DEDALO – MINOS – TESEU

Dédalo, em grego, significa engenhoso, hábil, criador, o que já diz muito desse personagem cuja origem não é muito clara. Sabe-se que ele conviveu, durante algum tempo com um sobrinho chamado Talo e sabe-se, também, que teve um filho chamado Ícaro. E quem não conhece a história de Dédalo e Ícaro, das asas de pena e cera e da morte de Ícaro porque chegara muito perto do sol? Este filho, Dédalo o tivera com uma escrava cujo nome era Náucrate que, em grego significa “poder do mar”.

Dédalo era escultor, engenheiro, artesão. Sua oficina ficava em Atenas. Vivia para criar obras que servissem para melhorar o trabalho dos cidadãos de seu tempo. Dedicava-se a sempre descobrir novos materiais, a fazer experiências inovadoras. Seu nome é associado, entre outras coisas, à invenção do mastro, da vela, do machado do carpinteiro e também ao emprego do mercúrio em peças de argila. Ele dizia que esse metal o ajudava a dar vida às suas peças.

Em sua oficina, Dédalo trabalhava com o sobrinho Talo com quem dividia as tarefas e a alegria de criar e explorar novas descobertas. Mas, certo dia, ao voltar para casa, encontrou Talo exultante: acabara de descobrir um engenhoso meio de girar a peça de argila que estava modelando. Era um torno de oleiro - conta-se que o primeiro torno de oleiro que existiu no mundo! Dédalo sentiu uma pontada no coração – estaria o sobrinho suplantando-o? Depois desse dia, Dédalo não foi mais o mesmo, mas nada disse ao rapaz.

Passado algum tempo, Talo voltou de um passeio por um bosque, mais exultante ainda. Ao ver os dentes enfileirados de uma serpente, pensou em criar algo semelhante, inventando, assim, o serrote. De novo, Dédalo sentiu a pontada e agora ele já não conseguia entregar-se ao seu trabalho de forma livre e despojada. Tudo se tornou definitivamente impossível quando Talo, pulando e rindo como uma criança travessa, mostrou-lhe seu último invento – o compasso.

Corroído pela inveja, Dédalo vê toda a vitalidade criadora apagar-se de sua alma. Para ele não há outra saída a não ser eliminar aquele que ofuscava seu brilho, decidindo, assim, matar Talo. Um dia pela manhã, convida o sobrinho para ir até o Templo da deusa Atena. Ao chegar lá no alto, empurra o rapaz. Num misto de desespero e arrependimento, corre para ainda tentar salvá-lo, mas já era tarde. Talo, sem vida, ainda trazia um leve sorriso em seus lábios. Dizem que a grande deusa Atena apiedou-se do jovem, transformando-o numa perdiz.

Dédalo, a partir daí, tenta esconder o crime, mas agora, a culpa, o remorso e a mentira o transformam em mera sombra do que fora. Levado para o Aerópago, o tribunal de Atenas, é condenado e preso. Com sua engenhosidade, consegue fugir da prisão e inicia uma vida errante, permanecendo ora aqui, ora ali. Seu antigo impulso criador é substituído por trabalhos projetados com fins políticos, determinados e limitados, atendendo aos interesses dos reis e senhores a quem passara a servir.

Quando esteve a serviço de Minos, rei de Creta, Dédalo foi obrigado a construir o Labirinto de Cnossos para conter a fúria do Minotauro. E é nesse labirinto que Dédalo e seu filho Ícaro serão atirados como prisioneiros.

É justamente para escapar, para novamente fugir, que Dédalo engendra os dois pares de asa com penas, cera e fios. Ícaro o ajuda alegremente, sem suspeitar que seu fim estava próximo. Os dois amarram as asas em suas costas e Dédalo explica ao filho que não poderia voar nem muito alto para que o sol não derretesse a cera nem muito baixo para que as asas não se tornassem pesadas demais e assim o derrubassem. Ícaro, no entanto, maravilhou-se com a experiência e com tudo o que via. Esqueceu-se das recomendações do pai, fez tantas acrobacias que, em dado momento, acabou subindo mais do que podia. A cera de suas asas derreteu e ele caiu, irremediavelmente, no mar não muito longe da costa. Quando Dédalo percebeu o que estava acontecendo, nada mais podia fazer.

A história de Dédalo perde-se no tempo.

O Labirinto de Cnossos

Labirinto é uma palavra sempre associada a algo intrincado, uma construção feita de tal forma que qualquer um se perde em seu interior. Se achar o centro é difícil, a saída, então, muito mais. De todos os labirintos, o mais conhecido é o grego, em cujo interior havia o Minotauro. No entanto, em todas as culturas, de alguma forma, sempre aparece um labirinto. Algumas cidades, como Tróia e Jericó, tiveram como plano de fundação um labirinto, que também aparece em ranhuras em pedras em Tintagel, na Irlanda e como caminho cúltico no portal de Glastonbury, na Grã-Bretanha. Há também praças em forma de labirinto, nas quais, em muitas localidades, dançava-se em determinadas cerimônias festivas. Fala-se, também, de um maravilhoso labirinto egípcio.

O labirinto grego, no entanto, localizava-se na ilha de Creta, na cidade de Cnossos. Conta-se que poderia se tratar do próprio palácio do rei Minos, construído de forma tão intrincada que qualquer espião se perderia lá dentro. Ou seria uma prisão que, segundo uns foi construída por Dédalo antes mesmo que o Minotauro fosse engendrado ou construída por ele para que fosse contida a fúria do monstro. Mas haveria também um outro labirinto, esse em uma praça aberta.

Na verdade, se olharmos para o próprio significado da palavra labirinto, poderemos começar a tocar o profundo sentido que essa forma esconde, independente de como ou onde ela possa ter sido construída. Labrys – machado duplo, antiga insígnia da divindade máxima para civilizações anteriores à própria civilização cretense. Inthos – lugar. Ou seja, labirinto – lugar de atuação da divindade máxima. Foram os cretenses que associaram a esse lugar a imagem de uma figura monstruosa, meio homem meio animal, com a qual se confrontava quem ali entrasse.

O rei Minos que, segundo alguns relatos era um soberano cruel e segundo outros, um soberano sábio, ganhou de Poseidon, o deus do mar, um belíssimo touro branco que deveria ser sacrificado em honra desse deus. Minos, no entanto, considerou o animal belo demais para o sacrifício e o escondeu para si.

A vingança de Poseidon recaiu sobre a esposa de Minos, a rainha Pasífae, fazendo com que ela se apaixonasse pelo animal. Em seu desvario, Pasífae fez com que Dédalo construísse para ela uma vaca de madeira em cujo interior ela penetrou para que com ela o touro acasalasse. Dessa união nasceu um filho com corpo de homem e cabeça de touro.

Segundo alguns, Dédalo já havia construído o labirinto com um fio cheio de nós com o qual os deuses o haviam presenteado. Segundo outros, ele o construiu nesse momento, pois era impossível conter a fúria do Minotauro. O fato é que Dédalo foi encarregado de conduzir o monstro até o interior do labirinto. Para não se perder e achar a saída, ele deixou pedras no caminho. Mas, conta-se que o rei enfureceu-se com ele também e o fez aprisionar no labirinto junto com o filho Ícaro. Os dois escaparam voando com as asas que fabricaram.

As muralhas possuíam frestas escondidas através das quais eram colocados alimentos para o Minotauro, mas a fera os recusava, exigindo carne humana. O rei Minos, então, exigiu que o rei de Atenas, Egeu, com quem estava em guerra, passasse a pagar um tributo, enviando todo ano sete rapazes e sete donzelas que eram jogados no labirinto. Como ninguém conseguia sair de lá, eram todos devorados pelo monstro real.

Mas, chegou o tempo em que Teseu, filho do rei Egeu, atingiu a idade em que os atenienses eram enviados para Creta, em meio a muita dor e desespero. Determinado, Teseu jurou matar o monstro e liberar Atenas e seu povo de tão humilhante sacrifício. Conta-se, no entanto, que o verdadeiro pai de Teseu era o próprio Poseidon. Assim, a Grande Potência do mar teria engendrado tanto o touro quanto quem o destrói.

Teseu contou com a ajuda de Ariadne, filha do rei Minos, que por ele se apaixonou, a ponto de trair o pai. A princesa deu ao amado o fio que o ajudou a entrar no Labirinto, matar o Minotauro e sair ileso com os seus compatriotas. O gesto de Ariadne, no entanto, não a ajudou a permanecer ao lado de Teseu, como ela sonhara, pois ele a abandonou, pouco depois, na ilha de Naxos. Legou ao mundo, no entanto, a significativa expressão – o fio de Ariadne

Voltando ao Labirinto e às suas possibilidades, examinemos o que os relatos nos contam sobre sua forma em praça pública. Este era um desenho feito no chão, como um mosaico, sobre o qual se dançava, nas festas primaveris, em honra do Deus Sol, destronado durante o inverno e de novo renascendo, renovado, na primavera. Tratava-se, portanto, de uma antiga celebração vinculada aos ritmos da natureza, neste ininterrupto ciclo de vida-morte-vida.

Considerada esta possibilidade, o rei Minos seria o representante do Sol e a rainha Pasífae, a Lua. Em tempos mais antigos ainda, nessas celebrações as mulheres usavam máscaras de boi, sendo que este animal seja como boi, touro ou vaca é, milenarmente, associado tanto ao sol, quanto á terra e à fecundidade.

Teria sido este Labirinto que inspirou o Deus-Ferreiro Hefaísto a forjar o escudo de Aquiles o qual foi assim descrito por Homero, em sua Ilíada:

“Ademais, o artista glorioso criou sobre ele uma ciranda
Parecida com aquela que outrora em Knossos, a ampla fortaleza,
Dédalo havia elaborado para a cacheada donzela Ariadne.
Lá, jovens florescentes e moças ricamente cingidas
Dançavam a ciranda e seguravam-se pelas mãos.
Vaporosos véus usavam as moças e camisas o jovens,
Lindamente vestidos e suavemente resplandecentes de óleos brilhantes.
Delicadas coroas usavam elas, dos outros pendiam
Punhais dourados presos a tiras prateadas.
Circulando, logo corriam levemente em volta,
Com passos bem delimitados, assim como um oleiro que, sentado,
Verifica com mãos examinadoras, a velocidade com que gira o disco adequado.
Em seguida também dançavam em fileiras que se aproximavam.
O povo, densamente reunido, estava em volta da encantadora dança,
Divertindo-se alegremente, e entre a massa um cantor divino
Tocava as cordas e cantava, enquanto que dois saltimbancos pulavam
Dando piruetas, tão logo ele começava a cantar, no meio.
Finalmente ele criou o poder do fluxo do Oceano
Ao redor da borda do escudo solidamente formado”.

Obs.: clique aqui para ler também O IMPULSO CRIADOR À LUZ DO MITO DE DÉDALO E O LABIRITO DE CRETA

 

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