Vivo preocupado em ultrapassar a mim mesmo. Não me conformo
com o que vou sendo. Busco sempre um passo a mais. Por conta disso,
vivo me estudando, assim como o espaço onde vivo. Assim,
hoje, pensando nisso, descobri, na cultura social, uma cultura
de ansiedade. E essa cultura nos arrastando a uma insatisfação
perenizada.
Principalmente porque busca nos identificar com aquilo que nos induz
a sentir e pensar. Tenta nos condicionar a um estado unívoco
de consciência. Paradigmas e padrões são promovidos,
distorcendo valores, para definir o homem como proprietário.
Nos obriga a ter para ser. Nessa seqüência, a sermos possuídos
pelo que julgamos possuir. Já não é mais para
economizar em nossos capitais monetários. Mas também
em nossa generosidade e alegria, bondade e amizade. Nos oferecem,
em troca, o que consideram conforto e segurança.
No real, individualiza, tornando nossa vida vazia, criando um abismo
imenso entre nós e o outro. Retiram de nós a possibilidade
de uma relação substancial com os outros. Sartre diz: "Quando
me encontro com o outro, este me toma o mundo e me converte em objeto".
O dinheiro dissipa todos os obstáculos. Elimina a possibilidade
de uma luta direta com a vida. Garante uma segurança que nos
empobrece de motivos. Então a ansiedade e em seqüência
a insatisfação.
Não somos o que temos sido incitados a sentir e ser. Somos
aqueles que, relacionados a algo, sentimos de acordo com nossas definições
pessoais. Sentir e pensar são movimentos daquilo que somos.
Quando sonhamos com algo que nos faça sofrer ou nos traga
prazer, geramos sentimentos de sofrência ou alegria. Ao acordarmos,
como que por encanto, toda aquela agonia ou felicidade desaparece.
O alívio ou a frustração é imediato.
Fica claro, então, que o que sentimos, não somos nós.
Tudo o que sentimos é relativo a nosso estado de consciência.
Estamos situados na existência. Mas situados acima. Num estado
de utilização de nossas capacidades. E não como
quer o sistema consumista da cultura social, à mercê de
suas instigações behavioristas.
De modo algum podemos ser separados do que somos de verdade. Daquilo
que somos além do que a estrutura social busca fazer de nós:
seres automatizados, induzidos a produzir e consumir.
A psicologia é ciência cuja finalidade seria procurar
e resolver os problemas da psique humana. Tristemente, foi transformada
em instrumento de condicionamento e indução do pensamento
e da emoção. Somos incitados a possuir tudo o que aqueles
que manipulam o mercado desejam ver escoado de seus estoques. Sem
a menor preocupação do que sejam nossas necessidades
ou possibilidades.
Querem nos tornar adquirentes, compradores compulsivos. Buscam nos
viciar em seus esquemas, tal qual o cão salivante de Pavlov.
Os cursos de técnicas de marketing, as práticas de
merchandising e o desenvolvimento das teorias subliminares de propaganda
estão aí para comprovar.
Além de explorar e diminuir, esse esquema de idéias
invade nossa psique, fragilizando nosso sistema psicológico.
Potencializa nossos preconceitos e recalques. Reforça nossos
traumas e frustrações, desenvolvendo hábitos
nocivos e condicionamentos neurotizantes. Busca nos desviar de nós
mesmos. Tenta nos desestruturar e fazer de nós o que não
somos realmente.
Não podemos viver anestesiados por essa massificação
de idéias alienantes. Isso nos torna insensíveis, cegos à
rudeza do destino do outro e surdos aos infortúnios que não
são nossos infortúnios.
Não devemos nos limitar à vida que nos é dada
a conhecer pela via social. Porque então já não
seremos mais potentes para lutar por uma vida mais digna e condizente
com nossa humanidade. Estaríamos apoiando um sistema de idéias
enlouquecido que busca nos escravizar.
Está mais do que claro que nossa organização
social está subordinada a valores econômicos. O que é uma
ameaça imensurável
à qualidade de nossa existência. Não podemos
sequer aspirar as recompensas que tal estrutura social nos oferece.
Porque nos incapacitaria de considerar a possibilidade de uma vida
diferente, mais humana e profunda do que essa a que somos quase obrigados.
Somente em negando essa realidade como única, poderemos construir
uma alternativa.
Poderemos então ter a chance de experimentar algo diverso
e quem sabe melhor. Algo para além da sabedoria convencional
fundamentada por essa ideologia tecno-científica. Concebida
e alimentada por privilegiados que se utilizam dela para atingir
seus lucros questionáveis. Devemos acreditar que é sempre
possível alterar. Só então construiremos o espaço
para a análise da realidade e poderemos ultrapassá-la.
Temos sido o que não somos. Vivemos mergulhados em véus
que nos separam de nossa verdade pessoal. Precisamos trabalhar em
busca de nós mesmos. Necessitamos examinar véu a véu,
questão a questão, resolvendo um a um, até conseguirmos
estar diante de nós mesmos. Inventar um módulo existencial
que nos transporte para além do que estamos condicionados.
Por exemplo, buscar o amor acima dos momentos de prazer. Acima das
carências que sentimos. Uma ciência que busque além
da utilidade. Uma arte que procure além da perfeição
dos traços ou das expressões. Acima de tudo, uma relação
como pessoas. Que não vise apenas a satisfação
de nossas necessidades e que pense a necessidade do outro ao mesmo
tempo que a nossa. Somente assim criaremos algo novo. Venceremos
essa antiga e ultrapassada cultura social, que só produz a
ansiedade e a insatisfação que nos têm tangido.
Composto por Luiz Alberto Mendes em junho de l990
Fonte: http://revistatrip.uol.com.br//demo/colunas_edicao.cfm?id=339
04/04/2005