A PAZ ESTEJA CONTIGO
Por
Surendra Narayan
(Vice-Presidente Internacional da S.T) |
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Nota-se
que muitos tratados e escritos sobre ocultismo
ou sobre a vida espiritual terminam com uma
invocação de paz. Assim, os
Upanishads usualmente terminam com "Shanti,
Shanti, Shanti". São Paulo, na
Epístola aos Filipenses, declara que
"a paz de Deus, que ultrapassa todo o
entendimento, conserve seus corações
e mentes através de Cristo Jesus".
Luz no Caminho e A Voz do Silêncio terminam
com "A Paz esteja contigo" e "Paz
e todos os seres", e assim também
muitos outros livros similares.
Tudo
isso faz-nos pensar acerca da relevância
e importância da paz no mundo extremo
bem como dentro de nós mesmos. A paz
no mundo externo depende e flui da paz dos
corações e mentes dos indivíduos
que o habitam. Lê-se e ouve-se muito
cada dia sobre guerras e não se sabe
quando uma guerra em pequena escala pode tomar-se
em grande escala e quando, numa atmosfera
carregada com hostilidade e ódio, um
pequeno incidente pode levar a uma maior conflagração
como a proverbial centelha consumindo um monte
inteiro de feno.
Para
ressaltar o papel do pensamento neste contexto,
parece pertinente referir-nos a uma carta
dos Mestres da Sabedoria a A.P. Sinnett na
qual ele diz:
"Cada
pensamento do homem, ao ser emitido, passa
ao mundo interno e torna-se uma entidade viva.
... Ele sobrevive como uma inteligência
viva .., por um período mais longo
ou mais curto proporcional a intensidade original
da ação cerebral que o gerou.
Assim, um bom pensamento é perpetuado
como um poder ativo, benéfico, um mal
pensamento como um demônio maléfico.
... O Adepto emite estas formas conscientemente;
outros homens as lançam inconscientemente."
Compreendendo
a potência do poder do pensamento, portanto,
gostaria de recomendar muito o apelo lançado
pela Presidente da Sociedade Teosófica,
Sra. Radha Burnier, no sentido de observar
a cada manhã um "momento de recordação"
para enviar pensamentos positivos que auxiliem
a neutralizar as ondas de violência
e de mal que parecem estar se alastrando de
país a país. Ela nos lembra
que a mudança pode ser efetuada mais
poderosamente pelo pensamento, pois o pensamento
precede a ação.
Porque
o pensamento precede a ação,
o medo leva ao conflito e portanto à
falta de paz. O medo tem muitas facetas -
insegurança, possessividade, impaciência,
intolerância, cólera e agressividade.
O fenômeno do medo foi analisado de
uma maneira simples no Brihadãranyaka
Upanishad assim:
Ele
Prajapati estava com medo; portanto o homem,
quando sozinho, tem medo. Ele então
olhou em volta. Já que nada, senão
eu mesmo, existe, de que devo eu ter medo?
Daí seu medo foi-se embora; pois de
que devia ele ter medo, já que o medo
surge de outro?
Um
estado de destemor é um estado de paz.
Esta paz reside no viver unitivo. O viver
unilivo está naquela consciência
que permeia toda a vida na qual, portanto,
não pode haver conflito, contradição,
separatividade. O censo de não-separatividade
ou unidade é enfatizado nas várias
religiões do mundo e nos ditos e canções
de seus santos e místicos. Com que
suprema confiança um dos Upanishads
declara: "Aquele que está aqui
na pessoa humana e Aquele que está
lá no sol são um".
A fraternidade
universal da humanidade é um reflexo
dessa consciência unitiva que é
o coração da paz. Portanto,
todo trabalho e movimentos que buscam promover,
desenvolver ou encorajar a cooperação,
a boa vontade, a tolerância, a compreensão
e auxilio mútuos, transcendendo as
estreitas fronteiras de credo, raça
e nação, merece vigoroso apoio.
Freqüentemente se ouvem críticas
às Nações Unidas e às
suas várias agências por aquilo
que, em várias situações,
elas foram incapazes de fazer; mas pelo menos
elas representam um movimento na direção
certa, rumo à unidade e à paz.
Sua imperfeição é uma
medida de nossa própria imperfeição
como indivíduos e nações.
A paz
em suas profundezas é um estado de
auto-serenamento, de calma, de ser como um
plácido lago que reflete fielmente
as estrelas e o céu acima. Mas quando
sopram ventos, surgem ondas no lago. Quando
uma pedra é atirada nele, ondas espalham-se.
Assim também o indivíduo perturba-se
e perde sua calma por causa dos acontecimentos,
reais ou imaginários, que afetam os
veículos do corpo, dos sentidos e do
pensamento. Digo "real ou imaginário"'
porque, na verdade, muitas de nossas "ondas"
ou problemas são apenas imaginários.
Um homem imagina que um amigo realmente não
liga para ele; que sua esposa ou filho não
o amam; que seu superior não o considera
o suficiente, e assim por diante; em conseqüência
disso, ele perde sua calma e paz.
Tem
sido dito que as perturbações,
quer sejam reais ou imaginárias, são
todas ilusórias. São ilusórias
porque nada pode perturbar ou mesmo alcançar
o Eu interior - o Eu que está além
dos sentidos e portanto sempre em paz. O profundo
oceano sente-se perturbado quando surgem ondas
em sua superfície? A terra sente-se
perturbada quando as crianças constróem
castelos com sua areia úmida na praia
e quando as ondas os levam?
Paz
é viver no eterno. O Mundakopanisad
fala de dois pássaros, semelhantes
de todos os modos e sentando-se na mesma árvore;
mas um come os diferentes frutos saborosos
enquanto o outro olha como a eterna testemunha,
sem comer.
Lembro-me
de um caso narrado numa biografia do Dr. Samuel
Johnson. Uma senhora de alta posição
uma vez convidou várias pessoas importantes,
incluindo Johnson, para jantar. Algo de errado
aconteceu com a comida e a senhora ficou muito
contrariada. O Dr. Johnson falou a ela muito
calmamente: "Madame, apenas imagine o
que a senhora pensará deste incidente
daqui a vinte anos".
Um
riacho de montanha carrega em sua rápida
corrente seixos, galhos de árvores,
madeira e tudo mais que surge em seu caminho.
A água num determinado ponto está
constantemente mudando, é diferente
a cada momento. Mas as duas margens do riacho
permanecem as mesmas e pacificamente observam
a água fluir.
A
paz leva à alegria. Na verdade, paz
é jovialidade. Mas ela não depende
de estímulo externo. Ela é como
um córrego borbulhante ou um fluente
rio, espontâneo em seu movimento na
eternidade.
Paz
é alegria porque nada pode tocá-la,
nada pode manchá-la, nada pode interferir
em sua naturalidade. Sua plenitude repousa
dentro de si própria. É como
o brilho de uma vela, como uma flor que floresce
na riqueza da primavera - perfeitamente alegre
e doadora de alegria. É alegria porque
ela reside no espírito. Ou como colocado
por São Paulo em sua Epístola
aos Gálatas: "o fruto do Espírito
é amor, alegria, paz...".
A
paz não é, entretanto, viver
em isolamento, viver para si mesmo ou por
si mesmo somente; nem é paz um estado
de passividade, inatividade ou tédio.
Ela reside numa vida vibrante, intensamente
ativa, fluindo para todos os lados e sobretudo,
como uma bênção. Sua atividade
é, no entanto, totalmente harmoniosa,
já que ela brota do Uno e busca alcançar
e servir tudo o que o Uno abarca. "Se
for para serdes perfeito, Ó Servo da
Vida, Tu deves morar na Luz e trabalhar na
sombra"'.
Então
a paz estará conosco para sempre.
Surendra
Narayan |