Muitos são os nossos problemas, não é verdade?
— problemas sociais, econômicos e, mais especialmente,
talvez, problemas religiosos; e atualmente todos nos aplicamos
a eles de diferentes maneiras. Consideramo-los, apenas, parcialmente,
como cristãos, como hinduístas, comunistas, ou seja,
o que for, ou os separamos como problemas orientais ou ocidentais.
E, por considerarmos os nossos problemas parcialmente, com essas
diferentes formas de condicionamento, parece-me que não
os estamos compreendendo. Creio que a maneira de considerar o
problema é muito mais significativa do que o próprio
problema e que, se pudéssemos aplicar-nos às nossas
numerosas dificuldades sem nenhuma espécie de condicionamento
ou preconceito, chegaríamos, provavelmente, a compreendê-los
a fundo.
Assim sendo, permito-me salientar quanto
é importante descobrirmos por nós mesmos, cada um
de nós, a maneira como estamos tentando resolver os numerosos
problemas humanos que nos assediam; porque, se a esse respeito
não estivermos bem esclarecidos, então, penso eu,
por mais que nos empenhemos para compreender os complexos problemas
da vida e toda a confusão e contradição em
que nos vemos envolvidos, nunca o conseguiremos. Por isso mesmo,
bem valeria a pena, parece-me, examinarmos as crenças,
os preconceitos, os dogmas e as idéias que, de diferentes
maneiras, estão agora corrompendo a mente e impedindo-a
de ser livre para descobrir o que é a verdade, a realidade,
Deus, ou como quiserdes chamá-lo. E devo afiançar-vos
que se necessita de um interesse extraordinário para tal
fazer — para descobrirmos, no decorrer desta palestra, os
numerosos obstáculos à compreensão e percebermos
como a mente — o único instrumento de descobrimento
com que contamos — está embotada em virtude de tantos
pensamentos, emoções, temores, hábitos e
condicionamentos que compõem a sua estrutura.
Para descobrirmos tudo isso, considero
essencial não escutar o que se está dizendo como
se se tratasse de mera conferência ou discurso — pois
não é nada disso — porém, antes, acompanhar,
cada um, enquanto vou falando, as reações de sua
própria mente. Pois o importante, naturalmente, é
compreendermos o verdadeiro funcionamento de nossa mente. O mero
concordar ou discordar não cria a compreensão; cria
só confusão e contradição, não
é verdade? Mas se, ao contrário, pudermos acompanhar,
paciente e inteligentemente, o que se está dizendo, sem
julgar, sem comparar, sem concordar ou discordar, de modo que
vejamos a mente funcionar, então, talvez, descobriremos
por nós mesmos a maneira de considerarmos os nossos inúmeros
problemas.
Nosso pensar se tornou dependente de
nosso ambiente, porque estamos atados por inúmeros preconceitos
— preconceitos nacionalistas, ideológicos, religiosos,
etc. Estamos sempre a buscar segurança, a buscar algum
meio de confiarmos em nós mesmos, tanto interior como exteriormente,
não é exato? E quer-me parecer que enquanto estivermos
empenhados nessa busca de segurança, de confiança
em nós mesmos, de certeza, não estaremos livres
para examinar os nossos problemas e descobrir se é possível
dar-lhes solução definitiva. Por certo, só
quando compreendemos a nós mesmos, quando observamos o
nosso próprio processo mental — o que, afinal, é
auto- conhecimento — só então existe a possibilidade
de descobrirmos por nós mesmos o que é verdadeiro,
o que é a realidade. Para isso, não há necessidade
de instrutor, de guia, de escrituras, de nenhuma autoridade, enfim.
O descobrir e compreender os movimentos de nosso pensar e de nosso
sentir dá-nos a possibilidade de resolver nossos próprios
problemas, que são também problemas sociais.
Mas é muito difícil pensarmos
sem ser de determinada maneira, sem ser de acordo com determinado
conjunto de valores, dogmas, crenças ou teorias. Tanto
ansiamos por uma solução aos nossos problemas, que
nunca nos detemos para considerar se o instrumento de que nos
estamos servindo — a mente, minha e vossa — está
verdadeiramente livre para investigar. A mente repleta de conhecimentos,
crenças, teorias, não está, por certo, livre
para investigar o verdadeiro. Mas, se pudermos compreender e dissolver
o condicionamento, os preconceitos e dogmas que nos estão
enevoando a mente, talvez então esta se torne livre para
descobrir, pois, assim, a própria verdade atuará
sobre o problema, em vez de ficar a mente lutando por uma solução
por meio de seu próprio condicionamento — que não
pode levá-la a parte alguma.
Eis porque acho tão importante
saber escutar. Mui poucos de nós somos capazes de escutar
verdadeiramente; mui poucos dentre nós ouvimos ou vemos
as coisas com verdadeira clareza, porque tudo o que observamos
ou ouvimos é imediatamente interpretado, traduzido pela
mente, de acordo com nossas próprias idéias e idiossincrasias.
Pensamos estar compreendendo, mas não estamos, por certo.
De tal maneira estamos sendo distraídos por nossas opiniões
e conhecimentos, pelo aprovar ou reprovar, que nunca vemos o problema
como ele de fato é. Mas, se pudermos desembaraçar-nos
de nossos peculiares pontos-de-vista e, escutando,
seguindo o funcionamento da mente, perceber o fato tal qual é,
acho que veremos então manifestar-se um processo completamente
diferente, o qual nos habilitará a considerar os nossos
problemas com plena liberdade e clareza.
Por essa razão, creio necessário
escutar totalmente. Atualmente, escutamos apenas com uma parte
de nossa mente, sendo-nos dificílimo dispensar atenção
completa não só ao que se está dizendo agora,
mas a tudo que se nos depara na vida. Temos problemas inúmeros
— os problemas religiosos, sociais, econômicos, e
mais os problemas da vida, da subsistência, da morte; e
quer-me parecer que o próprio processo de nosso pensar
está aumentando esses problemas. O modo como funciona o
nosso pensar — nossa mente é condicionado, não?
Condicionado pela religião em que fomos criados, por nossa
nacionalidade, nossos pontos-de-vista políticos, nossas
circunstâncias econômicas, e inumeráveis outras
influências. Tudo isso concorreu para moldar a nossa mente
de uma determinada maneira; e, se desejarmos libertar-nos dessa
pressão, dessa influência, então, decerto,
é inútil tratarmos meramente de abandonar uma dada
forma de autoridade para procurarmos uma forma nova, um método
novo, uma nova crença. É isso, no entanto, o que
sempre estamos fazendo. Por certo, só a mente que está
livre, por inteiro, de toda e qualquer autoridade, consciente
ou inconsciente, é capaz de descobrir se existe uma realidade
que transcende as meras concepções mentais. A mente
livra é aquela que se libertou de toda crença, de
todos os padrões de pensamento, conscientes ou inconscientes.
Na atualidade, todo o nosso pensar resulta de nosso especial condicionamento,
nossas experiências, lembranças, temores, esperanças,
acumulados através do tempo. Em tais condições,
é bem óbvio que a mente não está livre.
Só existe liberdade quando o processo do pensamento, no
seu todo, foi compreendido e transcendido; e só então
se torna possível o surgir de uma mente nova, regenerada.
Assim sendo, pode a mente libertar-se
de seu próprio condicionamento, para considerar de maneira
nova os seus problemas? Pode ser livre a mente? — não
como cristã, hinduísta, sueca, comunista, ou seja,
o que for, nem puramente no sentido de abandonar um dado ideal,
crença ou hábito, porém livre para descobrir
o que significa transcender todas as influências e contradições,
mentais e sociais.
Como está reagindo agora a mente?
Reagir, concordando ou discordando, é de todo vão,
uma vez que tal reação é produzida por nosso
próprio fundo, nosso acervo de saber e
de crença. Mas, “experimentar” o que se está
passando em nós mesmos, isso parece-me verdadeiramente
proveitoso. Ora, pode-se investigar inteligentemente, pacientemente,
para descobrir se há alguma possibilidade de libertarmos
a nossa mente de todo parcialismo, toda influência, habilitando-a,
assim, a transcender suas próprias atividades? Do contrário,
nossa vida será sempre muito superficial, vazia —
e talvez quase todos estejamos nesse caso. Temos um enorme acervo
de informações, conhecimentos, inumeráveis
crenças, credos, dogmas, mas na realidade somos muito superficiais
e infelizes. Embora, em certos países, externamente, se
haja estabelecido a segurança econômica, contudo,
interiormente, psicologicamente, o indivíduo permanece
incerto, inseguro. E a segurança exterior, física,
que todos os entes humanos, sem distinção de nacionalidade,
desejam e necessitam, torna-se impossível para todos nós,
em virtude de nossa ânsia de segurança interior,
psicológica. A própria ânsia de segurança
interior impede a compreensão. Só quando a mente
já não é ambiciosa, já não
busca nem exige nada, está livre para
descobrir o que é verdadeiro, o que é Deus.
É por esta razão que tanto
importa compreendermos a nós mesmos — não
analiticamente, ou seja, uma parte da mente analisando outra parte,
pois daí só pode resultar mais confusão —
porém verdadeiramente cônscios, sem julgar nem condenar,
da maneira como agimos, das palavras que empregamos, de todas
as nossas variadas emoções, nossos recônditos
pensamentos. Se formos capazes de nos olharmos sem paixão,
de modo que as emoções ocultas não sejam
recalcadas, porém trazidas à luz e compreendidas,
nossa mente se tornará então deveras serena; e só
aí encontraremos a possibilidade de viver a pleno a vida.
São essas as coisas que penso
devemos sondar juntos. Podemos ajudar-nos uns aos outros a achar
a porta da Realidade, mas cada um tem de abrir a si mesmo essa
porta; tal é, a meu ver, a única ação
positiva.
Assim sendo, urge operar-se, em cada
um de nós, uma revolução interior, uma revolução
religiosa; porque só esta revolução religiosa
poderá mudar a direção de nosso pensar. E
para que possa produzir-se esta revolução, é
necessária a silenciosa observação das reações
da mente, sem julgamento, condenação ou comparação.
A mente é agora estéril, não criadora, no
legitimo sentido da palavra, não é exato? Ela é
uma coisa artificial, constituída das acumulações
da memória. Enquanto existir inveja, ambição,
busca interesseira, não pode haver o esta do criador. Parece-me,
por conseguinte, que o mais que podemos fazer é compreendermos
a nós mesmos, as operações de nossa mente;
e esse processo de compreensão representa uma enorme tarefa.
Não é coisa que se faz esporadicamente, que se deixa
para mais tarde, para amanhã, mas que deve ser feita todos
os dias, a cada momento, continuamente. Compreender a si mesmo
é estar cônscio, espontaneamente, naturalmente, dos
movimentos do pensar. Começa-se, assim, a perceber todos
os ocultos motivos e intenções que nutrem os nossos
pensamentos, e resulta, daí, a libertação
da mente dos processos que a tolhem e limitam. Ela está
então tranqüila; nessa tranqüilidade pode manifestar-se,
de modo espontâneo, algo que não é produto
da mente.
Há algumas perguntas para responder
e acho que seria bem proveitoso apurarmos o que se entende por
“fazer uma pergunta” e o que se entende por “obter
uma resposta”. Afinal de contas, existem respostas para
as momentosas e fundamentais questões do amor, da vida,
da morte, da existência futura? Só fazemos perguntas
quando nos vemos confusos, não é verdade? Por conseguinte,
as respostas, também, terão de ser confusas. Assim
sendo, muito importa não ficarmos dependendo das respostas
de outros, e examinarmos o problema diretamente, por nós
mesmos. A dificuldade, pois, não está em fazer a
pergunta ou obter a resposta, mas, sim, em ver o problema claramente.
E quando há clareza, já não há necessidade
de perguntas nem de respostas.
Krishnamurti - 1ª
Conferência em Estocolmo – Do livro: A VERDADE LIBERTADORA
– ICK
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