Conferência na Universidade
da Califórnia, em Santa Cruz
Krishnamurti
— Como é que sabemos que elas são neuróticas?
Uma pergunta muito séria, por isso reparemos bem. Como
é que sei que elas são neuróticas? Serei
também neurótico por reconhecer que elas o são?
Interlocutor — Sim.
Krishnamurti — Não diga que sim
tão rapidamente! Vamos olhar bem para isto, vamos escutá-lo,
Que quer dizer neurótico? Ser um pouco estranho, confuso,
sem lucidez, ligeiramente desequilibrado. E infelizmente quase
todos somos ligeiramente desequilibrados. Não? Não
tem bem a certeza... Não somos desequilibrados quando somos
Cristãos, Hindus, Budistas, Comunistas, etc.? Não
somos neuróticos quando nos fechamos nos nossos problemas,
erguendo um muro à nossa volta porque pensamos que somos
muito melhores do que outro qualquer? Não somos desequilibrados
quando a nossa vida está cheia de resistência —
o «eu» e «tu», o «nós»
e «eles» e todas as outras divisões? Não
somos neuróticos no emprego quando queremos passar à
frente do outro?
Como é então que a pessoa se
torna neurótica? Será a sociedade que a faz neurótica?
Essa é a explicação mais simples —
o meu pai, a minha mãe, o meu vizinho, o governo, o exército,
toda a gente me faz neurótico. São todos responsáveis
pelo meu desequilíbrio. E quando vou ao psiquiatra em busca
de ajuda, pobre homem, ele também é neurótico,
como eu... Não riam, por favor. É isto exatamente
o que está a acontecer no mundo.
Ora por que é que me torno neurótico?
Tudo no mundo, tal como existe agora, a sociedade, a família,
os pais, os filhos — não têm amor. Pensam que
haveria guerras se tivessem amor? Julgam que haveria governos
que consideram perfeitamente certo que as pessoas sejam mortas?
Uma sociedade assim nunca existiria se as mães e os pais
amassem realmente os filhos, se quisessem o seu bem, se olhassem
por eles e os ensinassem a ser bondosos, a viver e a amar.
Essas são as pressões e as
exigências exteriores que dão origem a esta sociedade
neurótica; há também impulsos e as pressões
dentro de nós mesmos, a violência inata que herdamos
do passado — tudo isso ajuda a criar esta neurose, este
desequilíbrio. O fato é portanto este — somos
quase todos ligeiramente desequilibrados, ou mais do que isso,
e não adianta culpar seja quem for. O fato é que
psiquicamente não se é equilibrado — mentalmente,
sexualmente, de todas as maneiras, estamos desequilibrados. Mas
o importante é a pessoa tomar consciência disso,
saber que não é equilibrada, não «como»
tornar-se equilibrada. Uma mente neurótica não pode
fazer-se equilibrada, mas se não tiver chegado ao extremo
da neurose, se ainda conservar algum equilíbrio, é
capaz de se observar a si própria. A pessoa pode então
estar atenta ao que faz, ao que diz, ao que pensa, à maneira
como anda, como está sentada, como come, observando constantemente,
mas sem corrigir.
Se se observar dessa maneira sem qualquer
escolha, então, dessa observação profunda
surgirá um ser humano são e equilibrado; então
não mais se será neurótico. Uma mente equilibrada
é sábia, e não moldada por juízo e
opiniões.
Krishnamurti –
O Mundo Somos Nós – Ed. Horizonte Pedagógico