Por que interiormente, pessoalmente,
psicologicamente, nos achamos em tais conflitos? É necessário
isso? E é
possível viver uma vida inteiramente isenta de conflito,
sem nos deixarmos ficar a vegetar, a dormir? Não sei se
tendes pensado a esse respeito e se isso é pro blema para
vós. A meu ver, o conflito destrói toda forma de
sensibilidade, deforma todo pensamento; e onde existe conflito,
não existe amor. O conflito é essencialmente ambição,
adoração do êxito. E nós nos achamos
num estado de conflito, interiormente, não apenas no nível
superficial, porém muito profundamente em nossa consciência.
Estaremos cônscios disso? E, se estamos, que fazemos a esse
respeito? Tratamos de fugir a esse estado, freqüentando igrejas,
ouvindo rádio, buscando distrações, entretenimentos,
deleites sexuais, e tudo o mais, inclusive os deuses que cultuamos?
Ou somos capazes de encarar o conflito, “ir até o
fim”, e descobrir se a mente pode ficar de todo livre dos
conflitos?
O conflito implica,
sem dúvida nenhuma, contradição: contradição
no sentimento, no pensamento e na conduta. Existe contradição
quando desejamos fazer uma coisa e somos forçados a fazer
o contrário. Para a maioria de nós, quando existe
amor, existe também ciúme,
ódio; e isso é também contradição.
No apego, há angústia e dor, portanto contradição,
conflito. Parece-me que tudo o que tocamos produz conflito, e tal é nossa
vida, da manhã à noite; e mesmo quando dormimos, nossos
sonhos são os símbolos perturbadores de nossa vida
cotidiana.
Assim, ao considerarmos o estado total
de nossa consciência, verificamos que nos achamos no
conflito da autocontradição — a eterna
luta para sermos bons, nobres, isto e não aquilo. Por
que será assim? Tudo isso é
necessário, ou é possível viver sem esse
conflito?
Como disse, estamos examinando esta questão,
não ideologicamente, porém concretamente, isto é,
pondo-nos cônscios de nosso estado de conflito para compreendermos
o que ele implica e nos mantermos em contato real com ele —
não através de idéias, de palavras, porém
pelo contato real. É possível isso? Como sabeis,
podemos pôr-nos em contato com o conflito através
da idéia; e, com efeito, estamos mais em contato com a idéia
do conflito do que com o próprio fato. E a questão é
se a mente pode abandonar a palavra e pôr-se em contato com
o sentimento. E pode-se descobrir por que existe esse conflito,
se não estamos cônscios do processo total do pensar — não
do processo total do pensar de outrem, porém de nosso próprio
pensar?
Indubitavelmente, há divisão
entre o pensador e o pensamento, com o pensador lutando perenemente
por controlar, moldar o pensamento. Sabemos que é isso que
está acontecendo, e enquanto existir tal divisão,
terá de haver conflito. Enquanto houver experimentador e
experiência como dois estados diferentes, haverá conflito.
E o conflito destrói a sensibilidade, destrói a paixão,
a intensidade. E sem paixão, sem intensidade, não
podemos “ir até o fim” de nenhum sentimento,
nenhum pensamento, nenhuma ação.
Para irmos “até o fim”
e descobrirmos a essência das coisas, necessitamos de paixão,
intensidade, de uma mente sobremaneira sensível — não
mente instruída, mente repleta de conhecimentos. Sem paixão,
ninguém pode ser sensível; e a paixão, esse
impulso para o descobrimento, se embota na batalha constante que
se trava dentro em nós. Infelizmente, aceitamos como inevitáveis
a luta e o conflito, e dia a dia nos tornamos mais insensíveis,
mais embotados. E esse estado, em sua forma extrema, leva-nos à
insanidade mental; mas, em geral, buscamos refúgio nas igrejas,
nas idéias, e em coisas superficiais de toda ordem. Mas, é possível
viver sem conflito? Ou estamos tão condicionados pela sociedade,
por nossas próprias ambições, nossa avidez,
inveja, a busca de êxito, que aceitamos o conflito como algo
bom, coisa nobre, e de finalidade precisa? Seria vantajoso, penso,
se cada um de nós pudesse averiguar o que realmente sentimos
a respeito do conflito. Aceitamo-lo ou nos deixamos enredar por
ele, sem sabermos como livrar-nos dele, ou estamos satisfeitos
com nossos múltiplos meios de fuga?
Isso significa, realmente, investigar toda
a questão do autopreenchimento e o conflito dos opostos,
e ver se tem alguma realidade o pensador, o experimentador, com
seu perene ansiar por mais experiência, mais sensação,
horizontes mais amplos.
Só existe pensar, e nenhum pensador;
só um estado de experimentar, e nenhum experimentador? No
momento em que nasce o experimentador, graças à memória,
tem de haver conflito. Isso se me afigura bem simples, se já:
pensastes a seu respeito. Essa é a verdadeira raiz da autocontradição.
Para a maioria de nós o pensador se tornou sumamente importante,
e não o pensamento, o experimentador, não o estado
de experimentar.
Isso, com efeito, implica na questão
de que estivemos tratando noutro dia, ou seja, o que entendemos
por ver. Vemos a vida, uma pessoa; uma
árvore, através de idéias, opiniões,
lembranças? Ou estamos em comunhão direta com a vida,
a pessoa, ou a árvore? Penso que vemos através de
idéias, lembranças e juízos e que, por conseguinte,
nunca vemos nada. Assim, vejo-me a mim mesmo tal como “eu
realmente sou”, ou vejo-me como “eu deveria ser” ou
como “eu fui”? Por outras palavras, a consciência é
divisível? Falamos com muita facilidade a respeito da mente
consciente e da mente inconsciente, e das muitas camadas entre
ambas existentes. Existem essas camadas, essas divisões,
e elas se acham opostas umas às outras. Temos de percorrer
todas essas camadas, uma a uma, para nos livrarmos delas ou tentarmos
compreendê-las
— maneira muito cansativa e ineficaz de resolver um problema — ou é possível
varrermos todas as divisões, todo esse conjunto, e tomarmos
conhecimento da consciência total?
Como dizia noutro dia, para nos tornarmos cônscios
totalmente de uma coisa, necessita-se de percepção,
visão, não colorida por idéia alguma. Ver
uma coisa inteiramente, totalmente, não é possível
quando existe motivo, um propósito. Se
estamos interessados em alguma alteração, não
estamos vendo o que realmente é. Se estamos interessados
na idéia de que devemos ser diferentes, de que devemos melhorar
o que vemos, torná-lo mais belo, etc., não somos
então capazes de ver a totalidade do que
é. A mente só está então interessada
em mudança, alteração, melhoria, aperfeiçoamento.
Mas posso ver-me assim como sou, como consciência
total, sem ficar enredado nas divisões, nas camadas, nas
idéias opostas, existentes na consciência? Não
sei se já alguma vez praticastes a meditação — por
ora não discorrerei sobre esta matéria. Mas, se já o
fizestes, deveis ter observado o conflito que se verifica na meditação — a
vontade lutando para controlar o pensamento, e o pensamento a escapar-lhe
sempre. É uma parte de nossa consciência
— esse impulso para controlar, moldar, satisfazer-se, ter êxito,
encontrar segurança; e ao mesmo tempo a compreensão
do absurdo, da inutilidade, da futilidade de tudo isso. A maioria
de nós tenta desenvolver uma ação, uma idéia,
uma vontade de resistência, para servir como uma espécie
de muralha em torno de nós mesmos, e dentro dessa muralha
esperamos permanecer num estado de ausência de conflito.
Ora bem. É possível percebermos
a totalidade desse conflito e permanecermos em contato com essa
totalidade? Isso não significa permanecer em contato com
a idéia da totalidade do conflito, ou vos identificardes
com as palavras que estou empregando; mas, sim, significa estar
em contato com o fato da totalidade da existência humana,
com todos os seus conflitos de tristeza, sofrimento, aspiração
e luta. Significa enfrentar o fato, “viver com ele”.
Como sabeis, “viver com uma coisa” é extremamente
difícil. “Viver com aquelas montanhas” que nos
cercam, com a beleza das árvores, com as sombras, a luz
matinal, a neve,
“viver com isso” realmente, é muito difícil.
Todos tomamos conhecimento dessas coisas, não é verdade?
Mas, vendo-as dia por dia, embotam-nos diante delas, como acontece
com os camponeses, e nunca mais tornamos a olhá-las realmente.
Mas
“viver com a coisa”, vê-la cada dia como nova,
com clareza, com sensibilidade, com apreciação, com
amor — isso requer enorme soma de energia. E
“viver com uma coisa feia” sem que essa coisa feia
possa perverter, corroer a mente — isso requer por igual
muita energia. “Viver tanto com o belo como com o feio” — como
temos de viver, em nossa existência — requer descomunal
energia. E essa energia é rejeitada, destruída, quando
nos encontramos num estado de perpétuo conflito.
Assim, pode a mente olhar a totalidade do conflito, “viver
com ele”, sem aceitá-lo, nem rejeitá-lo, sem
permitir que o conflito nos deforme a mente, porém observando
realmente todos os movimentos internos de nossos próprios
desejos, geradores de conflito? Acho que isso é possível
— não apenas possível, mas, quando penetramos
mui profundamente o conflito, quando nossa mente está apenas
a observar e não a resistir, a rejeitar, a escolher, eis
o que acontece. Então, depois de chegardes até aí,
não em termos de tempo e espaço, porém com
a experiência real da totalidade do conflito, descobrireis
por vós mesmos que a mente é capaz de viver muito
mais intensa, apaixonada e vitalmente; e uma mente assim é
essencial para que possa surgir na existência aquela
“certa coisa imensurável”. A mente em conflito
jamais descobrirá o verdadeiro. Poderá
tagarelar incessantemente acerca de Deus, da bondade, da espiritualidade
e tudo o mais, mas só a mente que compreendeu de maneira
completa a natureza do conflito e, por conseguinte, se acha fora
dele, só ela pode receber aquilo a que se não pode
dar nome, aquilo que não pode ser medido.
Krishnamurti –
Do Livro: O PASSO DECISIVO – Ed. Cultrix