Em todas as nossas relações
- com pessoas, com a natureza, com idéias, com
coisas - parece que criamos cada vez mais problemas. Se
tentamos resolver um problema - econômico, político,
social, coletivo ou individual - fazemos surgir grande
número de novos problemas. De algum modo, parece
que criamos cada vez mais conflito, e estamos cada vez
mais necessitados de reforma. É bem evidente que
toda reforma torna necessárias novas reformas,
sendo, por conseguinte, um verdadeiro retrocesso. Enquanto
a revolução, seja da esquerda, seja da direita,
for apenas a continuidade do que foi, em referência ao que será, ela também é
retrocesso. Só pode haver uma revolução
fundamental, uma constante transformação
interior, quando nós, como indivíduos, compreendermos
nossas relações com a coletividade. A revolução
deve começar em cada um de nós, e não
nas influências exteriores, nas influências
ambientes. Nós, afinal, somos a, coletividade;
tanto o nosso consciente, como o inconsciente são
o resíduo de todas as influências políticas,
sociais e culturais do homem. Por conseguinte, para se
realizar, exteriormente, uma revolução fundamental,
torna-se necessária uma transformação
radical em nosso interior, uma transformação
independente de qualquer modificação do
ambiente. A revolução deve começar
em vós e em mim. Todas as grandes coisas começam
em escala pequena, todos os grandes movimentos começam
em vós e em mim como indivíduos; e se esperamos
pela ação coletiva, essa ação
coletiva, se vem a realizar-se, é destrutiva e
conducente a mais sofrimentos.
Vemos, pois, que a revolução
deve começar, em vós e em mim. Essa revolução,
essa transformação individual, só
pode realizar-se quando compreendemos as nossas relações,
que constituem o "processo" do autoconhecimento.
Sem conhecer integralmente o "processo" das
minhas relações, nos seus diferentes níveis,
o que penso e o que faço nenhum valor têm.
Que base tenho eu para pensar, se não conheço
a mim, mesmo? Temos tanto desejo de agir, tanto empenho
em fazer, alguma coisa, em realizar alguma espécie
de revolução, alguma espécie de melhoria,
alguma modificação no mundo; mas sem conhecermos
o nosso próprio funcionamento (processo), tanto
na periferia como no interior falta-nos toda base para
a ação e o que fazemos não pode deixar
de criar mais sofrimento e mais luta. A compreensão
de nós mesmos não se consegue pelo processo
de nos retirarmos da sociedade, ou de nos recolhermos
a uma torre de marfim. Se vós e eu nos dedicarmos
a estudar o assunto com toda a atenção e
de maneira inteligente, veremos que só podemos
compreender a nós mesmos em relação
e não no isolamento. Ninguém pode viver
no isolamento. Viver é estar em relação.
É só no espelho das relações
que compreendo a mim mesmo - o que significa que devo
estar sempre sobremodo atento, em todos os meus pensamentos,
sentimentos e ações, na vida de relação.
Não constitui isso um processo difícil nem
empresa sobre-humana; e, como acontece com todos os rios,
se bem que a nascente seja quase imperceptível,
as águas vão ganhando ímpeto, no
seu curso, à medida que se vão aprofundando.
Se, neste mundo louco e caótico, vos empenhardes
naquele processo, avisadamente, com atenção,
e com paciência, sem condenar, vereis como ele começa
a ganhar ímpeto, independentemente da questão
de tempo.
A verdade existe minuto por minuto,
na vida de relação, e temos de vê-la
em cada ato, cada pensamento e cada sentimento que surge,
em nossas relações. A verdade não
é coisa que se possa acumular, armazenar; temos
de achá-la de novo, no pensamento e no sentimento,
a cada instante - o que não representa um processo
acumulativo e, por conseguinte, não depende do
tempo. Quando dizeis que, com o tempo, compreendereis,
graças à experiência ou ao saber,
estais justamente impedindo a compreensão, porque
esta não resulta de acumulação alguma.
Podeis acumular saber, mas isso não é compreensão.
A compreensão surge quando a mente está
livre do conhecimento. Quando a mente não exige
a satisfação de desejos, quando não
procura experiência, há tranqüilidade;
e quando a mente está tranqüila, só
então haverá compreensão. Só
quando vós e eu estamos verdadeiramente dispostos
a ver claramente as coisas tais como são, é
que se nos oferece a possibilidade de compreensão.
A compreensão vem, não por meio de disciplinamento,
não por meio da compulsão, de coerção,
mas, sim, quando a mente está tranqüila e
disposta a ver as coisas com lucidez. A serenidade da
mente nunca se pode conseguir por meio da compulsão,
sob qualquer forma, consciente ou inconsciente; tem de
ser espontânea. A liberdade não está
no fim, mas no começo; porque o fim e o começo
não são diferentes, o meio e o fim são
idênticos. O começo da sabedoria é
a compreensão do processo total de nós mesmos,
e esse autoconhecimento, essa compreensão, é
meditação.
Krishnamurti - Madrasta,
5 de fevereiro de 1950
Do livro: Que estamos
buscando? - ICK
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