Céu nublado. Agitação no ar. Chegou a véspera
de Natal.
Enquanto tomava meu café matinal, analisava a matéria
do programa “Mais Você”: nada de especial, somente,
mais uma matéria voltada para a elite - mais uma matéria
para alimentar os sonhos impossíveis da esmagadora realidade
brasileira. Eta! Brasil dos sonhos...
A caminho da loja, pude avistar uma cena contrastante com a matéria
do programa “Mais Você”: o sorriso desdentado
da população de chinelas havaianas, seios caídos,
pernas grossas, face enrugadas, roupas carcomidas pelo tempo, carregando
em suas costas, a cesta de natal do Centro Espírita Casa
do Caminho. O alvoroço na rua era bem grande. Uns felizes,
com o sonho da cesta natalina garantida, e outros, corriam ansiosos
pelas calçadas na expectativa de conseguirem garantir a aquisição
de tal cesta. Não estavam preocupados em contratar a decoradora
de sorriso televisivo para inovarem suas cozinhas com apenas “Três
Mil e Quinhentos Reais”. Queriam apenas garantir uma cesta
básica de vinte e nove reais, distribuída somente
no último mês do ano. Vez por outra, algumas das famílias
que não conseguiam retirar suas cesta de natal, por não
terem conseguido sua senha, passavam resmungando e esbravejando
contra os assistentes do tal centro espírita, que meio desnorteados,
tentavam explicar do porque da necessidade das senhas para se obter
a cesta.
Esse contraste social me fez pensar sobre o espírito do
Natal. Fiquei me questionando quanto a transformação
que a idéia psicológica do Natal acarreta no ser humano.
Por que isso não ocorre nos outros “dias comuns”?
(se é que existe dia comum e dia especial). Por que não
existe essa preocupação com a distribuição
alimentícia (entre outras mais) no transcorrer do ano? Por
que? Na tentativa de encontrar respostas, fui a um café na
padaria do bairro, uma vez que lá, encontramos grandes filósofos,
pensadores e pescadores. Foi quando bati os olhos na Revista Veja,
anunciando a retrospectiva do ano... Aí foi difícil
de agüentar! Numa revista de 218 páginas, 93 delas eram
de propagandas! Quase metade da revista”. Fiquei me questionando
se a retrospectiva era quanto aos anunciantes do ano. E pra variar,
as noticias e fotos eram as mais chocantes possíveis! Fiquei
me perguntando por que é tão difícil uma retrospectiva
do belo? Será que fomos só aquilo?
Comecei a notar que a frase corriqueira e automática, quase
sempre destituída de um real sentimento de “bom dia”
agora era incrementada pela expressão: “Feliz Natal
para você e sua família!”. O sorriso fica mais
estampado por bem mais tempo. O telefone não para de tocar:
são os primos e as tias com os quais só mantemos contato
nesta época, ou em algum casamento (que tenha festa) ou então
em velório, com a célebre pergunta: quem vai ser o
próximo? E aí a mesma pergunta: por que isto ocorre
somente neste período?
Ainda não tenho respostas para estas perguntas; quem sabe
as mesmas cheguem à mente antes das borbulhas do guaraná
champanhe!
Trim, trim.... Agora lhe peço desculpas, mas tenho que parar
para atender ao telefone.
É minha tia de Lisboa e a ligação tem que
ser breve!
Desejo a você uma feliz introspecção sobre
o Natal!