VERIFIQUEMOS qual é a situação
do indivíduo na sociedade, se o indivíduo
pode contribuir para uma transformação radical
da sociedade; se a entidade transformada, o ser humano
inteligente que logrou transformar-se fundamentalmente,
tem alguma influência, se pode atuar de alguma maneira
na corrente dos acontecimentos; ou se o indivíduo
de que falo, a entidade transformada, nada pode fazer,
ele próprio, mas pode, pela mera circunstância
de sua existência, injetar alguma espécie
de ordem na sociedade, na corrente do caos e da confusão.
Vemos como no mundo inteiro a ação em massa
obviamente produz resultados. Percebendo isso, vem-nos
o sentimento de que a ação individual é
muito insignificante, que vós e eu, ainda que transformemos
a nós mesmos, muito pouca influência podemos
ter; e, assim, perguntamo-nos o que valemos nós,
uma vez que somos impotentes para influir na corrente.
Ora, por que pensamos com referência
à massa? As revoluções fundamentais
são produzidas pela, massa, ou são elas
iniciadas por uns poucos indivíduos de visão
que, pelo seu verbo e sua energia, influenciam grande
número de pessoas? É assim que nascem as
revoluções. Não é um erro
julgar que nós, como indivíduos, nada podemos
fazer? Não é um engano supor que todas as
revoluções fundamentais são produzidas
pela massa? Por que pensamos que os indivíduos
não têm importância como indivíduos?
Como tal atitude mental, nunca pensaremos por nós
mesmos, e reagiremos sempre automaticamente. A ação
é sempre da massa? Ela não brota, essencialmente
do indivíduo, comunicando-se, depois, de indivíduo
a indivíduo? Não existe realmente essa coisa
chamada massa. Afinal de contas, a massa é uma
entidade constituída de pessoas que estão
enredadas, hipnotizadas por palavras, por certas idéias.
Quando não estamos hipnotizados por palavras, estamos
à margem da corrente - coisa de que nenhum político
haveria de gostar. Não deveríamos manter-nos
à margem da corrente e tirar dela outros indivíduos,
em número crescente, para, dessa maneira, influir
na corrente? Não importaria muito que se realizasse
uma transformação fundamental no indivíduo,
em primeiro lugar, que antes de tudo vós e eu nos
transformemos radicalmente, em vez de esperarmos que todo
o mundo se transforme? Não é um ponto de
vista "escapista", uma forma de indolência,
uma maneira de fugir ao problema, pensar que vós
e eu somos incapazes de influir, por pouco que seja, na
sociedade como um todo?
Quando vemos tanto sofrimento, não
apenas em nossas vidas, mas também na sociedade
que nos cerca, que é que nos impede de nos transformarmos,
de nos modificarmos fundamentalmente? Será simples
hábito, letargia, qualidade da mente, que está
satisfeita com o padrão em que se acha encerrada
e não deseja quebrá-lo? De certo, não
é apenas isso, porque circunstâncias econômicas
quebram aquele padrão; entretanto, persiste o padrão
interior, o padrão psicológico. Por que
persiste ele? Para nos transformarmos fundamentalmente,
radicalmente, teremos necessidade de alguma influência
ou força exterior - como o sofrimento, a revolução
econômica ou social, ou um guru - isto é,
teremos necessidade de compulsão? Uma força
exterior implica conformismo, dependência, compulsão,
temor. Modificamo-nos fundamentalmente pela dependência?
Não é um estorvo o dependermos, para nossa
transformação, de forças exteriores,
comoções econômicas, etc.? Essa dependência
de uma força exterior impede a revolução
radical, porque a revolução radical só
pode vir, quando compreendermos o processo total de nós
mesmos. Se, para a transformação, dependemos
de uma força exterior de qualquer espécie,
introduzimos o temor e outros fatores que impedem a transformação.
Um homem que deseja deveras a transformação,
não depende de nenhuma força exterior, não
há luta em seu interior; ele percebe a necessidade
e se transforma.
Será de fato difícil
a transformação do indivíduo? É
difícil ser bondoso, compassivo, amar alguém?
Afinal de contas, é esta a essência de uma
transformação radical. A dificuldade é
que temo uma natureza dualista, na qual existe ódio,
aversão, varias formas de antagonismo, etc., que
nos afastam do problema central. Estamos de tal maneira
entranhados nos impulsos que incitam ao ódio, à
antipatia, que perdemos a chama pura, ficou-nos só
fumo; e o problema fica sendo o de como nos livrarmos
do fumo. Não possuímos mais, em absoluto,
a chama da criação; tomamos o fumo pela
chama. Não é necessário investigarmos
o que é a chama, isto é, ver a s coisas
de maneira nova, sem, nos subordinarmos a um padrão;
olhar as coisas como são, sem, lhes darmos nomes?
Será realmente difícil isso? A dificuldade
é que os mais de nós estamos cheios de compromissos,
assumimos inumeráveis responsabilidades, deveres,
etc., e dizemos que deles não nos podemos eximir.
Positivamente, essa não é uma dificuldade
real. Quando sentimos uma coisa profundamente, nós
fazemos o que queremos, sem considerações
de família, da sociedade, e tudo o mais. Assim,
a única dificuldade resulta de não sentirmos
suficientemente a importância da transformação
radical do indivíduo. É imperioso que se
opere essa transformação. A transformação
se realizará quando vivermos sem "verbalização",
quando virmos as coisas como são realmente e aceitarmos
a verdade tal como é. Isso deve começar
em nós, como indivíduos. Se não começa,
isso se deve, simplesmente, a que não prestamos
atenção suficiente, não nos entregamos,
com todo o nosso ser, à compreensão dessa
coisa; vemos tanto sofrimento ao redor de nós,
e há tanta confusão dentro em nós,
e todavia não nos dispomos a pôr cobro a
essa situação.
Agora, que acontece quando tenho um
problema e procuro resolvê-lo? Na solução
do problema, surgem-me vários outros problemas;
resolvendo um problema, multiplico-o. Por isso, desejo
encontrar a solução do problema sem aumentar
o problema, desejo viver feliz, desejo estar livre da
aflição psicológica, sem arranjar
um substituto para ela. É possível descobrir
se podemos realmente dissolver a aflição,
se podemos investigara sem contar com a autoridade de
ninguém, examiná-la em nós mesmos,
observando-nos a todas as horas e em toda espécie
de relações? Não será esta
a única solução do problema: observar-nos
constantemente, o que pensamos, o que sentimos, o que,
fazemos, conservar-nos nesse estado de vigilância
em que tudo se nos revela?
Cumpre-vos experimentá-lo e
não, simplesmente, dizer que não é
possível, nem aceitar a minha autoridade e repeti-la,
apenas. Suponhamos que sejais feliz, e eu não;
e desejo ser feliz, não desejo narcotizar-me com
crenças, etc., mas, sim, levar inteiramente a cabo
o meu propósito. Nessas condições,
procuro-vos, investigo, e examino a questão mais
e mais profundamente. - Que vos impede agora de assim
proceder? Por que não tendes o sentimento da felicidade,
da criação, de ver as coisas como são?
Por que não operais nesse sentido profundo? Por
que dizeis que o sofrimento leva à felicidade,
que o sofrimento é um meio de alcançar a
felicidade, aceitastes o sofrimento, ou outro substituto
qualquer. Fizemo-nos de tal maneira embotados, que não
percebemos a necessidade de nos modificarmos, e aí
é que está a dificuldade.
Dizeis porventura, que desejais modificar-vos,
mas alguma coisa há que impede a transformação.
Explicações não alteram coisa alguma.
Dizer que o "ego" é um obstáculo,
é simples explicação, mera descrição.
Desejais que eu descreva a maneira de vencer os obstáculos;
mas precisamos achar um meio de saltar a barreira, se
possível, precisamos lançar-nos à
corrente, ousadamente, aventurosamente, em vez de ficarmos
sentados na margem a especular. Que nos está impedindo
de dar o salto? O que no-lo impede é a tradição,
que é memória, que e experiência,
- não é verdade? Tanto nos satisfazemos
com palavras, com explicações, que não
damos o salto, mesmo percebendo a necessidade de saltar.
Alvitra-se que não ousamos lançar-nos à
corrente porque temos medo do desconhecido. Mas, é-me
possível saber o que acontecerá, é-me
possível conhecer o desconhecido? Se eu o conhecesse,
não haveria então temor algum - e não
seria o desconhecido. Nunca me será dado conhecer
o desconhecido, se não me aventuro.
Será o temor que nos está
impedindo de lançar nos à aventura? Que
é temor? Só pode haver temor em relação
com alguma coisa, ele não existe em isolamento.
Como posso temer a morte, como posso temer uma coisa que
desconheço? Só posso temer o que conheço.
Quando digo que temo a morte, estarei mesmo com medo do
desconhecido, ou estou com medo de perder o que me é
conhecido? Meu medo não é da morte, mas
sim de perder a minha associação com coisas
que me pertencem. Meu temor está sempre em relação
com o conhecido, e não com o desconhecido.
Assim, o que agora me cabe inquirir
é como ficar livre do temor inspirado pelo conhecido,
que é o temor de perder minha família, minha
reputação, meu caráter, meu depósito
no banco meus apetites, etc. Direis que o temor surge
da consciência; mas vossa consciência é
formada pelo vosso condicionamento, pode ser insensata
ou sensata; a consciência, pois, também,
é resultado do conhecido. Que sei eu? Saber é
ter idéias, ter opiniões a respeito de coisas,
ter um sentimento da continuidade do conhecido, e nada
mais do que isso. Idéias são lembranças,
resultados de experiências, que são reações
a estímulos. Tenho medo ao conhecido, o que significa
que tenho medo de perder pessoas, coisas ou idéias,
tenho medo de descobrir o que sou, medo de me ver em embaraços,
medo da dor que, poderia resultar de perder, ou de não
ganhar, ou de não ter mais prazeres.
Há o medo á dor. A dor
física é reação nervosa; a
dor psicológica se manifesta quando estou apegado
a coisas que me proporcionam satisfação,
porque, em tal caso tenho medo de qualquer pessoa ou coisa
que me proporcionam satisfação, porque em
tal caso tenho medo de qualquer pessoa ou coisa que possa
arrebatar. As acumulações psicológicas
impedem a dor psicológica, enquanto não
são perturbadas; isto é, sou um feixe de
acumulações, experiências, que impedem
qualquer perturbação séria - pois
não desejo ser perturbado. Por isso, temo qualquer
um que venha perturbá-las. Meu temor, portanto,
é inspirado pelo conhecido; tenho medo, por causa
das acumulações, físicas ou psicológicas,
que constitui para defender-me da dor ou evitar a aflição.
Mas a aflição está presente no próprio
processo de acumular para proteger-nos do sofrimento.
Também o conhecimento ajuda-nos a evitar a dor.
Assim como o conhecimento da medicina nos ajuda a evitar
a dor física, assim também as crenças
nos ajudam a evitar a dor psicológica, e esta é
a razão por que tenho medo de perder as minhas
crenças, embora eu não possua um conhecimento
perfeito, nem prova concreta da realidade de tais crenças.
Posso rejeitar alguma das crenças tradicionais
que me foram inculcadas, porque minha experiência
própria me dá força, confiança,
compreensão; mas tais crenças e o conhecimento
que adquiri são basicamente idênticos, isto
é, constituem um meio de proteção
contra a dor.
Existe temor enquanto há acumulação
do conhecido, que gera o medo de perder. Por conseguinte,
o temor do desconhecido é, na realidade, o medo
de perder o conhecido, por nós acumulado. A acumulação,
invariavelmente, importa em temor, o qual por sua vez
importa em sofrimento; e no minuto em que digo "não
devo perder" há temor. Embora, quando acumulo,
a minha intenção seja a de resguardar-me
da dor, a dor é inerente ao processo de acumulação.
As próprias coisas que possuo criam o temor, que
é dor.
A semente da defesa encera também
o ataque. Desejo segurança física; por isso
crio um governo soberano, e este necessita de forças
armadas, que acarretam a guerra, a qual destrói
a segurança. Sempre que há o desejo de autoproteção,
existe o temor. Quando percebo a falácia do desejo
de segurança, desisto de acumular. Se dizeis que
o reconheceis, mas não podeis deixar de acumular,
é que de fato, não percebeis que na acumulação
está me inerentemente, a dor.
Existe temor no processo de acumulação,
e a crença em alguma coisa é parte do processo
acumulativo. Morre o meu filho, e eu creio na reencarnação
para, psicologicamente, preservar-me de mais sofrimento;
mas no próprio "processo" do crer existe
a dúvida. Exteriormente, acumulo coisas, e provoco
a guerra; interiormente, acumulo crenças, e provoco
a dor. Enquanto desejo estar seguro, ter depósitos
nos bancos, ter prazeres, etc., enquanto desejo tornar-me
alguma coisa, fisiológica ou psicologicamente haverá
dor, necessariamente. As mesmas coisas que estou fazendo
para proteger-me da dor, geram o temor e a dor.
Nasce o temor quando desejo permanecer
num determinado padrão. Viver sem temor significa
viver sem padrão algum. Quando desejo determinada
maneira de viver, esse desejo, em si, é uma fonte
de temor. A dificuldade está no meu desejo de viver
segundo um certo molde. Não posso quebrar o molde?
Só posso quebrá-lo ao perceber esta verdade:
que o molde está causando temor, e que o temor
está reforçando o molde. Se digo que preciso
quebrar o molde, porque desejo ficar livre do temor estou
seguindo outro padrão, o qual será a causa
de outros temores. Toda ação de minha parte,
baseada no desejo de quebrar o molde, há de sempre
criar outro padrão, e, portanto, temor. Como posso
quebrar o padrão sem causar temor, isto é,
sem nenhuma ação, consciente ou inconsciente,
de minha parte; em relação a ele? Significa
isso que não devo agir, não devo fazer movimento
algum para quebrar o molde. Que me acontece, então,
quando fico apenas observando o padrão sem nada
fazer em relação a ele? Percebo que a mente
é, ela própria, o molde, o padrão;
ela vive no padrão habitual, que criou para si.
Por conseguinte, a mente é, ela própria,
temor. Tudo o que a mente faz é no sentido ou de
reforçar um velho padrão ou de por em vigor
o um padrão novo. Significa isso que tudo o que
a mente faça para livrar-se do temor, há
de gerar temor. Ao percebermos a verdade disso, ao percebermos
o "processo" respectivo, que acontece? A mente
se torna sensível, tranqüila.
Ora, por que não está
a mente sempre tranqüila? Toda vez que o padrão
se cristaliza, por que não percebe a mente a verdade
a esse respeito? Porque a mente deseja permanência,
estabilidade, um refúgio de onde lhe seja possível
operar. A mente quer estar segura. Dá-se a quebra
de um determinado padrão, e poucos minutos depois
observa-se uma nova cristalização; e, em
vez de examinar essa nova cristalização
e compreendê-la por completo, a mente volve à
antiga experiência e diz "percebi a verdade,
e isso deve continuar". Na busca de continuação,
a mente cria um novo padrão e a ele se apega. Toda
vez que ocorre cristalização, esta deve
ser observada e compreendida; e a repetição
ocorre por causa da deficiência da compreensão.
A verdade é não-continuidade.
A verdade de ontem não é a verdade de hoje.
A verdade não é do tempo e, portanto, não
é da memória; não é algo que
se possa experimentar, lembrar, ganhar, perder, ou realizar.
Perseguimos a verdade, porque desejamos ganhá-la
e dar-lhe continuidade; e logo que percebemos isso, realmente
o padrão se quebrará, pois a mente, então,
já cortou todas as amarras.
Krishnamurti - Madrasta,
29 de janeiro de 1950
Do livro: Que estamos
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