língua. O incomum
impressiona, mas nem sempre traz elevação.
O ser humano tem tanto potencial dentro de si, mas, sem perceber,
acaba acatando caminhos que enriquecem alguns e empobrecem o próprio
intelecto que precisa endireitar-se.
Talvez isso aconteça porque não se sabe que as saídas
estão dentro do próprio ser.
Por mais difícil que seja uma situação, alguém
que possua mais clareza e calma sempre vai se sair bem. Entre dez
pessoas que procuram o mesmo emprego, a mais tranqüila e objetiva
tem mais chance de obtê-lo. Numa situação de
extrema tristeza, quem mantém uma visão positiva de
todo o contexto é capaz de manter-se suficientemente em paz
para ajudar os outros.
O ideograma chinês que representa crise tem duas partes.
A de cima indica perigo, e a de baixo oportunidade. Tudo que acontece
pode me afetar negativa ou positivamente. Depende totalmente da
maneira que penso. Por isso, as crises se tornam grandes oportunidades
para encontrar saídas que passam a ter um valor duradouro.
Cercado de dificuldades eu posso fortalecer-me a ponto de suportar
as mais graves ameaças emocionais e materiais.
A visão positiva pode não colocar comida no estômago,
ou resolver uma situação de calamidade, mas a lamentação
também não resolve nada. A visão positiva,
no mínimo, oferece mais opções.
Fonte: http://www.bkumaris.com.br/lit_tre_paz_comeca.htm
|