Foi o livro de Carlo Suarès
sobre Krishnamurti que me abriu os olhos para esse fenômeno
que está entre nós. Eu o li primeiro em
Paris e depois disso reli-o várias vezes. Dificilmente
há outro livro que eu tenha lido tão intensamente
e em que tenha feito tão copiosas anotações,
exceto The Absolute Collective de Erich Gutkind.
Depois de anos de luta e procura encontrei ouro.
Não acredito que esse livro
tenha sido traduzido para o inglês; nem sei, ademais,
o que o próprio Krishnamurti pensa dele. Jamais
me encontrei com Krishnamurti, embora não haja
ser humano vivo pelo qual eu sentiria o maior privilégio
de encontrar do que ele. Muito curiosamente, seu local
de residência não é muito distante
do meu. Entretanto, parece-me que, se esse homem representa
alguma coisa, o que ele representa é o direito
de levar sua própria vida, que, com certeza, não
é estar à disposição de cada
José, João ou Joaquim, que deseje conhecê-lo,
ou obter dele algumas migalhas de sabedoria. "Você
não pode conhecer-me nunca" - diz
ele em algum lugar. É suficiente saber o que ele
representa, o que ele significa como ser e essência.
O livro de Carlo Suarès é
inestimável. Está repleto das palavras do
próprio Krishnamurti, selecionadas de suas palestras
e escritos. Cada fase do desenvolvimento de Krishnamurti
(até o ano em que o livro foi publicado) é
exposta com lucidez, lógica e ênfase. Suarès
mantém-se discretamente na sombra: tem a sabedoria
de deixar Krishnamurti falar por si mesmo. Nas páginas
116 a 119 do livro de Suarès o leitor achará
o texto do qual dou aqui a substância.
Depois de longa discussão de
Krishnamurti com um homem em Bombaim, este lhe diz: "O
que você fala poderia levar ao surgimento de super-homens,
homens capazes de cuidar de si próprios, de estabelecer
a ordem em si mesmos, homens que seriam seus próprios
mestres absolutos. Mas, e o indivíduo que ainda
está no início da escada, que depende de
uma autoridade externa, que se vale de todo tipo de muletas,
obrigado a submeter-se a um código moral, que,
na realidade, pode não lhe ser adequado?".
Krishnamurti responde:
"Veja o que se passa no
mundo. Os fortes, os violentos, os poderosos, os homens
que usurpam e exercem o poder sobre os outros, estão
no topo; no sopé estão os fracos e mansos,
que lutam e se debatem. Em contrapartida, pense na árvore,
cuja força e glória provêm de suas
raízes profundas e ocultas; no caso da árvore,
o topo está coroado pelas folhas delicadas, brotos
tenros e os ramos mais frágeis. Na sociedade humana
- pelo menos em sua atual constituição -,
os fortes e os poderosos são sustentados pelos
fracos. Na natureza, ao contrário, é o forte
e o poderoso que suportam o fraco. Enquanto você
insistir em ver cada problema com uma mente pervertida,
distorcida, continuará aceitando o atual estado
de coisas. Quanto a mim, encaro a questão sob outro
ponto de vista... Como suas convicções não
resultam de sua própria compreensão, você
fica repetindo o que é dado pelas autoridades;
você acumula citações, opõe
uma autoridade a outra, o antigo contra o novo. Nada tenho
a dizer. Mas se você encarar a vida de um ponto
de vista que não seja deformado nem mutilado pela
autoridade, nem amparado pelo conhecimento de outros,
e sim que brote dos seus próprios sofrimentos,
de seus pensamentos, de sua cultura, de seu entendimento,
de seu amor - então você compreenderá
o que digo. Pessoalmente - e espero que você entenderá
o que digo agora -, não tenho crenças e
não pertenço a nenhuma tradição".
(2)
"Sempre tive esta atitude diante
da vida. Sendo um fato que a vida varia de dia para dia,
as crenças e tradições não
são apenas inúteis para mim, como ainda,
se eu me deixasse prender por elas, elas me impediriam
de compreender a vida... Você pode alcançar
a libertação, não importa onde você
esteja e quais sejam as circunstâncias que o rodeiam,
mas isso significa que você necessita ter a força
do gênio. Porque o gênio não passa,
afinal, da habilidade de livrar-se das circunstâncias
nas quais se está enredado, habilidade de escapar-se
do círculo vicioso... Você pode retrucar:
'Eu não tenho essa espécie de força'.
É esse exatamente o ponto em que me detenho. A
fim de que você descubra sua própria força,
o poder que existe em você, você precisa estar
preparado e disposto a enfrentar todo tipo de experiência.
Ora é isso precisamente o que você se recusa
a fazer."
Esse modo de falar é despojado,
revelador e inspirador. Ele desfaz as nuvens de filosofia
que confundem nosso pensamento e restaura as fontes da
ação. Ele estabiliza as superestruturas
vacilantes dos ginastas verbais e varre do chão
os entulhos. Ao invés de uma corrida de obstáculos,
ou de uma ratoeira, ele faz da vida diária um percurso
agradável.
Em conversa com seu irmão Théo,
disse certa vez Van Gogh:
"Cristo foi tão infinitamente
grande porque nenhuma mobília ou outros quaisquer
acessórios jamais atravessaram seu caminho".
Sente se o mesmo a respeito de Krishnamurti.
Nada se interpõe em seu caminho. Sua trajetória,
única na história dos líderes espirituais,
lembra-nos a do épico Gilgamesh. Aclamado em sua
juventude como o futuro Salvador, Krishnamurti renunciou
ao papel que lhe preparavam, recusou todos os discípulos,
rejeitou todos os mentores e preceptores. Não deu
início a nenhuma nova fé ou dogma, questionou
tudo, alimentou dúvidas (especialmente em momentos
de exaltação), e, à custa de luta
e perseverança heróicas, livrou-se da ilusão
e encantamento, do orgulho, da vaidade, e de toda forma
sutil de domínio sobre os demais. Caminhou para
a verdadeira fonte da vida em busca de sustento e inspiração.
Resistir aos ardis e armadilhas dos que procuravam escravizá-lo
e explorá-lo exigiu dele permanente vigilância.
Ele libertou sua alma, por assim dizer, do mundo inferior
e do mundo superior, e dessa forma abriu-lhe "o
paraíso dos heróis".
Será preciso definir essa situação?
Existe algo nas afirmações
de Krishnamurti que faz a leitura de livros parecer completamente
supérflua. Há também outro fato,
ainda mais impressionante, ligado a suas afirmações,
como oportunamente assinala Suarès, a saber: que
"quanto mais claras suas palavras, menos compreendida
é sua mensagem".
Krishnamurti disse um dia:
"Tenho-me expressado de modo
vago; poderia ser perfeitamente explícito, mas
não é minha intenção ser assim.
Pois, definida uma coisa, ela está morta..."
Não, Krishnamurti não
define, não responde Sim, ou Não. Ele remete
quem o interroga de volta a si próprio, forçando-o
a buscar a resposta dentro de si. Ele repete constantemente:
"Não peço que vocês
acreditem no que digo... Não quero nada de vocês,
nem seu bom conceito, sua concordância, nem que
vocês me sigam. Não peço para vocês
acreditarem no que digo, e sim para que o compreendam".
Colaborar com a vida - eis o que ele
enfatiza permanentemente. Vez ou outra ele impinge verdadeira
chicotada - sobre os presumidos.
"O que vocês conseguiram - pergunta ele - com todas as suas belas frases,
seus slogans e rótulos, seus livros? Quantas pessoas
vocês tornaram felizes, não num sentido passageiro,
mas duradouro?".
E assim por diante.
"É uma grande satisfação
alguém atribuir-se títulos, nomes, isolar-se
do mundo e julgar-se diferente dos outros! Mas, se tudo
que vocês dizem é verdade - salvaram vocês
um único companheiro de sua tristeza e sofrimento?"
Todos os recursos de proteção
- sociais, morais, religiosos - que dão a ilusão
de apoio e ajuda aos fracos, de sorte que eles se orientem
para uma vida melhor, são precisamente os que impedem
os fracos de tirarem proveito da experiência direta
da vida. Ao invés da experiência pura e imediata,
os homens procuram usar proteções e assim
se mutilam. Tais recursos tornam-se instrumentos de poder,
de exploração material e espiritual. (Interpretação
de Suarès).
Uma das diferenças marcantes
entre um homem como Krishnamurti e artistas em geral situa-se
nas suas respectivas atitudes em relação
ao papel que representam. Krishnamurti salienta que existe
uma oposição constante entre o gênio
criativo do artista e seu ego. O artista imagina - diz
ele - que é o seu ego que é grande e sublime.
Esse ego quer usar em proveito e engrandecimento próprios
o momento de inspiração, quando entra em
contato com o eterno, momento esse precisamente em que
o ego está ausente, substituído pelo resíduo
de sua própria vívida experiência.
É a intuição da pessoa - insiste
Krishnamurti - que deveria ser seu único guia.
Quanto aos poetas, músicos e artistas em geral,
deveriam eles de fato desenvolver o anonimato, deveriam
distanciar-se de suas criações. Com a maioria
dos artistas, porém, ocorre exatamente o contrário:
eles querem ver suas assinaturas presentes em suas criações.
Numa palavra: enquanto o artista se agarrar ao individualismo,
ele jamais conseguirá tornar permanente a sua inspiração
ou seu poder criativo. A qualidade ou condição
de gênio é apenas a primeira fase da libertação.
Não sou tradutor; tive dificuldade
para transcrever e resumir as observações
e reflexões anteriores. Não estou tentando
dar a totalidade do pensamento de Krishnamurti, conforme
revelado no livro de Carlo Suarès. Fui levado a
falar dele porque - por mais solidamente que Krishnamurti
possa estar ancorado na realidade - involuntariamente
ele criou um mito e uma lenda de si mesmo. As pessoas
não admitem sem mais nem menos que um homem, que
se tornou simples, franco e confiável, não
esteja escondendo algo muito mais complexo, muito mais
misterioso. Alegando que desejam livrar-se das dificuldades
cruéis em que se encontram, o que eles realmente
adoram é tornar tudo difícil, obscuro e
passível de realizar-se somente num futuro remoto.
A última coisa que em princípio admitiriam
é que eles próprios criam suas dificuldades.
Se em algum momento se permitem aceitar que a realidade
existe - no cotidiano - é sempre referindo-a como
a "cruel" realidade. Falam dela como
oposta à realidade divina ou, podemos dizer, como
um paraíso diáfano, escondido. A esperança
de que poderemos um dia acordar para uma condição
de vida completamente diferente da que experimentamos
todos os dias transforma as pessoas em vítimas
propensas a todo tipo de tirania e repressão. O
ser humano é estupidificado pela esperança
e pelo medo. Vive no dia-a-dia o mito de que poderá
um dia escapar da prisão que criou para si mesmo,
e que ele atribui à maquinação dos
outros. Todo verdadeiro herói constrói sua
própria realidade, e, ao libertar-se, destrói
o mito que nos prende ao passado e ao futuro. Essa é
a verdadeira essência do mito: esconder o maravilhoso
aqui e agora.
HENRY MILLER
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