O que designamos por
mudança? Será que a mudança
é a mera transferência do que acumulei para outros
campos do conhecimento, para novos pressupostos e ideologias, projetados
a partir do passado? É
isso que costumamos chamar de mudança, não
é mesmo? Quando digo que preciso mudar, penso em mudar para
alguma coisa que já conheço. Quando digo que preciso
ser bom, já tenho uma idéia, uma formulação,
um conceito do que é ser bom. Mas isso não é
o florescer da bondade. O florescer da bondade só
surgequando compreendo o processo
e o acúmulo do conhecimento e quando desfaço o que
sei. Então há possibilidade de uma revolução,
de uma mudança radical.
Mas o simples passar
do conhecido para o conhecido não
é mudança nenhuma.
Espero estar sendo claro, porque vocês
e eu precisamos mudar radicalmente, de uma maneira espantosa,
revolucionária. É um fato óbvio que não
podemos continuar como estamos. As coisas alarmantes que estão
acontecendo no mundo exigem que todos esses problemas sejam
abordados a partir de uma perspectiva totalmente diferente,
com uma mente e um coração totalmente novos.
Eis por que tenho de compreender como fazer em mim essa mudança
radical. E vejo que só posso mudar desfazendo tudo o
que já conheço. O desembaraçar a mente
do conhecimento constitui em si uma mudança radical,
porque assim a mente fica humilde, e essa mesma humildade faz
surgir uma ação totalmente nova. Enquanto a mente
estiver adquirindo, comparando, pensando em termos do “mais”,
ela será
incapaz de uma ação nova. E será
que eu, invejoso, ambicioso, posso mudar completamente, de
modo que a mente pare de adquirir, de comparar, de competir?
Em outras palavras, será que a mente pode esvaziar-se
a si mesma e, nesse mesmo processo de auto-esvaziamento, descobrir
a ação nova?
Ou seja, será possível efetuar
uma mudança fundamental que não seja o resultado
de um ato de vontade, que não seja o mero resultado da influência,
da pressão? A mudança fundada na influência,
na ação, no ato de vontade, não é mudança
nenhuma. Isso é evidente se vocês penetrarem na questão.
E se sinto necessidade de uma mudança completa, radical,
em mim mesmo, tenho de examinar o processo do conhecimento, que
forma o centro a partir do qual acontece toda experiência.
Há em cada um de nós um centro que é o resultado
da experiência, do conhecimento, da memória; e nós
agimos e “mudamos” de acordo com esse centro. O próprio
ato de desfazer esse centro, a própria dissolução
desse “eu”, desse processo de acúmulo, gera
uma mudança radical. Isso, todavia, exige o esforço
do autoconhecimento.
Tenho de conhecer a mim mesmo tal como sou,
e não como acho que devo ser. Tenho de me conhecer como
o centro a partir do qual estou agindo, a partir do qual estou
pensando, o centro formado pelo conhecimento acumulado, por pressupostos,
pela experiência passada, que são coisas que impedem
uma revolução interior, uma radical transformação
de mim mesmo. E como temos um tão grande número de
complexidades no mundo atual, com tantas mudanças superficiais
acontecendo, é necessário que haja essa mudança
radical no individuo, porque só o indivíduo, e não
o coletivo, pode criar um novo mundo.
Em vista de tudo isso, será
possível que você e eu, como dois indivíduos,
nos modifiquemos, não de modo superficial, mas radicalmente,
de forma que haja a dissolução do centro de que emana
toda vaidade, todo o sentido de autoridade, esse centro que acumula
ativamente, centro feito de conhecimento, de experiência,
de memória?
Trata-se de uma pergunta a que não se
pode dar uma resposta verbal. Faço-a somente para despertar
o pensamento de vocês, sua capacidade inquisitiva, a fim
de que vocês iniciem a caminhada sozinhos Porque vocês
não podem fazer essa caminhada com a ajuda de outra pessoa;
vocês não podem ter um guru que lhes diga o que fazer,
o que procurar. Se alguém lhes disse isso, vocês já
não estarão nessa caminhada. Mas será
que vocês não podem começar essa caminhada
sozinhos, sem o acúmulo do conhecimento, que impede o progresso
nesse exame? Para examinar, a mente precisa estar livre do conhecimento.
Quando há alguma pressão por trás desse exame,
ele não é mais reto, mas torto e é por esse
motivo que é
essencial ter uma mente realmente humilde uma mente que diga “não
sei; vou procurar saber”. E que nunca acumule no processo
de exame das coisas. No momento em que acumulam, vocês passam
a ter um centro, e esse centro sempre irá influenciar o
exame. E então? Será que a mente é capaz de
examinar sem acumular, sem assimilar coisas, sem enfatizar o centro
através da autoridade do conhecimento? E, se for capaz,
qual o estado dessa mente? Qual o estado da mente realmente inquisitiva?
Sem duvida é o estado do vazio.
Não sei se vocês já
tiveram a sensação do que é estar completa
mente só, sem nenhuma pressão, sem motivação
nem influência, sem a idéia do passado nem do futuro.
Estar completamente só é totalmente diferente da
solidão. Há solidão quando o centro de acumulação
se sente isolado em suas relações com o outro. Eu
não estou falando dessa sensação de solidão.
Falo do estar só, em que a mente não se acha contaminada
porque já compreendeu o processo de contaminação,
que é
o acúmulo. E quando a mente estiver totalmente só — porque,
mediante o autoconhecimento, ela compreendeu o centro de acumulação —,
vocês vão perceber que, estando vazia, livre de influências,
a mente é capaz de uma ação não vinculada
com a ambição, com a inveja nem com nenhum dos conflitos
que conhecemos. Por ser indiferente, no sentido de não estar
procurando um resultado, essa mente pode viver com compaixão.
Mas esse estado mental não pode ser adquirido nem desenvolvido.
Ele surge por meio do autoconhecimento, por meio do conhecimento
de si mesmo — não de algum eu enorme, maior, mas de
pequeno eu, que é
invejoso, ambicioso, teimoso, raivoso, maldoso. O necessário
é conhecer o todo dessa mente que é o seu pequenino
eu. Para ir muito longe, você tem de começar de muito
perto, e o perto é você mesmo, é
o “eu” que você precisa compreender. E quando
vocês começarem a compreender, vão perceber
que o conhecimento se dissolve, o que deixa a mente totalmente
alerta, atenta, vazia, sem esse centro. E só uma mente assim é capaz
de perceber o que é a verdade.
Krishnamurti
Do livro: Sobre Aprendizagem e o Conhecimento - Páginas
18 à 21 – Ed. Cultrix