DIÁLOGO SOBRE O DESCONTENTAMENTO Krishnamurti - 28 de fevereiro
de 1953 – Sexta Palestra em Bombaim
Do livro: Autoconhecimento – base da Sabedoria
ACHO que é importante compreender-se
o problema do descontentamento. Talvez encontremos a solução
correta de nossos enormes problemas se pudermos investigar o significado
profundo do descontentamento. Quase todos nós estamos insatisfeitos
com nós mesmos, nosso ambiente, nossas idéias, nossas
relações. Desejamos efetuar uma modificação.
Há
descontentamento geral, do simples aldeão ao homem mais
letrado - se não está subordinado ao seu poder, se
não é escravo da sua ciência. Alastra-se por
toda a parte uma insatisfação que nos leva a executar
toda sorte de ações, e queremos encontrar um caminho
que nos conduza à
satisfação. Se estais insatisfeito, desejais encontrar
um caminho para a felicidade. Se estais
batalhando dentro em vós mesmo, aspirais a encontrar o caminho
da paz. Estando insatisfeito, descontente, desejais uma solução
que seja satisfatória. Por conseguinte, a mente está sempre
a tatear, sempre a sondar, em busca da Verdade - em busca da solução
para o seu descontentamento. Uns encontram a solução
na satisfação própria, num alvo, num objetivo
na vida, por eles estabelecido; e tendo descoberto um meio por
onde encaminhar o seu desejo, pensam ter encontrado o contentamento.
O contentamento pode ser encontrado? A paz é uma coisa
que possa ser achada pelo processo do intelecto? A felicidade é coisa
adquirível pela compreensão ou pela criação
do seu oposto? Esse sofrimento, esse descontentamento é essencial
em nossa vida? O fato é que estamos descontentes com o
que é, descontentes com as coisas que temos,
descontentes com o que somos; e o descontentamento surge por
causa da comparação. Estou descontente porque
vejo que sois ilustrado, rico, feliz, poderoso.
É essa a causa do descontentamento? Ou vem à
existência o descontentamento quando estou em busca de
um caminho por onde possa afastar-me do que
é? Se eu puder compreender o caminho do descontentamento,
talvez possa haver felicidade, talvez possa haver satisfação.
Não há
caminho para a felicidade, para o contentamento. Aquele contentamento
e aquela felicidade não constituem um processo de "estagnação".
Pois, se me vejo descontente e desejo estar contente, esse
caminho me conduz ao contentamento, que é estagnação;
e isso é o que deseja a maioria de nós. Mas existe
algum caminho?
Podemos investigar, podemos sondar a questão do descontentamento,
sem procurarmos criar o seu oposto, sem querermos alcançar
o seu oposto? Porque, afinal de contas, quando somos jovens, estamos
descontentes com a sociedade, tal como está constituída.
Queremos reformá-la, produzir uma modificação.
Aderimos, assim, a uma sociedade, a um partido, um grupo político
ou associação religiosa. E logo o nosso descontentamento
se canaliza, e é
refreado e destruído. Porque, nesse caso, estamos interessados
tão-somente em pôr em prática um método,
um sistema, para produzirmos um resultado e, em virtude disso,
pomos fim ao nosso descontentamento. Este não é um
dos nossos maiores problemas? Como nos satisfazemos facilmente!
O descontentamento não é essencial em nossa existência,
relativamente a qualquer questão, qualquer indagação,
no sondar, no descobrir o que é o Real, o que é a
Verdade, o que
é essencial na vida? Posso possuir em mim esse flamejante
descontentamento durante o tempo de colégio; mais tarde,
porém obtenho um emprego e lá
se vai o descontentamento. Torno-me satisfeito, luto para manter
minha família, para ganhar a vida, e, dessa maneira, o descontentamento
se acalma, é destruído, e me transformo numa entidade
medíocre, satisfeita com as coisas da vida, e não
mais estou descontente. Entretanto, a chama tem de ser alimentada
desde o princípio até o fim, para que haja verdadeira
investigação, o verdadeiro sondar do problema relativo
ao que é
o descontentamento. Porque a mente busca muito prontamente um narcótico
que a ponha satisfeita com suas virtudes, qualidades, idéias,
ações, e estabelece uma rotina na qual se aprisiona.
Estamos muito familiarizados com esse fato; o nosso problema, porém,
não
é o de como acalmar o descontentamento, mas de como mantê-lo
em combustão, ativo, cheio de vitalidade. Todos os nossos
livros religiosos, todos os nossos gurus, todos
os nossos sistemas políticos pacificam a mente, aquietam-na,
influem sobre ela para fazê-la arrefecer, pôr de parte
o descontentamento e ficar chafurdando nalguma forma de satisfação.
E não é essencial estar-se descontente, para se descobrir
o que é
verdadeiro?
Por que ficamos descontentes? - e o descontentamento produz revolução,
modificação, transformação? E só é possível
a revolução quando compreendemos a natureza do descontentamento?
E com o que há descontentamento? Que coisa é essa
com a qual estamos descontentes? Se puderdes investigar verdadeiramente
esta questão, talvez vos seja possível achar uma
solução. Com que estamos descontentes? Ora, com o
que é. Esse "o que é" pode ser
a ordem social, podem ser as relações, pode ser o
que somos, a coisa que somos essencialmente isto é, o feio,
os pensamentos inconstantes, as ambições, as frustrações
e os temores sem conta; isso
é o que somos. Pensamos que, afastando-nos disso, encontraremos
uma solução para o nosso descontentamento. Por conseguinte,
estamos sempre em busca de um método, um meio de modificar "o
que é". É
nisso que está interessada a nossa mente. Se me vejo descontente
e desejo encontrar o método, o meio de chegar ao contentamento,
fica o meu espírito ocupado com o meio, o método
e a prática do método, a fim de alcançar o
contentamento. Assim, pois, já não estamos interessados
em manter vivas as brasas, em nutrir a flama que arde e que se
chama descontentamento. Não descobrimos o que existe na
base desse descontentamento. Interessa-nos, tão somente
afastar-nos dessa chama, dessa ânsia ardente.
Não há dúvida de que estamos descontentes
com "o que é". E é extraordinariamente
difícil sondar "o que é" - a Realidade,
e não "o que deveria ser", sondar aquilo que sou
momento por momento. Esse indagar e sondar não visa ao "eu
superior", mera fabricação da mentalidade, mas
somente ao que é. Isso é dificílimo,
porquanto a nossa mente nunca fica satisfeita, jamais fica contente
quando examina o que é. Quer sempre transformar o
que é noutra coisa, - o que indica o processo da
condenação, da justificação ou da comparação.
Se observardes a vossa própria mente, vereis que quando
ela se vê
frente a frente com o que é, logo o condena
e compara com o que deveria ser; ou justifica-o,
etc., e desse modo afasta de si o que
é, desembaraçando-se dessa coisa que lhe causa perturbação,
dor, ansiedade.
O descontentamento não é essencial? E não
achais que não devemos deixá-lo consumir-se, mas
sempre nutri-lo, investigá-lo, sondá-lo, de modo
que, com a compreensão do que é,
surja o contentamento? Este contentamento não é
o contentamento produzido por um sistema de pensamento;
é o contentamento que acompanha a compreensão do
que é. Esse contentamento não
é produto da mente - da mente que está sempre perturbada,
agitada, que é incompleta, quando busca a paz, quando busca
um caminho que a leve para longe do que é.
E desse modo, o espírito, pela justificação,
pela comparação, pelo julgamento, procura alterar o
que é e espera assim alcançar um estado
em que nunca será perturbado, em que estará calmo,
no qual haverá tranqüilidade. E quando a mente se vê perturbada
por causa das condições sociais - pobreza, miséria,
degradação, angústias pavorosas - quando a
mente percebe tudo isso e deseja alterá-lo, logo se prende
e enreda no método de alterar, no sistema
de alterar. Se o espírito, porém,
é capaz de olhar o que é, sem comparação
e sem julgamento, sem o desejo de transformá-lo noutra coisa,
pode-se ver que surge uma espécie de contentamento não
produzido pela mente.
O contentamento que é produto da mente é
fuga. É estéril. É coisa morta. Mas há contentamento
que não vem da mente, que surge com a compreensão do
que é, e no qual se verifica uma revolução
profunda, atingindo a sociedade e as relações individuais.
O descontentamento, pois, não deve ser aplacado, posto de
parte, narcotizado por algum sistema de pensamento. Ele é essencial.
Cumpre mantê-lo vivo, ardente, para podermos investigar as
coisas.
Achamo-nos em conflito uns com os outros e nosso mundo está sendo
destruído. Há crise sobre crise, guerra após
guerra; há fome, há
angústias; há os que são excessivamente ricos,
revestidos de respeitabilidade, e há os que são pobres.
Para se resolverem esses problemas, o que é necessário
não é um novo sistema de pensamento, não é uma
nova revolução econômica, mas sim a compreensão do
que é - o descontentamento, o constante investigar do
que é - da qual resultará uma revolução
de alcance infinitamente maior do que o da revolução
de idéias. E essa revolução é
que se faz sumamente necessária para a criação
de uma civilização diferente, uma religião
diferente, um diferente estado de relação entre os
homens.
Krishnamurti - 25 de fevereiro de 1953
Do livro: Autoconhecimento - Base da Sabedoria