Veja,
por exemplo, a concha frágil de um simples caramujo
gelatinoso, essa praga inimiga de jardins: assombro bioquímico,
assombro arquitetônico, assombro matemático,
assombro estético. Não admira que haja pessoas
que se dediquem a fazer coleções de conchas,
como foi o caso de Neruda. Quem tem olhos de poeta vê
nas conchas sugestões metafísicas: elas
falam sobre a intenção estética que
pulsa no universo. A tranqüila contemplação
de conchas pode nos levar a uma experiência mística.
Como diria Bachelard: a matéria tem imaginação...
Depois Piaget abandonou os moluscos.
Seu interesse voltou-se para a psicologia, a compreensão
dos processos de conhecimento, seu nascimento, desenvolvimento
e mecanismos. Aparentemente, parece que Piaget mudou repentinamente
o foco do seu interesse. Que ligação poderia
haver entre os moluscos e a psicologia humana? Minha hipótese
é que ele não se desviou do seu interesse
original pelos moluscos. Moluscos e homens têm algo
em comum: ambos têm corpo mole. Os moluscos, para
proteger o seu corpo mole - delicadas delícias
culinárias, como é o caso das ostras e dos
scargots - e sobreviver, constróem casas chamadas
conchas. Os homens, para proteger seu corpo mole e sobreviver,
têm também de construir casas. Moluscos e
homens são ambos "construtivistas". A
diferença é que o corpo dos moluscos já
nasce sabendo a arte de construir suas casas. O modelo,
os materiais e a forma de suas casas já está
dentro deles. Moluscos não precisam ir à
escola. Não precisam pensar para inventar suas
conchas. Mas, ai de nós! Nascemos com um corpo
mais mole que o dos moluscos: a pele frágil, desprotegida.
Não temos nem penas, nem escamas, nem couro, nem
cabelos e nem carapaças. Nascemos nus no sentido
mais bruto da palavra. Nus, não sobreviveríamos
diante do frio, da neve, da chuva, do calor. Sem saber
o que fazer - inferiores, portanto, aos moluscos - esse
corpo mole, nu e desajeitado teve de inventar sua casa.
Para isso, teve de aprender a pensar. Foi da moleza do
nosso corpo que nasceu a inteligência. Você
sabe isso por experiência própria: a inteligência
só funciona quando o corpo não dá
conta de resolver um impasse prático. Diante de
um impasse prático, ele pensa. Inventa. Como diz
o ditado: "A necessidade é a mãe da
invenção". A inteligência é
a função que torna possível aos homens
construir suas casas. E como o nosso corpo, mais incompetente
que o corpo dos moluscos, não pode secretar sua
própria casa, o jeito é fazer a casa com
os materiais que se encontram espalhados pelo espaço
ao redor, no mundo. A construção da casa
exige conhecimento do mundo. Essa é a origem da
ciência. A inteligência sai à procura
dos seus materiais. Tem de incursionar pelo mundo: pesquisar.
Mas suas incursões e pesquisas não se fazem
a esmo: fazem-se guiadas por um motivo prático.
A inteligência busca o que é útil.
O que é inútil ela ignora. Não é
necessário aprender. Vai ao mundo para colher os
materiais necessários à construção
da casa. A inteligência, assim, tem uma orientação
ecológica. Ecologia é uma palavra derivada
da palavra grega "oikia", que quer dizer "casa."
No início a pesquisa é bem prática
e imediata: a busca dos materiais para fazer a casa. Resolvido
o problema inicial a pesquisa se amplia. O corpo precisa
conhecer os arredores, rios, montanhas, matas, porque,
para sobreviver, ele não pode ficar metido na sua
toca. Esse espaço é o "quintal"
da casa. É preciso conhecer os sinais do tempo.
A sobrevivência no verão é diferente
da sobrevivência no inverno. É preciso conhecer
os hábitos dos bichos e dos peixes, para serem
caçados e pescados. É preciso conhecer as
propriedades alimentícias e medicinais das plantas.
Pelo conhecimento o espaço da casa se amplia. O
homem pode sair de sua casa sem se perder. Pode sair de
sua casa para sobreviver. Mas ele volta sempre para a
casa.
A concha que o nosso corpo mole produz,
assim, não é feita só com materiais
físicos. É feita com conhecimento. Por vezes
esse conhecimento fica mais duro que as conchas dos moluscos
- havendo sempre o perigo de que ela se transforme numa
prisão, como se fosse uma concha que não
se abre. Conheço muitas pessoas assim.
A inteligência é uma
corda esticada entre dois pontos. De um lado, a necessidade:
construir a casa. Do outro, os materiais disponíveis.
As primeiras casas foram grutas. Gruta é uma casa
pronta. Não precisa ser inventada. É só
entrar dentro dela. Mas, nos lugares onde não há
grutas foi necessário construir grutas artificiais.
A inteligência dos esquimós produziu o iglu,
concha maravilhosa feita com blocos de gelo. Lá
dentro é quentinho. Curioso que dentro de uma concha
de gelo faça calor! Nos países frios os
pássaros se abrigam dentro dos iglus naturais que
a neve faz sobre os arbustos. Os esquimós jamais
pensariam em construir casas de madeira ou de lona porque
esses materiais não são encontrados no mundo
em que vivem. E os beduínos, no deserto, jamais
poderiam imaginar um iglu. No deserto não há
gelo. E nem fariam uma casa fixa: eles são tribos
errantes. Suas casas são tendas de pano que podem
ser desmontadas e transportadas. Populações
que moram à beira de rios sujeitos à enchentes
logo perceberam que suas casas deveriam ter pernas de
pau: inventaram as palafitas. Que coisa interessante seria
estudar, com as crianças, os vários tipos
de casa. A necessidade de construir casa é universal.
Mas dessa necessidade surgem as mais diferentes "ciências"
do mundo, em função dos materiais que são
usados para a construção das casas.
A inteligência é ferramenta
do corpo. (Por vezes - é preciso acrescentar -
ela é brinquedo do corpo... Quem está montando
um quebra-cabeças ou jogando um jogo de xadrez
está usando a inteligência como brinquedo.)
Casas são extensões
do corpo - prolongamentos dos nossos órgãos.
Anote isso: o corpo é egoísta; ele pensa
e age no sentido de viver. Por isso ele pensa e age praticamente.
O que não é prático ele ignora -
esquece.
Os materiais com que a casa é
construída - paredes, teto, portas - são
extensões dos meus ossos e músculos. As
janelas são extensões dos pulmões
e dos olhos. O fogão de lenha, em sua função
de aquecer, é uma expansão da pele. Mas
na sua função de cozinhar ele é uma
extensão da boca (o gosto bom da comida) e do aparelho
digestivo: comida cozida ajuda a digestão. A casa
está cheia de uma infinidade de objetos que usamos
constantemente: caixas de fósforo, torneiras, interruptores
elétricos, espelhos, sprays, remédios, facas,
garfos, vassouras, papel, fogão, martelos, pregos,
serrotes, fotografias, rádios, televisões,
chuveiros, sabões, lâmpadas, velas, brinquedos,
cestas de lixo. Cada um desses objetos é um mundo.
Cada um deles é produto de invenção.
Cada um deles está cheio de inteligência.
Uma casa que provoca a inteligência deve estar cheia
desses objetos. Ah! Como as caixas de ferramentas são
importantes! Laboratórios inesgotáveis de
física. E que dizer da cozinha, lugar de química!
Essa orientação ecológica
do conhecimento tem uma conseqüência muito
interessante. Casa é casa do corpo. O que é
a minha casa? Minha casa é o espaço que
o meu corpo construiu para si mesmo. Um princípio
fundamental da inteligência é que ela só
funciona em relação àquilo que diz
respeito a uma necessidade prática do corpo, no
preciso momento em que ele está vivendo. Cada professor,
ao tentar ensinar qualquer coisa, deveria se fazer esta
pergunta: "Qual é a função prática
do que estou ensinando, para o momento da vida do aluno
à minha frente?" Já imaginou um professor
ensinando aos beduínos no deserto a arte de fazer
iglus? Ou a arte da pesca? E que dizer de um professor
que ensinasse aos moradores das montanhas a arte de navegar?
Anote isso: o corpo não aceita programas de saberes
logicamente organizados abstratamente, que não
estejam relacionados com o desafio da construção
das suas casas. Claro: para os navegadores, seus barcos
e o mar são parte da sua casa. Para os que trabalham
o solo, suas ferramentas, as sementes e as pragas são
parte de sua casa. Para os pintores, as tintas e os pincéis
são parte da sua casa. Para quem está doente,
o conhecimento do corpo e das poções medicinais
são parte da sua casa. Em resumo: a currículo
é determinado pela vida, pelos desafios que se
encontram no momento, dados pelo ambiente - os alemães
usam a palavra "Umwelt" para designar isso.
"Um" quer dizer "ao redor". E "Welt"
quer dizer mundo: mundo. "Umwelt" = o mundo
ao redor.
Pois foi isso que Piaget tratou de
compreender cientificamente: os mecanismos da inteligência
no seu esforço para manipular o seu ambiente, seja
pelas manipulações práticas, sejam
pelas manipulações do pensamento. A inteligência
é uma construtora de casas.
Como você pode ver, há
uma analogia entre os moluscos e os homens...
Rubem
Alves
Rubem Alves é educador, escritor,
psicanalista e professor emérito da Unicamp.
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