Desconfio de quem defende
o governo. Desconfio de quem ataca o governo. Desconfio
de quem não gosta de política. Desconfio
do técnico do meu time. Desconfio do filme que
ganhou o Oscar. Desconfio do vinho que me servem. Pior:
desconfio que estou educando meus filhos a desconfiar
dos outros.
Tô ficando louco? Velho? Ranzinza? Ou sou apenas
um brasileiro deste início de milênio, igualzinho
a você?
Meio século de vida me mostrou que confiar cegamente
é perigoso, mas a impressão que tenho é
que saí do oito pros oitenta! E descobri que não
sou dos mais intolerantes. Meus amigos também desconfiam!
Um estudioso norte americano chamado Robert Putnan escreveu
que “uma sociedade caracterizada pela reciprocidade
generalizada é mais eficiente que uma sociedade
desconfiada”.
Sociedade desconfiada...
Essa é a melhor definição para
o momento atual. Diga sinceramente: em quem ou no que
você confia?
Você provavelmente vai perceber que a resposta
cairá em sua família ou em Deus. Dificilmente
em alguma instituição pública ou
privada. Pois houve um tempo em que confiávamos
na justiça. Na polícia. Nos políticos.
No professor. No padre. No jornal.
Estamos perdendo aquilo que Robert Putnan definiu como
“capital social”. Nos últimos quarenta
anos assistimos a redução do envolvimento
cívico e político, dos laços sociais
informais, da tolerância e da confiança.
Passamos menos tempo com os amigos, freqüentamos
menos clubes, nos afastamos da política, dedicamos
horas e horas à tv e recebemos pela mídia
uma carga diária de catástrofes que nos
transformam em indivíduos medrosos, descrentes
e desconfiados.
Inspirar confiança, então, passa a ser
uma tarefa quase impossível. Integridade e caráter
tornam-se elementos-chave.
E pense bem: quais são as demonstrações
de integridade e caráter que você assistiu
nos últimos dias? Últimos meses? Últimos
anos?
Ta difícil de lembrar?
Por isso desconfio.
Luciano
Pires
Fonte: http://www.brasileirospocoto.com.br/
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