NATAL

Nelson Jonas

Acordei meio de bode.

Céu nublado. Agitação no ar. Chegou a véspera de Natal.

Enquanto tomava meu café matinal, analisava a matéria do programa “Mais Você”: nada de especial, somente, mais uma matéria voltada para a elite - mais uma matéria para alimentar os sonhos impossíveis da esmagadora realidade brasileira. Eta! Brasil dos sonhos...

A caminho da loja, pude avistar uma cena contrastante com a matéria do programa “Mais Você”: o sorriso desdentado da população de chinelas havaianas, seios caídos, pernas grossas, face enrugadas, roupas carcomidas pelo tempo, carregando em suas costas, a cesta de natal do Centro Espírita Casa do Caminho. O alvoroço na rua era bem grande. Uns felizes, com o sonho da cesta natalina garantida, e outros, corriam ansiosos pelas calçadas na expectativa de conseguirem garantir a aquisição de tal cesta. Não estavam preocupados em contratar a decoradora de sorriso televisivo para inovarem suas cozinhas com apenas “Três Mil e Quinhentos Reais”. Queriam apenas garantir uma cesta básica de vinte e nove reais, distribuída somente no último mês do ano. Vez por outra, algumas das famílias que não conseguiam retirar suas cesta de natal, por não terem conseguido sua senha, passavam resmungando e esbravejando contra os assistentes do tal centro espírita, que meio desnorteados, tentavam explicar do porque da necessidade das senhas para se obter a cesta.

Esse contraste social me fez pensar sobre o espírito do Natal. Fiquei me questionando quanto a transformação que a idéia psicológica do Natal acarreta no ser humano. Por que isso não ocorre nos outros “dias comuns”? (se é que existe dia comum e dia especial). Por que não existe essa preocupação com a distribuição alimentícia (entre outras mais) no transcorrer do ano? Por que? Na tentativa de encontrar respostas, fui a um café na padaria do bairro, uma vez que lá, encontramos grandes filósofos, pensadores e pescadores. Foi quando bati os olhos na Revista Veja, anunciando a retrospectiva do ano... Aí foi difícil de agüentar! Numa revista de 218 páginas, 93 delas eram de propagandas! Quase metade da revista”. Fiquei me questionando se a retrospectiva era quanto aos anunciantes do ano. E pra variar, as noticias e fotos eram as mais chocantes possíveis! Fiquei me perguntando por que é tão difícil uma retrospectiva do belo? Será que fomos só aquilo?

Comecei a notar que a frase corriqueira e automática, quase sempre destituída de um real sentimento de “bom dia” agora era incrementada pela expressão: “Feliz Natal para você e sua família!”. O sorriso fica mais estampado por bem mais tempo. O telefone não para de tocar: são os primos e as tias com os quais só mantemos contato nesta época, ou em algum casamento (que tenha festa) ou então em velório, com a célebre pergunta: quem vai ser o próximo? E aí a mesma pergunta: por que isto ocorre somente neste período?

Ainda não tenho respostas para estas perguntas; quem sabe as mesmas cheguem à mente antes das borbulhas do guaraná champanhe!

Trim, trim.... Agora lhe peço desculpas, mas tenho que parar para atender ao telefone.

É minha tia de Lisboa e a ligação tem que ser breve!

Desejo a você uma feliz introspecção sobre o Natal!

Bons momentos,

Nelson Jonas


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