Se a casa do fígado
é a morada da bile
e as veias são rios,
estradas reais do sangue,
o corpo é morada do Ser.
No corpo a vida
vibra com ruído e furor,
e na memória da pele
navegam
sussurros de Eros.
Nada é real
fora do corpo.
“Nas altas torres do corpo
o desejo resplandecia”.
Tudo ali era deserto e oceano,
silêncio e sinfonia.
“Porque há um desejo
em mim, tudo é cintilância”. (1)
Que rio dos sentidos
ligará ao céu
e ao inferno que somos
esta usina de energia?
mutações alquímicas
explicarão, em equações
matemágicas,
o sal do milagre
no esplendor do absurdo?
Para que servem
as cordas da voz,
se a palavra “amor”
estanca na garganta
e só é escrita
nas celas do furor
por seres monstruosos?
Para que serve a pele,
se, a flor da pele
não comunica
a memória da carícia?
Para que serve o corpo,
se o corpo ( morto)
não faz da dança dos sentidos
o templo do gozo
e a casa do nirvana?
Depois que me vi, liberto
das solidões de Tânatos, sinto:
viver é não trair
a canção dos gestos,
e ver, no milagre dos sentidos
o pensamento divino.
II
Não hei negado
o corpo ao corpo.
“Eu quero o corpo,
tenho pressa de viver”.
minha pele guarda a memória
dos gestos que adiei.
Fauno e Sísifo,
fui buscar
em abissais labirintos
o minotauro que sou.
E se minto, quando sofro,
é que só amo
o que não sinto.
Agora aceito
que somos feitos
de amar o mar
de carne osso,
que nos coube
mar de magma
e de lágrimas amargas,
mar de náufragos
afogados no seco