<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="65001"%> BATEAU IVRE 

BATEAU IVRE 

     Brasigóis Felício nasceu em Aloândia (Go) em 1950. Tem 20 livros publicados, entre obras de poesia, conto, romance, crônica e crítica literária. Em sua bibliografia destacam-se Hotel do tempo,   poesia, (Editora Civilização Brasileira, l982); Monólogos da Angústia, contos, (Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Diários de André, romance censurado e apreendido em 1976, por ordem do ex-ministro da Justiça, Armando Falcão; Viver é devagar, crônicas, l998, Literatura Contemporãnea em Goiás, crítica literária,  O tempo dos homens sem rosto,  poesia, Editora Estação Liberdade, e Memória da solidão, contos, Coleção Karajá, da Agência Goiana de Cultura.  

       

Náufrago de todas as tormentas,
afogado no seco
na memória da morte
da raça de Caim,
desesperado de esperar,

estive em cada porto, em cada rosto
em que despedi-me para sempre
do amor que tenho                                 
porque o  perdi

Nunca sentei a beleza no colo,
nunca a beleza se afastou de mim.,

Cristo no Gólgota,
estive no gemido moribundo
de cada um que sucumbiu
no hospital do medo.

Em mantos de ternura,
entre os rios da ira
e tonéis de angustura
fui tão covarde
como o que a si mesmo
por medo a dia,
nunca sonhei,
como Rimbaud,
“o anjo em chamas”,
conquistar esplêndidas cidades,
à luz de luminosas auroras.

Também nunca fui Quixote
para travar combates
com moinhos de vento,
não sonhei
inventar “fraternura”,
como a que via
o mago Rosa,
artesão do Ser
e do grande sertão
das veredas sem porteira.

Em dias antigos
com meu ódio cristão
quis incendiar
o princípio da vida.
Prisioneiro do medo,
vendia a vida
que não tinha,
e só profanava
o templo sagrado do corpo.

E no entanto, herói não sou.
apenas um que
por enquanto escapou
do matadouro do dia. 

            II

Nada é sagrado,
Tudo é misterioso.
Tudo é trágico,
tudo é cômico,
no ato misterioso
de chegar ao ministério
doloroso ou gozoso.

Há milênios navegamos,
no mar desespero.
e dói saber
que somos nascidos
para morrer um dia.

Desesperado
Cantor da esperança,
a tudo me entrego.

Em tudo canto,
em tudo danço,
em tudo amo.
tudo me
entristece e alegra.
Tudo me comove,
tudo me alivia.

Ser consciência
da Presença que sou,
é a luz que ilumina
o meu velho desespero.

As horas mais
arco do triunfo
da minha vida
são como as horas
mais derrotadas
de meus dias. 

          III

Habitante do que sinto,
morro no que vivo.
na solidão acompanhada
em que me acho,
estarei sempre só,
na multidão
nauseado das palavras,
“vazio como um odre
cheio de vento
e de palavras vulgares”.

Depois que habitei
o obsceno esplendor do Ser,
nunca mais não vi
na face-espelho
do animal humano
o meu rosto coletivo de Caim.

Fiz do meu corpo
lembrança sangrenta
de exilado aqui.
estou desterrado
nos lençóis da minha cama. 

Na América esquartejada
do Tiradentes inconfidente
que fui e serei,
cortado em postas,
fincado nos altos
postes de Minas,
até que o tempo devore
o que sobrou de mim.

As horas mais derrotadas
de meus dias
são como as horas
mais arco do triunfo
da minha vida.

 

 

Brasigóis Felício

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