Um
convite ao vôo
29/08/2002
- Eduardo Galeano* |
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Que tal começarmos a exercer o jamais
proclamado direito de sonhar?
Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar
o olhar num ponto além da infâmia
para adivinhar outro mundo possível.
Milênio vai, milênio vem, a ocasião
é propícia para que os oradores
de inflamado verbo discursem sobre os destinos
da humanidade e para que os porta-vozes da
ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento
geral, enquanto o tempo, de boca fechada,
continua sua caminhada ao longo da eternidade
e do mistério.
Verdade seja dita, não há quem
resista: numa data assim, por mais arbitrária
que seja, qualquer um sente a tentação
de perguntar-se como será o tempo que
será. E vá-se lá saber
como será. Temos uma única certeza:
no século vinte e um, se ainda estivermos
aqui, todos nós seremos gente do século
passado e, pior ainda, do milênio passado.
Embora não possamos adivinhar o tempo
que será, temos, sim, o direito de
imaginar o que queremos que seja. Em 1948
e em 1976, as Nações Unidas
proclamaram extensas listas de direitos humanos,
mas a imensa maioria da humanidade só
tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal
começarmos a exercer o jamais proclamado
direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho?
Vamos fixar o olhar num ponto além
da infâmia para adivinhar outro mundo
possível:
o ar estará livre
do veneno que não vier dos medos humanos
e das humanas paixões; nas ruas, os
automóveis serão esmagados pelos
cães; as pessoas não serão
dirigidas pelos automóveis, nem programadas
pelo computador, nem compradas pelo supermercado
e nem olhadas pelo televisor; o televisor
deixará de ser o membro mais importante
da família e será tratado como
o ferro de passar e a máquina de lavar
roupa; as pessoas trabalharão para
viver, ao invés de viver para trabalhar;
será incorporado aos códigos
penais o delito da estupidez, cometido por
aqueles que vivem para ter e para ganhar,
ao invés de viver apenas por viver,
como canta o pássaro sem saber que
canta e brinca a criança sem saber
que brinca; em nenhum país serão
presos os jovens que se negarem a prestar
o serviço militar, mas irão
para a cadeia os que desejarem prestá-lo;
os economistas não chamarão
nível de vida ao nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida à
qualidade de coisas;
os cozinheiros não acreditarão
que as lagostas gostam de ser fervidas vivas;
os historiadores não acreditarão
que os países gostam de ser invadidos;
os políticos não acreditarão
que os pobres gostam de comer promessas; ninguém
acreditará que a solenidade é
uma virtude e ninguém levará
a sério aquele que não for capaz
de deixar de ser sério; a morte e o
dinheiro perderão seus mágicos
poderes e nem por falecimento nem por fortuna
o canalha será formado em virtuoso
cavaleiro; ninguém será considerado
herói ou pascácio por fazer
o que acha justo em lugar de fazer o que mais
lhe convém; o mundo já não
estará em guerra contra os pobres,
mas contra a pobreza, e a indústria
militar não terá outro remédio
senão declarar-se em falência;
a comida não será uma mercadoria
e nem a comunicação um negócio,
porque a comida e a comunicação
são direitos humanos; ninguém
morrerá de fome, porque ninguém
morrerá de indigestão; os meninos
de rua não serão tratados como
lixo, porque não haverá meninos
de rua; os meninos ricos não serão
tratados como se fossem dinheiro, porque não
haverá meninos ricos; a educação
não será um privilégio
de quem possa pagá-la; a polícia
não será o terror de quem não
possa comprá-la; a justiça e
a liberdade, irmãs siamesas condenadas
a viver separadas, tornarão a se unir,
bem juntinhas, ombro contra ombro; uma mulher,
negra, será presidente do Brasil, e
outra mulher, negra, será presidente
dos Estados Unidos da América; e uma
mulher índia governará a Guatemala
e outra o Peru; na Argentina, as loucas da
Praça de Maio serão um exemplo
de saúde mental, porque se negaram
a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória;
a Santa Madre Igreja corrigirá os erros
das tábuas de Moisés e o sexto
mandamento ordenará que se festeje
o corpo; a Igreja também ditará
outro mandamento, do qual Deus se esqueceu:
"Amarás a natureza, da qual fazes
parte". Serão reflorestados os
desertos do mundo e os desertos da alma; os
desesperados serão esperados e os perdidos
serão encontrados, porque eles são
os que se desesperam de tanto esperar e os
que se perderam de tanto procurar; seremos
compatriotas e contemporâneos de todos
os que tenham aspiração de justiça
e aspiração de beleza, tenham
nascido onde tenham nascido e tenham vivido
quando tenham vivido, sem que importem nem
um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo;
a perfeição continuará
sendo um aborrecido privilégio dos
deuses; mas neste mundo confuso e fastidioso,
cada noite será vivida como se fosse
a última e cada dia como se fosse o
primeiro.
* Eduardo Galeano é jornalista e escritor,
entre outros, de O Século do Vento,
As Caras e as Máscaras, Os Nascimentos,
O Futebol ao sol e à sombra, O Livro
dos Abraços, Dias e noites de amor
e de guerra e As Veias abertas da América
Latina.
Fonte: http://www.forumsocialmundial.org.br/ |