CANTAR ME ENLOUQUECE
RABINDRANATH TAGORE |
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Quando me ordenas cantar, parece que o meu
coração vai arrebentar-se...
Pensei que poderia te pedir a grinalda de
flores que levas no pescoço...
Essa que ficou sempre na profundidade do
meu ser...
A minha libertação...
Daqui por diante eu me expressarei em sussurros...
Cantar me enlouquece...
Quando me ordenas cantar,
parece que o meu coração vai
arrebentar-se
de orgulho. Então contemplo a tua face
e as
lágrimas me vêm aos olhos.
Tudo o que é duro e dissonante em
minha vida se dissolve em única e doce
harmonia, e a minha adoração
abre as
suas asas, como um pássaro alegre voando
sobre o mar.
Sei que tens prazer no meu canto.
Sei que posso chegar à tua presença
apenas
como um cantor.
Com a ponta da asa imensamente
aberta do meu canto eu roço os teus
pés,
que eu jamais poderia querer alcançar.
Embriagado pela alegria de cantar,
esqueço a mim mesmo e te chamo amigo,
tu que és o meu Senhor.
Pensei que poderia te pedir a
grinalda de flores que levas no pescoço,
mas não me atrevi. Fiquei esperando
pela
manhã, quando tivesses ido embora,
para
encontrar pedaços dela no leito. E
fiquei na
madrugada feito mendiga, procurando
uma ou duas pétalas caídas.
Coitada de mim, o que foi que
encontrei? O que me restou do teu amor?
Nem flor, nem perfume, nem jarro de água
perfumada... Apenas a tua espada
poderosa, flamejante como chama e pesada
como raio na tempestade. A luz jovem da
manhã entra pela janela e se derrama
em
teu leito. O pássaro da manhã
começa a
cantar, e me pergunta: "Mulher, o que
é
que encontraste?" Não, não
foi uma flor,
nem perfume e nem jarro de água
perfumada. Encontrei apenas a tua espada
poderosa.
Sento-me e fico cismando, admirada
com essa tua dádiva. Não acho
lugar onde
escondê-la. Tenho vergonha de usá-la,
tão
frágil sou, e ela me fere quando eu
a aperto
contra o peito. Mesmo assim, porém,
eu
levarei no meu coração esse
honroso fardo
de dor, que é a tua dádiva para
mim.
Doravante nada mais temerei neste
mundo, e tu conquistarás a vitória
em
todas as minhas lutas. Deste-me a morte
por companheira, e eu vou coroá-la
com a
minha vida. A tua espada está comigo
para
cortar as minhas amarras, e nada mais
temerei neste mundo.
Doravante eu abandono todos os
adornos fúteis. Senhor do meu coração,
não vou mais ficar esperando ou me
desesperando pelos cantos, e nunca mais
vou ser tímida ou caprichosa. Deste-me
como ornamento a tua espada. Não preciso
mais dos enfeites de boneca.
Essa que ficou sempre na
profundidade do meu ser, no crepúsculo
de
vislumbres e percepções momentâneas;
essa
que jamais retirou seus véus na luz
da
manhã, essa irá ser a minha
última
oferenda a ti, meu Deus, envolta na minha
canção final.
As palavras a cortejam, mas não conseguiram
vencê-la, e a persuasão inutilmente
estendeu para ela os seus braços ansiosos.
Vaguei de país em país, conservando-a
no íntimo do meu coração,
e ao redor
dela a minha vida ergueu-se e caiu, ao
mesmo tempo forte e frágil.
Embora habite sozinha e afastada, ela sempre
reinou sobre todos os meus pensamentos e ações,
sobre todos os meus sonos e sonhos.
Muitos bateram à minha porta,
perguntaram por ela, e foram-se embora,
sem esperança.
Ninguém no mundo conseguiu vê-la
face a face, e ela continua em sua solidão,
à espera do teu reconhecimento.
A minha libertação, para mim,
não está
na renúncia. Sinto o abraço
da liberdade
em mil laços de prazer.
Daqui por diante eu me expressarei
em sussurros...
...Gastei muitas e muitas horas na luta
entre o bem e o mal. Mas agora o prazer do
meu companheiro de jogos nos dias vazios
é atrair o meu coração
para o seu. E eu
não compreendo por que esse repentino
convite para não sei qual inútil
inconseqüência!
Cantar me enlouquece, e se eu me
desfizesse todo num vôo de canção,
nada
me pesaria tanto...
RABINDRANATH TAGORE
Tradução de Ivo Storniolo |