Construindo a Auto-Estima

Neste primeiro momento quero trazer alguns elementos de reflexão para que possamos entrar em contato com os sentimentos que nutrimos em relação a nós mesmos, para que possamos perceber com mais clareza estes sentimentos. Em geral é mais fácil perceber o sentimento que nutrimos em relação ao outro, porém quando se trata do nosso ser, não temos esta clareza, mas, uma vaga sensação que poderá nos trazer satisfação ou insatisfação. Desta forma, podemos nos perguntar:

  • Minhas atitudes, comportamentos e reações diante da vida, me levam a fazer escolhas positivas?
  • Como me sinto diante das escolhas que faço?
  • Tenho muitas dúvidas diante de uma decisão a ser tomada?
  • Quando preciso colocar minhas opiniões diante de um fato, sinto-me inseguro, inadequado, Inferior? (e neste caso prefiro me omitir?)
  • Como me sinto quando me olho no espelho?
  • Como reajo diante de críticas?

Enfim, através de um confronto honesto consigo mesmo, você será capaz de responder a estas questões.

E porque eu falo sobre um confronto honesto? Porque muitas vezes você se engana, tentando justificar suas atitudes e seus sentimentos.

Portanto, quando você nutre sentimentos de insegurança, inadequação, inferioridade, medo, fraqueza, dúvida, negatividade, culpas, auto-rejeição, é porque sua auto-estima está abalada, quando não ausente.

Para que você consiga trabalhar na construção da sua auto-estima é preciso primeiramente reconhecer que ela está aí pois, sem esse reconhecimento, não há trabalho a ser realizado. Por outro lado, é importante reconhecer também os potenciais latentes que precisam ser desenvolvidos, traduzidos em recursos internos, ferramentas que podem ser usadas no desenvolvimento e crescimento do Ser.

Porém quando a estima está baixa é difícil este reconhecimento. É difícil reconhecer a inteligência, a consciência, o discernimento, as emoções, a bondade,a capacidade de cooperar, de construir, enfim... mas está tudo aí e você pode trazer à consciência este reconhecimento.

Pense nos seus melhores momentos, pense nos desafios que conseguiu vencer, pense nos momentos que enfrentou sem medo algumas dificuldades saindo-se bem, pense nas conquistas que já realizou.

Quando você traz à memória tudo o que realizou e o quanto que já caminhou, acaba reconhecendo que pode continuar caminhando e lutando por seus objetivos, sem se sentir mal porque hoje as coisas podem não estar do jeito que gostaria que estivessem.

Portanto o caminho é sempre o caminho que leva para dentro do Ser. Pode ser que aí dentro você encontre uma criança carente, ferida que precisa ser cuidada. Pois então cuide de sua criança. Converse com ela e procure detectar suas necessidades. Talvez ela precise de um pouco mais de aconchego, um pouco mais de atenção e de calor. Se perceber que é essa a questão, é esse o ponto, então passe a dar a ela esse carinho, esse aconchego e essa atenção.

Quanto tempo por dia você passa com você mesmo? Uma hora? Meia hora? 5 minutos? Ou nem se lembra que você existe? Será que chegou o momento de lembrar-se de você? Será que chegou o momento de dar a você tudo o que vem esperando que o outro dê? Ou, será que chegou o momento de dar à você também tudo o que dá ao outro?

Vejam só quantas perguntas, quantas oportunidades de reflexão sobre o que você tem feito por você mesmo, pelo seu crescimento, pelo seu bem estar, pelos seu sentimento de satisfação diante da vida.

A insatisfação vem quando você “precisa” se doar muito, esperando uma recompensa que nunca chega. Nesse caso você não se doa por amor, mas esperando pelo amor que necessita, esse mesmo amor que você não se dá. Quando você dá esperando receber, em seguida você cobra. E quando você está cobrando está sentindo todos os sentimentos que comprovam a baixa estima. Sentimentos de não ser merecedor, onde muitas vezes você até expressa literalmente:

  • Será que eu não mereço um pouco de atenção?
  • Será que eu não mereço um pouco de paz?
  • Será que eu não mereço um pouco de amor?

E você está sentindo que realmente não merece. Mas, porque esta reação? Porque tudo o que você fez, você fez esperando uma recompensa, esperando que o outro dê tudo aquilo que necessita. E estabelece uma relação de dependência para com o outro. Seja esse outro quem for: filho, mãe, pai, amigo, marido, esposa... Na relação de dependência você só pode estar feliz se o outro estiver feliz, você só pode sentir-se bem se o outro estiver bem, você se iguala ao padrão energético do outro e no mesmo padrão você não pode fazer nada para ajudar assim como não se sente apoiado. Se o outro estiver passando por uma dificuldade qualquer, ao invés de ajudar mantendo um padrão mais sutil você entra naquela sintonia e fica igualmente mal. E porque isso acontece? Acontece porque você não está com você, não está “dentro de casa”, da sua casa interna, e quando você perde o contato com você, perde também todas as suas referências e a sua referência passa a ser o outro.

É muito comum na clínica, pacientes que chegam com histórias de baixa estima projetando o estado em que se encontram no outro e ficam várias sessões só falando sobre o outro. E falam do marido, e falam do filho, e falam da esposa, e falam do chefe, como se o mundo todo impossibilitasse o seu bem estar e o seu sentimento de valor e estima por si mesmo. O mundo passa a ser um grande espelho cujo olhar só pode ver o outro.

Aos poucos o paciente começa a lançar este olhar a si mesmo e só então ele entra em terapia, só quando começa a percorrer o caminho que leva para dentro de si mesmo. Nesse caminho que ele percorre ao lado do terapeuta, inicia o processo do autoconhecimento, que implica no reconhecimento e aceitação do que se é de verdade. E na auto-aceitação enquanto um ser que possui muitas qualidades, mas que também possui limites a serem vencidos, é que se pode efetuar mudanças no sentido de responsabilizar-se mais pelos sentimentos, comportamentos, enfim... E quanto mais se responsabiliza por si mais condição tem de estar com o outro, numa atitude positiva e construtiva. E aí entra o “amar ao próximo como a si mesmo”. Você passa a amar por amar, a se doar porque é uma condição interna que te faz doar-se e não porque você precisa ter de volta aquele quinhão de amor que ofertou.

Agora você deve estar se perguntando:

“Mas, isso não é altruísmo demais?, eu ainda não estou pronto para isso”.

E a questão não é de altruísmo, mas de estado de consciência. E o amor é um estado de consciência que uma vez atingido, passa a ser você, onde você passa a viver em um estado de amor. E quando você passa a viver em um estado de amor, você compreende melhor as leis da vida e uma das leis da vida mais importantes é a lei da ação e reação.

O momento presente é sua sementeira, é a possibilidade de plantar o que você vai colher amanhã. Você está plantando sementes de amor? É o que você vai colher, tão somente por estar nesta sintonia. E nesse caso, não precisa cobrar pelo amor do outro, pois a vida se encarrega de trazer amor e que não precisa necessariamente ser através de quem você se doou, mas por um outro caminho qualquer, uma realização em qualquer área da vida, enfim, é preciso confiar no processo e nas leis da vida, sabendo que você tem ou terá tudo o que merece.

Não se apegue a pessoas ou condições como possibilidade de ser feliz. O importante é você procurar estar sempre no seu melhor, na sua melhor possibilidade de realização e o resto vem como conseqüência de sua postura diante da vida.

Portanto, voltar para casa, estar com você, descobrindo quais são suas reais necessidades, e percebendo os potenciais que você poderá desenvolver para que você possa suprir suas necessidades, cuidando-se, dando atenção a você, ficando alguns momentos do dia com você, sendo a sua melhor companhia porque é nesse movimento que você poderá estar também com o outro, e estar inteiro, disponível e aberto para doar-se, compreender, entender o processo do outro.

Já estamos bem cansados de ouvir ou de dizer: “Se eu não me amar, como poderei esperar pelo amor do outro?” Ou: “Se eu não me respeitar, como poderei esperar que o outro me respeite?” Ou: “Se eu não me valorizar, como poderei esperar que o outro me valorize?” Mas, é algo que vem do intelecto, sem sentir de fato o auto-respeito ou sem de fato se valorizar e se amar. E fica uma luta interna, um conflito entre o mental e o emocional, onde o mental diz uma coisa e o emocional sente outra.

A baixa estima começa a se desenvolver ainda na infância, quando as mensagens dos adultos sejam verbais ou comportamentais, vão se integrando em você e você passa a construir a personalidade sobre estes pilares, ou seja, sobre as experiências que viveu ou sobre as coisas que ouviu sobre você mesmo. Ou mesmo depois de adulto, quando após algumas experiências fracassadas, você passa a não confiar mais em você e em suas possibilidades, passando a buscar apôio no outro por sentir-se inseguro e achar que nunca mais será capaz de construir coisa alguma. Existe o temor pela repetição de experiências de fracasso, o temor que sua baixa estima fique exposta, além do sentimento de impotência diante da vida e de si mesmo. Você cria mágoas e ressentimentos pelo outro, pela vida e por si mesmo, vai se transformando em um ser cheio de amargura, desconfiança e insegurança, cria bloqueios que o impedem de avançar.

E para que servem as experiências de fracasso? Servem para ensinar algo sobre você mesmo, para que da outra vez você aja de uma forma diferente, para que aumente a compreensão de si mesmo e não para que você recue e não queira mais viver novas experiências.

Existe também o outro lado, ou seja, ao invés de você recuar diante da vida, torna-se um “fazedor” para ser aceito e amado. Você sai do amor incondicional que deveria nutrir por si mesmo, sai da auto-aceitação incondicional para estabelecer algumas condições sem as quais você não poderia ser aceito e amado.

E quais condições são essas? Você precisa freqüentar uma universidade, usar um carro de tal marca, ter um apartamento não sei como, freqüentar lugares que dêem a você um certo status, enfim,nada contra a ter coisas materiais já que vivemos no mundo tridimensional e precisamos da matéria, porém a questão aqui é ter para ser aceito e amado. É como se você não pudesse ser valorizado pelo que é mas pelo que possui. A conseqüência desta postura é o medo que poderá invadir você ao perceber que se um dia perder a condição que tem, ninguém mais poderá amá-lo ou aceita-lo. Você cria um padrão de perfeccionismo, entra na autocrítica destrutiva, nunca está satisfeito consigo mesmo, passando a exigir cada vez mais de você.E nesse caso principalmente você não se aceita pelo que é, mas pelo que faz, pelo que conquista, pelo que possui.

Portanto, tudo na vida é equilíbrio. Equilíbrio entre o ter e o ser, entre o ego e o espírito, entre o dar e o receber, entre as qualidades e os limites que precisam ser vencidos.

Na prática clínica transpessoal, buscamos principalmente pelos aspectos mais saudáveis da personalidade que poderão ser usados para vencer os desafios no processo de crescimento.

Um dos exercícios que gosto muito de aplicar e que vocês também poderão fazer, agora mesmo, caso queiram, consiste na elaboração de uma lista com tudo aquilo que você considera que tem de melhor. Pegue um papel e caneta e vamos trabalhar mais profundamente esta questão da auto-estima.

Reflita comigo:

  • Quais são os seus melhores recursos internos?
  • Suas melhores qualidades?
  • Procure trazer à consciência tudo o que já fez de melhor em sua vida e quais recursos internos usou para isso.

Vá enumerando todos eles.

Agora, busque por tudo o que você não gosta de ver em você. Procure por comportamentos que te desagradam, sentimentos em relação a você mesmo e ao outro. Vá trazendo para a consciência tudo o que te desagrada em você.

Encontrou as qualidades e os limites que te impedem de prosseguir de uma forma mais satisfatória na vida?

Observe qual lista ficou maior. A lista das qualidades ou a dos limites?

Em geral, na clínica, quando os pacientes chegam com uma história de baixa estima, a lista das qualidades é bem pequena, muitos não conseguem perceber nenhuma qualidade, mas em contrapartida trazem uma lista imensa de limites. Estes são os que se sentem fragilizados e acreditam que realmente não possuem nada de bom.

Outros trazem uma lista imensa de qualidades e quase nada de limites. Estes são aqueles “fazedores” dos quais falamos um pouco antes. Conquistam tanto, precisam ter tanto, para serem amados e aceitos que nem percebem seus limites, assim como não percebem que escolheram este modo de viver como uma defesa à possibilidade de não serem aceitos simplesmente pelo que são.

E a sua lista, como ficou? Nenhuma qualidade? Nesse caso procure lembrar-se das vezes que cuidou com extrema dedicação de seu filho ou dos pais quando precisaram de você, ou quando ajudou um amigo em dificuldade, ou quando ficou horas estudando porque queria passar em um determinado exame. Com certeza você já viveu muitas situações assim ou semelhantes. E agora? Já dá para acrescentar algo á sua lista de qualidades?

E você que tem uma lista imensa de qualidades e não encontrou limites ou algo que gostaria que fosse diferente em você? Será que o perfeccionismo o faz pensar que de fato já é perfeito? Sabemos que ninguém é um produto pronto e acabado e que somos seres em constante transformação e movimento.

Então reflita:

  • Está se ocupando com você mesmo?
  • Está satisfeito com seu lazer?
  • Com sua alimentação?
  • Com sua qualidade de vida?

Reflita e veja o que poderá ser trabalhado em você para equilibre sua necessidade de ter com sua necessidade de Ser.

Agora que você já está com suas 2 listas prontas, busque pelas qualidades que poderão ajudar você a vencer tudo o que está na outra lista.

  • Você pode usar sua generosidade para ser menos crítico e mais amável com você mesmo?
  • Você pode usar o discernimento que possui para reconhecer que sua auto-estima não depende do que tem mas do que é?

Traga outras questões dependendo de como ficaram suas listas. Procure comparar as listas e perceber quais recursos da lista de qualidades você poderá usar para vencer seus limites.

Assim você vai construindo sua auto-estima, vai reconhecendo o valor que possui, vai conquistando posturas e comportamentos que tragam mais satisfação, mais alegria, mais leveza diante de você mesmo, do outro e da vida. Sim, porque a construção de sua auto-estima, assim como de todo o desenvolvimento do Ser é um trabalho individual e intransferível. E este trabalho começa no momento em que você sai do controle e se entrega a você mesmo, encarando a sua verdade, parando de ficar se contando historinhas para justificar a forma como se sente. Quando você resolve encarar os fatos e se perguntar: “E agora? O que eu faço com isso?”

E quando você lança a pergunta, a vida sempre traz uma resposta porque não existe problema sem solução, não existe beco sem saída.

Continue trabalhando com suas listas, talvez você descubra mais coisas sobre você mesmo.

É preciso confiar em você, acreditar em você e em todos os seus potenciais de realização. Porém é preciso também trabalho interno, é preciso compreender que todos estamos na vida para aprender. E aprender com a experiência.

Quantas vezes você já buscou por livros de auto-ajuda? Quantos livros já devorou? No entanto, não consegue caminhar e não caminha porque adquiriu somente um conhecimento intelectual. Não incorporou o conhecimento em sua vida, não integrou o conhecimento.

Da mesma forma, quantos são formados em universidades, resolvem questões complexas no dia a dia e no entanto não conseguem administrar suas emoções, sendo sempre envolvidos por circunstâncias ou por pessoas?

Só o conhecimento não ajuda, é preciso conquistar a sabedoria e a sabedoria se conquista quando o conhecimento passa a ser experiência. É preciso trazer para a vida o conhecimento que se conquista.

É preciso transformar para crescer, mudar o que não está sendo satisfatório, trazer um jeito novo de olhar para seus velhos problemas. Muitas vezes você precisa continuar convivendo com as mesmas coisas, porém levando um novo olhar a elas. Um olhar diferente, pautado na auto-aceitação, na valorização de si mesmo e da vida, no respeito por você mesmo. É isso que muda.

Se a sua baixa-estima faz com que você não estabeleça um bom relacionamento com seu chefe, se com isso você se sente humilhado e rejeitado, de nada vai resolver mudar de emprego ou torcer para que mude o chefe, porque o problema vai se repetir, e se repetir, e se repetir até que você mude a você mesmo, até que você se respeite e se valorize.

Assuma de vez a responsabilidade por sua vida, pois você tem um projeto, um plano a ser realizado, não se perca olhando para fora, não se perca tentando agradar para ser aceito, mas procure descobrir a que veio e tenha esta certeza como um farol que o conduzirá rumo á uma vida mais plena, mais feliz e mais satisfatória.

Maria Célia D. Guilherme
Psicóloga Transpessoal, Palestrante e Coordenadora das Oficinas Terapêuticas Cuidar do Ser - e-mail: mariacellia@hotmail.com

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