Dédalo
era escultor, engenheiro, artesão. Sua oficina
ficava em Atenas. Vivia para criar obras que servissem
para melhorar o trabalho dos cidadãos de seu tempo.
Dedicava-se a sempre descobrir novos materiais, a fazer
experiências inovadoras. Seu nome é associado,
entre outras coisas, à invenção do
mastro, da vela, do machado do carpinteiro e também
ao emprego do mercúrio em peças de argila.
Ele dizia que esse metal o ajudava a dar vida às
suas peças.
Em sua oficina, Dédalo trabalhava
com o sobrinho Talo com quem dividia as tarefas e a alegria
de criar e explorar novas descobertas. Mas, certo dia,
ao voltar para casa, encontrou Talo exultante: acabara
de descobrir um engenhoso meio de girar a peça
de argila que estava modelando. Era um torno de oleiro
- conta-se que o primeiro torno de oleiro que existiu
no mundo! Dédalo sentiu uma pontada no coração
– estaria o sobrinho suplantando-o? Depois desse
dia, Dédalo não foi mais o mesmo, mas nada
disse ao rapaz.
Passado algum tempo, Talo voltou de
um passeio por um bosque, mais exultante ainda. Ao ver
os dentes enfileirados de uma serpente, pensou em criar
algo semelhante, inventando, assim, o serrote. De novo,
Dédalo sentiu a pontada e agora ele já não
conseguia entregar-se ao seu trabalho de forma livre e
despojada. Tudo se tornou definitivamente impossível
quando Talo, pulando e rindo como uma criança travessa,
mostrou-lhe seu último invento – o compasso.
Corroído pela inveja, Dédalo
vê toda a vitalidade criadora apagar-se de sua alma.
Para ele não há outra saída a não
ser eliminar aquele que ofuscava seu brilho, decidindo,
assim, matar Talo. Um dia pela manhã, convida o
sobrinho para ir até o Templo da deusa Atena. Ao
chegar lá no alto, empurra o rapaz. Num misto de
desespero e arrependimento, corre para ainda tentar salvá-lo,
mas já era tarde. Talo, sem vida, ainda trazia
um leve sorriso em seus lábios. Dizem que a grande
deusa Atena apiedou-se do jovem, transformando-o numa
perdiz.
Dédalo, a partir daí,
tenta esconder o crime, mas agora, a culpa, o remorso
e a mentira o transformam em mera sombra do que fora.
Levado para o Aerópago, o tribunal de Atenas, é
condenado e preso. Com sua engenhosidade, consegue fugir
da prisão e inicia uma vida errante, permanecendo
ora aqui, ora ali. Seu antigo impulso criador é
substituído por trabalhos projetados com fins políticos,
determinados e limitados, atendendo aos interesses dos
reis e senhores a quem passara a servir.
Quando esteve a serviço de
Minos, rei de Creta, Dédalo foi obrigado a construir
o Labirinto de Cnossos para conter a fúria do Minotauro.
E é nesse labirinto que Dédalo e seu filho
Ícaro serão atirados como prisioneiros.
É justamente para escapar,
para novamente fugir, que Dédalo engendra os dois
pares de asa com penas, cera e fios. Ícaro o ajuda
alegremente, sem suspeitar que seu fim estava próximo.
Os dois amarram as asas em suas costas e Dédalo
explica ao filho que não poderia voar nem muito
alto para que o sol não derretesse a cera nem muito
baixo para que as asas não se tornassem pesadas
demais e assim o derrubassem. Ícaro, no entanto,
maravilhou-se com a experiência e com tudo o que
via. Esqueceu-se das recomendações do pai,
fez tantas acrobacias que, em dado momento, acabou subindo
mais do que podia. A cera de suas asas derreteu e ele
caiu, irremediavelmente, no mar não muito longe
da costa. Quando Dédalo percebeu o que estava acontecendo,
nada mais podia fazer.
A história de Dédalo
perde-se no tempo.
O Labirinto de Cnossos
Labirinto é uma palavra sempre
associada a algo intrincado, uma construção
feita de tal forma que qualquer um se perde em seu interior.
Se achar o centro é difícil, a saída,
então, muito mais. De todos os labirintos, o mais
conhecido é o grego, em cujo interior havia o Minotauro.
No entanto, em todas as culturas, de alguma forma, sempre
aparece um labirinto. Algumas cidades, como Tróia
e Jericó, tiveram como plano de fundação
um labirinto, que também aparece em ranhuras em
pedras em Tintagel, na Irlanda e como caminho cúltico
no portal de Glastonbury, na Grã-Bretanha. Há
também praças em forma de labirinto, nas
quais, em muitas localidades, dançava-se em determinadas
cerimônias festivas. Fala-se, também, de
um maravilhoso labirinto egípcio.
O labirinto grego, no entanto, localizava-se
na ilha de Creta, na cidade de Cnossos. Conta-se que poderia
se tratar do próprio palácio do rei Minos,
construído de forma tão intrincada que qualquer
espião se perderia lá dentro. Ou seria uma
prisão que, segundo uns foi construída por
Dédalo antes mesmo que o Minotauro fosse engendrado
ou construída por ele para que fosse contida a
fúria do monstro. Mas haveria também um
outro labirinto, esse em uma praça aberta.
Na verdade, se olharmos para o próprio
significado da palavra labirinto, poderemos começar
a tocar o profundo sentido que essa forma esconde, independente
de como ou onde ela possa ter sido construída.
Labrys – machado duplo, antiga
insígnia da divindade máxima para civilizações
anteriores à própria civilização
cretense. Inthos – lugar. Ou seja,
labirinto – lugar de atuação
da divindade máxima. Foram os cretenses que associaram
a esse lugar a imagem de uma figura monstruosa, meio homem
meio animal, com a qual se confrontava quem ali entrasse.
O rei Minos que, segundo alguns relatos
era um soberano cruel e segundo outros, um soberano sábio,
ganhou de Poseidon, o deus do mar, um belíssimo
touro branco que deveria ser sacrificado em honra desse
deus. Minos, no entanto, considerou o animal belo demais
para o sacrifício e o escondeu para si.
A vingança de Poseidon recaiu
sobre a esposa de Minos, a rainha Pasífae, fazendo
com que ela se apaixonasse pelo animal. Em seu desvario,
Pasífae fez com que Dédalo construísse
para ela uma vaca de madeira em cujo interior ela penetrou
para que com ela o touro acasalasse. Dessa união
nasceu um filho com corpo de homem e cabeça de
touro.
Segundo alguns, Dédalo já
havia construído o labirinto com um fio cheio de
nós com o qual os deuses o haviam presenteado.
Segundo outros, ele o construiu nesse momento, pois era
impossível conter a fúria do Minotauro.
O fato é que Dédalo foi encarregado de conduzir
o monstro até o interior do labirinto. Para não
se perder e achar a saída, ele deixou pedras no
caminho. Mas, conta-se que o rei enfureceu-se com ele
também e o fez aprisionar no labirinto junto com
o filho Ícaro. Os dois escaparam voando com as
asas que fabricaram.
As muralhas possuíam frestas
escondidas através das quais eram colocados alimentos
para o Minotauro, mas a fera os recusava, exigindo carne
humana. O rei Minos, então, exigiu que o rei de
Atenas, Egeu, com quem estava em guerra, passasse a pagar
um tributo, enviando todo ano sete rapazes e sete donzelas
que eram jogados no labirinto. Como ninguém conseguia
sair de lá, eram todos devorados pelo monstro real.
Mas, chegou o tempo em que Teseu,
filho do rei Egeu, atingiu a idade em que os atenienses
eram enviados para Creta, em meio a muita dor e desespero.
Determinado, Teseu jurou matar o monstro e liberar Atenas
e seu povo de tão humilhante sacrifício.
Conta-se, no entanto, que o verdadeiro pai de Teseu era
o próprio Poseidon. Assim, a Grande Potência
do mar teria engendrado tanto o touro quanto quem o destrói.
Teseu contou com a ajuda de Ariadne,
filha do rei Minos, que por ele se apaixonou, a ponto
de trair o pai. A princesa deu ao amado o fio que o ajudou
a entrar no Labirinto, matar o Minotauro e sair ileso
com os seus compatriotas. O gesto de Ariadne, no entanto,
não a ajudou a permanecer ao lado de Teseu, como
ela sonhara, pois ele a abandonou, pouco depois, na ilha
de Naxos. Legou ao mundo, no entanto, a significativa
expressão – o fio de Ariadne
Voltando ao Labirinto e às
suas possibilidades, examinemos o que os relatos nos contam
sobre sua forma em praça pública. Este era
um desenho feito no chão, como um mosaico, sobre
o qual se dançava, nas festas primaveris, em honra
do Deus Sol, destronado durante o inverno e de novo renascendo,
renovado, na primavera. Tratava-se, portanto, de uma antiga
celebração vinculada aos ritmos da natureza,
neste ininterrupto ciclo de vida-morte-vida.
Considerada esta possibilidade, o
rei Minos seria o representante do Sol e a rainha Pasífae,
a Lua. Em tempos mais antigos ainda, nessas celebrações
as mulheres usavam máscaras de boi, sendo que este
animal seja como boi, touro ou vaca é, milenarmente,
associado tanto ao sol, quanto á terra e à
fecundidade.
Teria sido este Labirinto que inspirou
o Deus-Ferreiro Hefaísto a forjar o escudo de Aquiles
o qual foi assim descrito por Homero, em sua Ilíada:
“Ademais, o artista glorioso
criou sobre ele uma ciranda
Parecida com aquela que outrora em Knossos, a ampla fortaleza,
Dédalo havia elaborado para a cacheada donzela
Ariadne.
Lá, jovens florescentes e moças ricamente
cingidas
Dançavam a ciranda e seguravam-se pelas mãos.
Vaporosos véus usavam as moças e camisas
o jovens,
Lindamente vestidos e suavemente resplandecentes de óleos
brilhantes.
Delicadas coroas usavam elas, dos outros pendiam
Punhais dourados presos a tiras prateadas.
Circulando, logo corriam levemente em volta,
Com passos bem delimitados, assim como um oleiro que,
sentado,
Verifica com mãos examinadoras, a velocidade com
que gira o disco adequado.
Em seguida também dançavam em fileiras que
se aproximavam.
O povo, densamente reunido, estava em volta da encantadora
dança,
Divertindo-se alegremente, e entre a massa um cantor divino
Tocava as cordas e cantava, enquanto que dois saltimbancos
pulavam
Dando piruetas, tão logo ele começava a
cantar, no meio.
Finalmente ele criou o poder do fluxo do Oceano
Ao redor da borda do escudo solidamente formado”.
Obs.: clique aqui para ler também
O IMPULSO
CRIADOR À LUZ DO MITO DE DÉDALO E O LABIRITO
DE CRETA
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