A transformação que se opera no nível
consciente não passa de uma simples continuidade
modificada, pois nesse nível a mente opera de modo
superficial, calculando, julgando, pensando; mas esse
“processo” de calcular, pesar e julgar é
a continuidade de uma coisa condicionada; por conseguinte,
por esse meio não se resolve o problema de modo
nenhum; o que se faz é apenas modificá-lo,
alterar a sua direção; todavia, a nova direção
é confusa, do mesmo modo.
Enquanto quisermos resolver os nossos
problemas no nível superficial, com idéia
contra idéia, argumento contra argumento, lógica
contra lógica — tudo isso reações
da mente superficial — é bem óbvio
que os resultados que a mente obterá serão
produto de pensamento condicionado. Nesse “processo”,
por conseguinte, não há revolução
psicológica, profunda, fundamental. Creio, o mais
importante atualmente não é a revolução
do nível superficial, mas a revolução
do nível inconsciente, profundo, porque vivemos
muito mais nesse nível, e nosso ser está lá mais do que no nível superficial.
Assim sendo, não achais importante
que escutemos de maneira que o inconsciente absorva -
se assim me posso expressar — o que se nos transmite,
e a revolução, por conseguinte, não
seja uma revolução consciente? Considero
muito importante que se escute de maneira tal que a transformação
seja inconsciente, e que tenhamos uma nova perspectiva
da vida não fundada na ação consciente
deliberada, mas na revolução não
produzida pelo “processo” deliberado do pensamento.
Afinal, nós temos tantos problemas,
em níveis diversos — problemas econômicos,
sociais, religiosos; o problema do amor, da morte, o problema
das relações, da penúria, o que é
Deus, se há continuidade, o que é imortalidade,
o que é aquele estado de “atemporalidade”,
o que é criação, etc., etc. Temos
problemas inumeráveis e a eles sempre nos aplicamos
com a intenção de resolvê-los com
nossa mente consciente, nossa mente comum, a mente que
tem pensamentos, a mente que é resultado do tempo,
resultado da tradição, da chamada educação
(que é o processo de “condicionar- nos”
numa determinada idéia, atividade ou padrão
— comunista, socialista, capitalista, católico,
etc) e com esse condicionamento queremos resolver os nossos
inúmeros problemas; mas, é bem óbvio,
que uma mente condicionada não pode resolver tais
problemas.
Necessitamos de uma solução
inteiramente diferente, de uma revolução
diferente — de natureza psicológica, interior,
fundamental. Isso, parece-me, só será possível
quando souberdes escutar não só a mim, mas
a todas as coisas: a conversação que se
trava na vossa proximidade, o diálogo que tendes
com vossa esposa, vosso marido, vossos filhos, vosso patrão,
as conversas de bonde, de ônibus, as falas do mendigo,
a melodia de uma canção, o canto dos pássaros,
o marulho das ondas. Se souberdes escutar sem interpretação,
sem tradução, haverá então
a possibilidade de realizar-se a revolução
inconsciente.
Acho que o que mais necessário
se faz, nos dias atuais, é esta revolução
— e não uma série de líderes,
não um determinado sistema político. Porque
todos os líderes falharam completamente; porque
os sistemas que eles advogavam, ou que criaram, são
o produto da mente condicionada e seus resultados serão
sempre condicionados — de modo que nunca mais sairemos
da rede de problemas em que nos vemos embaraçados.
Esse caminho não conduz à felicidade humana,
à ação humana criadora, ao descobrimento
do que é verdadeiro.
O descobrimento do que é verdadeiro
não se efetua por meio de esforço consciente.
Se compreendermos isso verdadeiramente, chegaremos ao
estado em que a mente reconhecerá a sua incapacidade
de atender aos nossos problemas. Então talvez se
nos ofereça a possibilidade de descobrirmos uma
nova fonte de ação, uma fonte diferente,
cujo descobrimento nos habilitará a encontrar uma
nova maneira de pensar, de sentir, de viver, de existir.
Nossos problemas não são
individuais — porque não existe a entidade
“indivíduo”. O individuo — vós
— pode ter nome diferente, corpo diferente, viver
numa casa separada; mas o conteúdo da vossa mente
é o mesmo conteúdo da minha mente. O que
pensais eu penso; sois ambicioso, e eu também;
o que sois, eu sou, e o é o vosso vizinho. Temos
um problema coletivo e não um problema individual.
Vós, como indivíduo “condicionado”
dentro de um certo sistema de idéias, não
podeis resolver este problema da existência; ele
só será resolvido quando vós e eu
o estudarmos juntos, e não separadamente. A
ação coletiva só poderá vir
a efeito, só poderá realizar-se quando houver
pensamento que não seja coletivo. Mas,
como já sabemos, a ação coletiva
implica atualmente pensamento coletivo; pensamento coletivo
é pensamento “condicionado”; e é
isso o que nos interessa, em virtude de toda espécie
de propaganda, da educação, da compulsão,
dos campos de concentração, etc. etc. Fazem-vos
pensar coletivamente, tradicionalmente — quer seja
uma tradição nova, quer velha; fazem-vos
ajustar-vos, pensar segundo uma norma coletiva, esperando-se
que desse modo produzireis ação coletiva; mas não é possível a ação
coletiva, visto que pensamento coletivo é sempre
pensamento condicionado.
Iremos desenvolvendo esta questão
progressivamente. Entretanto deve haver uma maneira de
agir que não seja a vossa ou a
minha, que não seja a do comunista, do
socialista, do católico, do cristão, do
hinduísta, do budista; tal é a maneira de
agir que resulta do descobrimento da Verdade. O descobrimento
da Verdade não depende de vós e de mim,
de vossa mente condicionada ou de minha mente condicionada.
O descobrimento da Verdade apenas ocorrerá quando
vós e eu reconhecermos a nossa mente condicionada,
o nosso estado condicionado.
Se vós e eu pudermos descobrir
o que é a Verdade, desse descobrimento virá
a ação coletiva. Mas o pensar coletivo não
conduz à ação coletiva, e sim, somente,
ao sofrimento em escala maior, como de fato está
ocorrendo atualmente. Talvez possamos, porém, vós e eu juntos (porque nesse caso não
sou eu quem está guiando, e não sois vós
quem está seguindo) descobrir o processo do nosso
próprio pensar. Eu não vô-lo posso
mostrar, para o aceitardes ou rejeitardes, meramente;
vós é que tendes de descobri-lo enquanto
vamos andando juntos; tendes de observar o vosso próprio
estado mental, não só no nível consciente,
mas também inconscientemente, em todos os momentos
do dia, nas vossas relações, não
só enquanto aqui estais a ouvir-me, mas também
depois de vos irdes daqui.
Só pode nascer o sentimento
de que o descobrimento da Verdade não é
individual, que a verdade não é coletiva
nem individual, mas A VERDADE, depois
de compreenderdes todo o processo do pensar. O pensar
é coletivo; não se pode pensar independentemente;
não há pensar individual; o que pensais
é pensamento coletivo, pois estais “condicionado”
como hinduísta, cristão ou muçulmano;
estais aprisionado no molde da tradição,
que é pensamento coletivo. Podeis estar condicionado
dentro do molde, como suposto indivíduo, mas o
molde é coletivo; podeis estar condicionado como
comunista, todavia o condicionamento é coletivo,
O “coletivo” não pode descobrir o que
é verdadeiro, e nem o pode o indivíduo,
porquanto não há pensamento individual,
pois tudo é pensamento coletivo.
Daí atenção a
isto, por favor; não o rejeiteis; procurai alcançar
a Verdade relacionada com o que digo.
Em última análise, as
palavras que estou empregando, os pensamentos que estou
expressando, as tendências de nosso pensar, tudo
é resultado de pensamento e ação
coletiva; ainda que eu me considere um indivíduo
distinto, atribuindo um nome, morando numa choça
ou num palacete, meu funcionamento, meu “processo”,
é todo coletivo. Pode “o coletivo”
encontrar o que é verdadeiro? O “coletivo”
é a mente condicionada, a mente presa à
tradição, à autoridade, a toda sorte
de temor consciente ou inconsciente, a mente buscando
sem cessar a segurança. Pode essa mente, que é
a mente coletiva, achar a Verdade? A Verdade é
aquilo que nunca se contaminou, que se não pode
conceber, premeditar, ler nos livros, que vos não
pode ser dada por outrem. A única solução
para os nossos problemas é o descobrimento do que
é a Verdade. Esta é a única revolução
capaz de nos influir radicalmente, na existência,
na nossa de cada dia, em nossas relações
diárias.
Uma vez que o descobrimento daquilo
que é a Verdade é de vital significação
e importância, não devemos indagar com todo
o interesse se a mente é capaz de se despojar de
todo o seu condicionamento, para ter a possibilidade de
descobrir o que é a Verdade? Esse descobrimento
do que é a Verdade não se verifica por meio
de esforço consciente. Acho muito importante compreender-se
que não podemos ir à Verdade. E
a Verdade só pode vir-nos imperceptivelmente, quando
não a esperamos. Qualquer forma de expectativa,
de esperança, é uma forma de “projeção”
projeção do “eu”, sendo o “eu”
o coletivo. Por conseguinte, nosso problema é este:
compreensão do conflito, da luta, da vida de cada
dia, das nossas relações, nossas ambições,
nossas paixões e desejos, nosso espírito
de imitação, e a medonha degradação
que vai dentro em nós, a corrupção,
a escuridão, a morte, que constantemente nos acompanha;
e, compreendido tudo isso, o descobrimento de algo existente
além dos limites da mente. E esse estado só
é realizável quando compreendermos o processo
da nossa mente, e não quando procurarmos imaginar
o que ele seja, ou especular-lhe a respeito. Tão
somente ao compreendermos o processo do nosso pensar e
vermos o quanto estão condicionadas as nossas mentes,
só então há uma possibilidades de
descobrir o que é a Verdade, a qual, só
ela, pode libertar-nos dos nossos problemas.
Krishnamurti – 8 de fevereiro de 1953 – Palestra feita
em Bombaim
Do livro: Autoconhecimento – Base da Sabedoria –
ICK |