A tradição e o medo
Uma visão metafórica para o filme “A
VILA”.
A tradição vive do medo. Tem sua
propagação e permanência no
incentivo da crença ao medo. A Tradição é mecânica,
repetitiva, rotineira; não existe frescor
na mesma. A tradição se alimenta
de mitos, lendas, contos, carregados do medo e
cumpabilidade. A liderança faz com que a
massa não questione aquilo que é incentivado
pela tradição. A liderança,
por sua vez, sabe como tocar nos botões
de medo e culpa da massa; sabe manipular e consegue
estigmatizar qualquer ser pensante com os rótulos
de rebelde. Elege “bodes expiatórios”,
incita o medo, a culpa e o conformismo. Sempre
procura inibir qualquer idéia contrária
a tradição. Não demonstra
o interesse de compreender o que uma nova idéia
representa. Por se encontrar numa zona confortável
de “respeitabilidade”, a liderança
não possui a mente aberta para a reflexão
em novos pontos de vista, nem em novas experiências.
Por viver na base do medo, não se permite
cruzar as fronteiras das florestas do desconhecido
e viajar em novos níveis de consciência.
Qualquer movimento para se falar contra o estabelecido
pela tradição, é sempre visto
com maus olhos, repletos de medo e intolerância
e não é rara a punição
através da ação do ostracismo,
a todo ser questionador. A liderança está sempre
presa na emoção e no medo. Não
consegue ver a pureza que se encontra num novo
paradigma. A desaprovação do novo
paradigma é unânime por parte da liderança;
ela não quer compreender o que se passa
nas idéias de um ser questionador. O ser
pensante questiona o tempo todo, mesmo não
tendo as respostas. Convida as pessoas ao seu redor
ao questionamento, que sempre barradas pela lente
do medo e do conformismo, não se atrevem
a olhar com novos olhos. O ser pensante, questionador,
representa um perigo para a zona de conforto e
para a respeitabilidade estabelecida pela liderança.
Grande parte das pessoas demonstram claramente
o seu medo de estar ao lado das pessoas que pensam;
possuem o medo de perder a respeitabilidade do
grupo e quase sempre se afastam da mesma. Toda
e qualquer manifestação contrária
ao estabelecido pela tradição, é sempre
abafada através de atitudes manipuladoras
originárias das reuniões nos bastidores
sombrios da liderança, que incitam o medo
como forma de não se entregar a uma reflexão
quanto ao novo paradigma. O ser pensante quase
sempre é “diagnosticado” como
um rebelde, um louco, um instigador da quebra da
unidade e bem-estar coletivo – sendo reforçado
o convite de se estar atento aos movimentos do
chamado “rebelde”; para se estar atento
a possíveis exposições dos
mais novos ás idéias de tal rebelde.
Como a massa não pensa, aceita de pronto
as idéias contrárias da liderança
ao novo paradigma e não raro, se identifica
com o medo instalado pelas idéias contrárias
da liderança. A tradição vive
das experiências mortas do passado, dos ritos,
das convenções, das superstições;
não há frescor, muito menos originalidade
em si mesma – ela mata toda autenticidade
e sensibilidade. A tradição quer
ficar presa na mesmice e repudia qualquer pessoa
que seja realmente “diferente” do convencional.
Outro fato interessante é o que a liderança
foge da tristeza por várias maneiras, mas,
não consegue admitir plenamente e abertamente
de que é vitima constante dessa tristeza.
Seus conflitos estão sempre trancafiados
no escuro da inconsciência. Escondem-se por
detrás de uma mascara de inteligência,
sabedoria e espiritualidade. As idéias que
são aprovadas pela liderança são
aquelas as quais julgam não ser uma ameaça
para a zona de conforto do coletivo e para proteger
essa zona de conforto, vive a contar estórias
do passado como uma maneira de manipular e embaçar
a natureza do desejo do novo paradigma. A liderança
não pensa no bem estar do coletivo, mas
sim, em manter seus próprios desejos de
segurança, em manter seus segredos trancafiados
no inconsciente, motivados pela ação
dos medos inconscientes, guardados em segredos.
Mas o rebelde consegue ver a insegurança
por detrás da máscara de bem-estar
coletivo. Ele vê e sente a insegurança
do coletivo. A liderança se agarra ao seu
pacote de memórias como uma forma de segurança
psicológica contra os erros do passado.
Mantém sempre acesa a chama do passado,
que com sua fumaça, embaralha a visão
do presente. Acreditam que o esquecimento do passado
possa fazer com que ele renasça no presente.
O rebelde não teme abrir a caixa de memórias
do passado para colocá-las a luz da consciência.
Ele quer se permitir esse movimento e libertar-se
de vez do medo coletivo do passado. Mas a liderança
não quer a liberdade, quer apenas falar
em liberdade. Na visão da liderança,
a atitude do rebelde em relação ao
desconhecido é encarada como insensatez.
Mas o rebelde, movido por seus mais profundos sentimentos,
não tem como deter esse impulso ardente
em direção ao desconhecido. Ele quer
conhecê-lo, quer tocá-lo e por causa
disso, avança vacilante, mas avança.
Algumas das pessoas da massa, até acham
bonita a coragem do rebelde em enfrentar a tradição,
mas alegam que não acham certo esse tipo
de ação. Mas o rebelde não
se conforma com a limitação da visão
da tradição. Ele quer ver mais. Quer
ver o mundo livre da visão da tradição.
Ele quer ver o novo e voltar para de algum modo,
ajudar a massa na ampliação de sua
visão limitada. Mas essa atitude causa nós
nos estômagos do coletivo. Mas, em cada contato
entre o rebelde e a massa, algo vai se instalando
na consciência daqueles que ouvem, com a
mente aberta, que de modo algum, não voltam
a ser os mesmos de antes. O rebelde não
teme a desaprovação geral, o ostracismo.
Prefere a isso do que viver escondido em seu quarto
escuro da inconsciência e do medo. Assume
sua postura de rebeldia ao tradicional diante da
liderança. Sente muito por não poder
se conformar ao que é estabelecido pela
tradição, mas, precisa seguir seus
impulsos mais profundos. Ele se ressente pelo mal
estar causado, mas sabe que não pode voltar
atrás e torce para que seu modo de ver a
vida não cause mais sofrimentos aos seus
entes queridos. Com profundo pesar, se entrega
a solidão de sua própria busca. O
mal estar e constrangimento coletivo diante de
tal postura é notório. No entanto,
alguns dos membros da liderança admiram
e invejam silenciosamente a coragem de tal atitude
do rebelde, mas admitem para si mesmos que não
possuem a coragem para tal abandono.
A liderança
acredita na tradição
da prece, das oferendas como uma forma de restauração
do bem-estar pessoal, coisa que se apresenta como
total absurdo aos olhos do rebelde. Ele assiste
a tudo isso em meio de sua solidão mental.
A liderança se preocupa com as aparências
e por isso, só aparentemente vive. A tradição
da liderança impede a existência de
uma verdadeira intimidade entre os seres humanos.
Ninguém ousa ir mais fundo e por isso, não
há como “tocar” o outro. A liderança
manipula os acontecimentos; manipula as informações
de modo que as pessoas não entrem em contato
com a realidade de seus sentimentos. Todos precisam
mostrar eficiência e alegria. A tradição
mantém todos juntos num mesmo caminhar vacilante.
Medos coletivos são expostos como forma
de manipulação. O medo é instalado
como um modo de se fazer censura. E se algum rebelde
viola as fronteiras do conhecido, reuniões
entre as lideranças são instauradas,
uma vez que o coletivo não pode tomar consciência
da falência da tradição. Mas
nem isso consegue fazer com que o rebelde recue.
Ele enfrenta o próprio medo e segue adiante.
Alguns membros da massa questionam a coragem do
rebelde diante do medo dos demais. Mas os olhos
do rebelde não se encontram no futuro, mas
sim, no presente, NAQUILO QUE DEVE SER FEITO. Ao
mesmo tempo em que encontra dificuldades para expressar
o que pensa, sente um forte impulso para expressar
o que pensa. Não consegue para de se questionar.
Mas o absurdo se manifesta mais cedo ou mais tarde
e é através do absurdo que a graça
do novo paradigma pode se manifestar. A tradição
acredita no poder do pensamento positivo, vive na
busca do poder, do prestigio e das posses e por isso é uma
eterna fonte de conflitos. Mas o rebelde não
aceita esse modo de vida. Ele lidera enquanto os
outros apenas seguem. Ele vê luz onde os outros
só vêem escuridão. Ele tem os
olhos cerrados para as cores da tradição.
Ele sabe onde se encontra e sai solitário
em busca de medicamento para as feridas de seu próprio
interior e dos demais. Ele enfrenta os próprios
medos e segue adiante, tateando por lugares onde
não há caminhos, sem nenhuma fonte
de apoio e segurança. O rebelde consegue compreender
a falta de coragem da massa e da própria liderança
em enfrentar os próprios medos e o desconhecido
da floresta da inconsciência. Ousa entrar em
contato com aquilo que os outros não ousam
mencionar e percebe que tudo não passa de
uma crença, de uma farsa. Ao tomar consciência
disso, não há mais espaço para
a crença e para o medo. Ele segue me frente.
Percebe que não precisa mais ter o medo causado
pela crença. A liderança teme entrar
em contato com os próprios sentimentos e perceber
a total falta de sentido de sua existência,
por isso não vai mais fundo e impede que os
outros também o façam. O rebelde fica
triste pela liderança e a massa, mas segue
sua busca. O rebelde deu o seu próprio coração
a essa causa e está pronto para assumir esse
fardo que por direito é apenas seu. A liderança
nesse momento se esquece de que o que os movia era
o mesmo tipo de sentimento de algo melhor que incentiva
o rebelde a seguir seus sentimentos mais profundos.
Não consegue se perceber de que o medo é que
os manteve na zona de estagnação, no
qual, o rebelde não se conforma a se entregar.
A liderança, devido a tal zona de estagnação,
perdeu a sensibilidade e o poder de agir segundo
o coração. Suas atitudes são
apenas racionais, baseadas no auto-interesse, no
intelecto dominado pelo medo. O que a liderança
não se dá conta é que faltam
pessoas para perpetuarem o antigo paradigma e que
mais cedo ou mais tarde ele terá que se render
ao novo paradigma. Não conseguem perceber
que o futuro depende do rebelde. Não percebem
que ao negarem olhar para o novo paradigma, abrem
mão de toda inocência. Perdem a chama
interna do amor, que é a própria essência
que motiva ao rebelde. Nessa busca solitária,
o rebelde terá que lidar com as próprias
vozes interiores de seus condicionamentos, será um
tempo para explorar e aprender sobre si mesmo, livre
de qualquer livro, mestre ou disciplina. Tropeçara
em buracos sombrios, mas suas raízes não
deixaram que se perca. Abandonará suas muletas
e toda forma de segurança. Aprenderá com
as próprias feridas. Lidará com os
próprios fantasmas. Talvez seu medo o faça
andar por alguns períodos em círculos.
Seus pensamentos virão à mente com
toda carga de medo, mas ele começará a
perceber o que é falso, o que não é real.
E através dessa visão, chegará ao
que é real, onde já não há mais
espaço para o medo. Para o rebelde, a vontade
de viver é muito grande. O rebelde caminhará,
sozinho, até encontrar sua própria
estrada e sairá da floresta da inconsciência.
Quando menos esperar, se deparara com os grandes
muros da tradição e terá que
fazer um grande esforço para transpô-los,
sem nenhum tipo de ajuda. O rebelde descobrirá por
si mesmo, que os grupos de ajuda, baseados na tradição,
mantém as pessoas presas em seu passado; preserva
um modo de vida selvagem, medíocre. O rebelde
tem pressa; sabe da urgência das respostas.
Sabe como mais ninguém, o quanto que sua saúde
psíquica encontra-se em grande risco, bem
como de muitos outros. A liderança tentará – como
sempre – manipular as informações
para a massa não pensante. Mas, a verdade
permanecerá viva dentro do coração
do rebelde, que em contato com outros rebeldes iniciará uma
revolução de consciência.