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"Animais de corpo mole"
Rubem Alves

Meu amigo Fábio Roland, da Universidade de Juiz de Fora, cientista especializado na biologia dos lagos, me contou que o primeiro interesse científico de Piaget foram os moluscos dos lagos da Suíça. "Molluscus" em latim quer dizer "mole", e se deriva de "mollis" = mole. Moluscos são animais invertebrados que normalmente têm seus corpos protegidos por uma concha tais como as ostras, os mariscos, os caramujos. Eu me juntaria alegremente a Piaget em suas pesquisas porque as conchas dos moluscos sempre me foram objetos fascinantes.

Veja, por exemplo, a concha frágil de um simples caramujo gelatinoso, essa praga inimiga de jardins: assombro bioquímico, assombro arquitetônico, assombro matemático, assombro estético. Não admira que haja pessoas que se dediquem a fazer coleções de conchas, como foi o caso de Neruda. Quem tem olhos de poeta vê nas conchas sugestões metafísicas: elas falam sobre a intenção estética que pulsa no universo. A tranqüila contemplação de conchas pode nos levar a uma experiência mística. Como diria Bachelard: a matéria tem imaginação...

Depois Piaget abandonou os moluscos. Seu interesse voltou-se para a psicologia, a compreensão dos processos de conhecimento, seu nascimento, desenvolvimento e mecanismos. Aparentemente, parece que Piaget mudou repentinamente o foco do seu interesse. Que ligação poderia haver entre os moluscos e a psicologia humana? Minha hipótese é que ele não se desviou do seu interesse original pelos moluscos. Moluscos e homens têm algo em comum: ambos têm corpo mole. Os moluscos, para proteger o seu corpo mole - delicadas delícias culinárias, como é o caso das ostras e dos scargots - e sobreviver, constróem casas chamadas conchas. Os homens, para proteger seu corpo mole e sobreviver, têm também de construir casas. Moluscos e homens são ambos "construtivistas". A diferença é que o corpo dos moluscos já nasce sabendo a arte de construir suas casas. O modelo, os materiais e a forma de suas casas já está dentro deles. Moluscos não precisam ir à escola. Não precisam pensar para inventar suas conchas. Mas, ai de nós! Nascemos com um corpo mais mole que o dos moluscos: a pele frágil, desprotegida. Não temos nem penas, nem escamas, nem couro, nem cabelos e nem carapaças. Nascemos nus no sentido mais bruto da palavra. Nus, não sobreviveríamos diante do frio, da neve, da chuva, do calor. Sem saber o que fazer - inferiores, portanto, aos moluscos - esse corpo mole, nu e desajeitado teve de inventar sua casa. Para isso, teve de aprender a pensar. Foi da moleza do nosso corpo que nasceu a inteligência. Você sabe isso por experiência própria: a inteligência só funciona quando o corpo não dá conta de resolver um impasse prático. Diante de um impasse prático, ele pensa. Inventa. Como diz o ditado: "A necessidade é a mãe da invenção". A inteligência é a função que torna possível aos homens construir suas casas. E como o nosso corpo, mais incompetente que o corpo dos moluscos, não pode secretar sua própria casa, o jeito é fazer a casa com os materiais que se encontram espalhados pelo espaço ao redor, no mundo. A construção da casa exige conhecimento do mundo. Essa é a origem da ciência. A inteligência sai à procura dos seus materiais. Tem de incursionar pelo mundo: pesquisar. Mas suas incursões e pesquisas não se fazem a esmo: fazem-se guiadas por um motivo prático. A inteligência busca o que é útil. O que é inútil ela ignora. Não é necessário aprender. Vai ao mundo para colher os materiais necessários à construção da casa. A inteligência, assim, tem uma orientação ecológica. Ecologia é uma palavra derivada da palavra grega "oikia", que quer dizer "casa." No início a pesquisa é bem prática e imediata: a busca dos materiais para fazer a casa. Resolvido o problema inicial a pesquisa se amplia. O corpo precisa conhecer os arredores, rios, montanhas, matas, porque, para sobreviver, ele não pode ficar metido na sua toca. Esse espaço é o "quintal" da casa. É preciso conhecer os sinais do tempo. A sobrevivência no verão é diferente da sobrevivência no inverno. É preciso conhecer os hábitos dos bichos e dos peixes, para serem caçados e pescados. É preciso conhecer as propriedades alimentícias e medicinais das plantas. Pelo conhecimento o espaço da casa se amplia. O homem pode sair de sua casa sem se perder. Pode sair de sua casa para sobreviver. Mas ele volta sempre para a casa.

A concha que o nosso corpo mole produz, assim, não é feita só com materiais físicos. É feita com conhecimento. Por vezes esse conhecimento fica mais duro que as conchas dos moluscos - havendo sempre o perigo de que ela se transforme numa prisão, como se fosse uma concha que não se abre. Conheço muitas pessoas assim.

A inteligência é uma corda esticada entre dois pontos. De um lado, a necessidade: construir a casa. Do outro, os materiais disponíveis. As primeiras casas foram grutas. Gruta é uma casa pronta. Não precisa ser inventada. É só entrar dentro dela. Mas, nos lugares onde não há grutas foi necessário construir grutas artificiais. A inteligência dos esquimós produziu o iglu, concha maravilhosa feita com blocos de gelo. Lá dentro é quentinho. Curioso que dentro de uma concha de gelo faça calor! Nos países frios os pássaros se abrigam dentro dos iglus naturais que a neve faz sobre os arbustos. Os esquimós jamais pensariam em construir casas de madeira ou de lona porque esses materiais não são encontrados no mundo em que vivem. E os beduínos, no deserto, jamais poderiam imaginar um iglu. No deserto não há gelo. E nem fariam uma casa fixa: eles são tribos errantes. Suas casas são tendas de pano que podem ser desmontadas e transportadas. Populações que moram à beira de rios sujeitos à enchentes logo perceberam que suas casas deveriam ter pernas de pau: inventaram as palafitas. Que coisa interessante seria estudar, com as crianças, os vários tipos de casa. A necessidade de construir casa é universal. Mas dessa necessidade surgem as mais diferentes "ciências" do mundo, em função dos materiais que são usados para a construção das casas.

A inteligência é ferramenta do corpo. (Por vezes - é preciso acrescentar - ela é brinquedo do corpo... Quem está montando um quebra-cabeças ou jogando um jogo de xadrez está usando a inteligência como brinquedo.)

Casas são extensões do corpo - prolongamentos dos nossos órgãos. Anote isso: o corpo é egoísta; ele pensa e age no sentido de viver. Por isso ele pensa e age praticamente. O que não é prático ele ignora - esquece.

Os materiais com que a casa é construída - paredes, teto, portas - são extensões dos meus ossos e músculos. As janelas são extensões dos pulmões e dos olhos. O fogão de lenha, em sua função de aquecer, é uma expansão da pele. Mas na sua função de cozinhar ele é uma extensão da boca (o gosto bom da comida) e do aparelho digestivo: comida cozida ajuda a digestão. A casa está cheia de uma infinidade de objetos que usamos constantemente: caixas de fósforo, torneiras, interruptores elétricos, espelhos, sprays, remédios, facas, garfos, vassouras, papel, fogão, martelos, pregos, serrotes, fotografias, rádios, televisões, chuveiros, sabões, lâmpadas, velas, brinquedos, cestas de lixo. Cada um desses objetos é um mundo. Cada um deles é produto de invenção. Cada um deles está cheio de inteligência. Uma casa que provoca a inteligência deve estar cheia desses objetos. Ah! Como as caixas de ferramentas são importantes! Laboratórios inesgotáveis de física. E que dizer da cozinha, lugar de química!

Essa orientação ecológica do conhecimento tem uma conseqüência muito interessante. Casa é casa do corpo. O que é a minha casa? Minha casa é o espaço que o meu corpo construiu para si mesmo. Um princípio fundamental da inteligência é que ela só funciona em relação àquilo que diz respeito a uma necessidade prática do corpo, no preciso momento em que ele está vivendo. Cada professor, ao tentar ensinar qualquer coisa, deveria se fazer esta pergunta: "Qual é a função prática do que estou ensinando, para o momento da vida do aluno à minha frente?" Já imaginou um professor ensinando aos beduínos no deserto a arte de fazer iglus? Ou a arte da pesca? E que dizer de um professor que ensinasse aos moradores das montanhas a arte de navegar? Anote isso: o corpo não aceita programas de saberes logicamente organizados abstratamente, que não estejam relacionados com o desafio da construção das suas casas. Claro: para os navegadores, seus barcos e o mar são parte da sua casa. Para os que trabalham o solo, suas ferramentas, as sementes e as pragas são parte de sua casa. Para os pintores, as tintas e os pincéis são parte da sua casa. Para quem está doente, o conhecimento do corpo e das poções medicinais são parte da sua casa. Em resumo: a currículo é determinado pela vida, pelos desafios que se encontram no momento, dados pelo ambiente - os alemães usam a palavra "Umwelt" para designar isso. "Um" quer dizer "ao redor". E "Welt" quer dizer mundo: mundo. "Umwelt" = o mundo ao redor.

Pois foi isso que Piaget tratou de compreender cientificamente: os mecanismos da inteligência no seu esforço para manipular o seu ambiente, seja pelas manipulações práticas, sejam pelas manipulações do pensamento. A inteligência é uma construtora de casas.

Como você pode ver, há uma analogia entre os moluscos e os homens...

Rubem Alves

Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp.

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