Quarta-feira,
manhã nublada. Asfalto ainda marcado pela
chuva torrencial que sangrou durante toda madrugada.
Comecei
mais um dia, na mesma rotina de sempre: Levantar meio contrariado, tomar meu
banho matinal, escovar os dentes, pegar duas conduções observando
o olhar pesado da população dentro e fora da condução.
O contraste entre os morros da favela e os morros da Serra da Cantareira, o
café da padaria, servido de modo rotineiro (e mal humorado), a abertura
da loja, a leitura dos e-mails e finalmente... O tédio com a promessa
de mais um dia a espera das circunstâncias ocasionais.
Novamente
abro a caixa de e-mails, na expectativa de encontrar algum texto inteligente,
que mereça alguns minutos, ou até mesmo (em caso de muita sorte)
horas de reflexão...
Nada! Somente propagandas e mais propagandas...
Tédio! O silêncio é tanto que
dá até para ouvir a ventuinha do meu
computador.
De repente,
o sinal do MSN... Uma conhecida virtual desejando-me “Feliz 2006”...
Tentando driblar o meu mau humor, respondo com uma
pergunta:
- Existe “Ano Novo”?
E ela me responde que não acredita nessa estória
de ano novo.
Meio perplexo, pergunto:
- então, porque me desejou?
Passados alguns minutos de silêncio, recebo
uma nova mensagem, contendo uma dessas receitinhas
baratas de como ser feliz por um dia, extraídas
das prateleiras dos supermercados esotéricos:
- Procure
efetuar a morte simbólica
de suas crenças limitadoras. Livre-se
do desnecessário, daquilo que já não
nos serve para nada. Tenha mais um dia cheio
de luz.
E eu lhe questiono:
- Não seria isso mais um sistema de crenças?
Uma mera troca de crenças e condicionamentos?
E obtenho como resposta:
- Depende... Não para aqueles que buscam
isso... Eu não tenho o calendário como
um condicionamento.
E eu pergunto:
- Mas a própria "busca", não
seria um condicionamento? Uma vez que se busca algo,
o que é buscado, já não está condicionado?
Ou não?
... Silêncio... a ventuinha.... silêncio....
De repente, surge no alto da tela do MSN, a mensagem
em destaque amarelo:
Ciclano não pode responder porque parece estar
offline.
Novamente o silêncio... O tédio! A solidão
mental!
Chego à conclusão de que as pessoas
não gostam muito de pensar, de questionar
e o pior de tudo, é que aqueles que pensam,
que questionam, que ousam duvidar da validade dos
condicionamentos sociais, das frases prontas e receitinhas
esotéricas, quase sempre acabam passando por
chatos e até mesmo, problemáticos.
Novamente o silêncio é quebrado pelo
som do MSN. É a minha conhecida me respondendo
a pergunta anterior sobre o condicionamento da busca:
- Não, porque o que mais busca é sempre
o buscado. Quem sempre se condiciona a buscar, é quem
sempre tem as respostas dentro de si. Eu não
me condiciono... Entende?
- Não, não entendo! Se você já tem
as respostas dentro de si, então, porque buscar?
- Não sei! Isso tu tens que perguntar
para quem se condiciona a buscar; não é o
meu caso!
- Ora, como não é o seu caso? Não
foi você mesma quem me respondeu isso, que
me enviou esse texto?
- Tu sempre jogas com as pessoas?
- Você acha que pensar juntos é jogar?
- Eu respondi que quem sempre busca é sempre o buscado! Eu não
busco... As coisas chegam até mim, eu penero. O que me servir absorvo,
senão, não...
- Eu continuo na mesma!
Novamente o silêncio... Vou até a caixa
de e-mails!...
Ops! Está chegando uma nova mensagem...
Mais uma propaganda, agora, dos lançamentos
literários... Vamos ver...
- Olá Nelson, você está recebendo
nosso Boletim “Mais Cultura”. Na
seção Vitrine você ficará conhecendo
os livros do momento e os mais destacados nos assuntos
crenças & esoterismos, psicologia e religião... Sem
barganhas com Deus, O Evangelho Reunido, Em busca
de Deus, Entre os Sonhos e a Dor, Guia não
faça tempestade para casais, O livro das deusas,
Melhor que chocolate...
Urrggghhh!!! Sem comentários!
Ta aí! Acho que posso aproveitar um pequeno
trecho da mensagem enviada pela minha conhecida....
- Livre-se do desnecessário, daquilo que
já não nos serve para nada...
Xuuuaaps!
E lá se vai para a lixeira da minha
caixa de e-mails, as sugestões do Boletim
Informativoque
promete por “Mais Cultura”.
E eu fico me questionando cá com meu teclado:
- Por que aceitamos a mediocridade cultural com tanto
desinteresse? Por que a grande maioria das pessoas
temem falar abertamente sobre o próprio tédio?
Por que o tédio é um tabu?
Volto ao MSN, agora para fazer esta pergunta sobre
o tédio para um grande amigo insatisfeito
e obtenho como resposta:
- Porque ninguém quer ouvir
um bando de caras amargurados e chatos, que questionam
tudo, que pensam demais... Eles querem caras
felizes, que não reclamam, que são
simpáticos, não pensam e vão
levando a vida com a barriga... Esses são
bem vistos e aceitos por todos.
Então é isso? O mais interessante é sustentar
uma máscara de realizado? É simples
assim?... Então, por que isso não me
satisfaz?
Ah! Deixa pra lá!
Acho que o grande lance é parar de pensar
e me adequar a uma crença qualquer. Acho que
o melhor mesmo é entrar em contato com a minha
conhecida e pedir urgentemente pelo endereço
do site para poder colecionar as receitinhas de bem-estar.
Pelo menos, não vou ficar sozinho! Serei mais
um membro efetivo da confraria do Entediados Anônimos.
Xiiii! Ferrou:
- Ciclano não pode responder porque parece
estar offline.
Nelson
Jonas
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