| Amigos.
Nossos problemas humanos exigem
um pensar esclarecido, simples e direto. Talvez alguns
dentre vós imaginem que por simplesmente escutarem
umas poucas palestras que vou fazer, seus problemas ficarão
resolvidos. É que vós desejais remédios
imediatos para as vossas múltiplas dores e tristezas,
desejais modificações superficiais que revolucionem
o vosso pensamento, o vosso ser inteiro. Só existe
um meio de encontrar a felicidade inteligente, que é
o de vossa percepção e discernimento próprios;
e só por meio da ação é que
poder dissipar os múltiplos obstáculos que
vos impedem o preenchimento. Si, por vós próprios,
puderdes perceber, simples e diretamente, as limitações
que vos impedem de um viver completo e profundo, e de
como foram elas criadas, então, sereis capazes
de as dissipar.
Eu vos pediria, ao me escutardes,
que ultrapassásseis essa ilusão cômoda
e confortável que fez dividir o pensamento em oriental
e ocidental. A verdade sobrepuja todos os climas, povos
e sistemas. Se bem que eu venha da Índia, o que
digo não se acha condicionado pelo pensamento desse
país. Preocupo-me com o sofrimento humano, que
existe por todo o mundo. Peço-vos que não
repudieis o que digo sob a alegação de que
não é pratico e sim apenas uma certa forma
de misticismo oriental. Eu vos pediria também que
não pensásseis eivados de formulas, de sistemas,
de frases feitas, porém, que libertásseis
a mente desse fundo de idéias herdado de múltiplas
gerações, e pensásseis de forma nova,
direta e simplesmente. Por favor, não penseis que
chamando-me anarquista, comunista ou dando-me qualquer
outro nome que vos convenha, haveis compreendido o que
eu disse. Temos que pensar por forma renovada, compreender
o problema humano como um todo e, somente então,
poderemos viver harmoniosa e inteligentemente. Onde houver
verdadeiro preenchimento individual, haverá também
verdadeiro bem estar do todo, da coletividade.
Si cada qual de vós puder
ter plenitude, viver em completa harmonia — coisa
que exige grande inteligência e não a persecução
de desejos egoístas — então haverá
o bem estar para o todo. Posto que necessitemos de uma
completa revolução do pensamento e do desejo,
deve ela ser a resultante da compreensão voluntária
por parte do individuo e não a da compulsão.
Dado o fato de vós, em
maioria, estardes interessados pela felicidade e pela
consumação, e não terdes aqui vindo
por simples curiosidade, se exatamente compreenderdes
o que digo e agirdes, dar-se-á, então, o
verdadeiro êxtase da vida.
Há intenso sofrimento
por todo o mundo. Existe a fome em meio da abundancia.
Há exploração das classes pelas classes,
das mulheres pelos homens e dos homens pelas mulheres.
Existe o absurdo do nacionalismo que mais não é
que a expressão coletiva da busca egoísta
da segurança.
Este caos é a expressão
objetiva do sofrimento interno do homem. Subjetivamente,
há a incerteza, o temor angustiante da morte, do
ser incompleto, da vacuidade. Nossa ação
no mundo subjetivo e no objetivo, nada mais é que
a expressão do desejo egoísta da segurança.
Assim, criou a mente múltiplos obstáculos,
limitações, e enquanto não houvermos
compreendido plena, integralmente, esses obstáculos,
e voluntariamente nos libertado deles, não pode
haver preenchimento.
Compreendendo e libertando-nos,
individualmente, destas limitações, podemos
criar a ação verdadeira, necessária
e, por esse modo, modificar o ambiente. Muitas pessoas
pensam que é preciso operar-se um movimento em
massa afim de que o preenchimento individual venha a ter
lugar. Porém, para criar um verdadeiro movimento
em massa, temos que haver primeiramente completa revolução
de pensamento e de desejo no individuo, isto é,
em vós próprios. Para mim, esta mudança
voluntária e individual é a verdadeira revolução.
Ela tem que começar convosco, em vós, indivíduos,
e não em uma vaga massa coletiva. Não vos
deixeis hipnotizar pela frase “movimento em massa”.
Cada individuo que se acha colhido pelo sofrimento, precisa
mudar, precisa compreender a causa da sua tristeza e os
obstáculos que em redor de si próprio criou.
De nada serve o meramente buscar uma substituição,
pois que isso de modo algum viria resolver os problemas
e as angustias humanas. Isso seria apenas um falso ajuste
a uma condição falsa. A maioria dentre vós,
que busca uma substituição, está
apenas se aferrando as suas finalidades egoístas.
Por favor, não digais
no final desta palestra que eu não vos dei um sistema
positivo.
Vou tentar explicar-vos como
as vossas tristezas foram criadas; e quando, por vós
mesmos, lhes houverdes discernido a causa então
terá lugar uma ação direta, a única,
que será positiva. Essa ação nascida
da compreensão, da inteligência, não
é a imitação de um sistema.
Cada individuo procura a segurança,
subjetiva e objetiva. A busca subjetiva é a da
certeza, de modo a poder a mente apegar-se a ela e não
ser perturbada. A busca objetiva é a da segurança,
a do poder e do bem estar.
Ora, o que acontece ao buscardes
a segurança, a certeza? Necessariamente, haverá
medo; e se fordes conscientes de vosso pensamento, discernireis
que ele tem sua raiz no temor. A moral, a religião
e as condições objetivas, acham-se fundamentalmente
baseadas no medo, por serem a resultante do desejo, da
parte do individuo, de sentir-se em segurança.
Ainda que não alimenteis nenhuma crença
religiosa, tendes, contudo, o desejo de vos sentirdes
subjetivamente seguros, coisa que nada mais é do
que espírito religioso. Compreendamos a estrutura
daquilo a que chamamos religião.
Como disse, quando se busca
segurança, há de haver medo; para vos certificardes
subjetivamente buscais aquilo a que chamais imortalidade.
Na busca dessa segurança, aceitais instrutores
que vos prometem a imortalidade e chegais a admiti-los
como autoridades a quem se deve temer e a quem se deve
adorar. E onde houver este temor, tem que haver dogmas,
credos, crenças, ideais e tradições
que prendem a mente.
Aquilo a que chamais religião,
nada mais é que uma forma organizada da auto-proteção
individual para alcançar a segurança subjetiva.
Para administrar esta autoridade baseada no temor, tem
que haver sacerdotes que se tornam vossos exploradores.
Sois vós os criadores dos exploradores, visto que,
pelo medo, haveis criado a causa da exploração.
A religião tornou-se uma crença organizada,
uma forma cristalizada do pensamento, da moral, da opressão,
do domínio. A religião cujo Deus é
o medo — embora apliquemos palavras tais como amor,
benignidade, fraternidade, para disfarçar esse
medo profundo — nada mais é que a submissão
subjetiva a um sistema que nos garante a segurança.
Eu não falo de uma religião ideal. Falo
da religião tal qual ela se encontra por todo o
mundo, a religião da exploração,
a religião do interesse rendoso.
Existe, depois, a busca objetiva
da segurança, por meio do poder egoísta
essencialmente baseado no temor e, portanto, na exploração.
Se lançardes as vistas para o nosso sistema atual,
verificareis ser ele nada mais que uma série de
explorações astutas do homem pelo homem.
A família torna-se o próprio centro de exploração.
Peço-vos que não compreendais mal o que
entendo por família. Por família entendo
o centro que vos faz sentir seguros, que exige a exploração
do vosso próximo. A família, que deveria
ser a própria expressão do amor e não
da exclusividade, torna-se um meio da auto-perpetuação
egoísta. Daí desenvolvem-se classes, as
superiores e as inferiores; e os meios de adquirir riqueza
acumulam-se nas mãos de uns poucos. Vem, a seguir,
a moléstia do nacionalismo, o nacionalismo como
um meio de exploração e opressão.
Esta perigosa doença do nacionalismo divide as
pessoas, assim como as religiões também
o fazem. Daí surgem os governos soberanos, cuja
tarefa é preparar a guerra. As guerras não
constituem uma necessidade; matar a outro ser humano,
não é uma necessidade.
Assim, buscando a vossa própria
segurança, haveis criado múltiplos obstáculos,
de que sois integralmente inconscientes; e esses obstáculos
não somente vos tornam em máquinas, como
também vos impedem de serdes verdadeiros indivíduos.
Quando vos tornais conscientes destas limitações,
surge o conflito. E vós não desejais o conflito,
desejais apenas a satisfação, a segurança
e, por isso, esses obstáculos continuam a criar
tumulto e tristeza. Vós, porém, só
encontrareis verdadeira felicidade, plenitude, realidade,
quando entrardes em conflito com os valores que agora
oprimem e limitam a mente.
O examinar intelectualmente
esses valores, não vos revela o seu verdadeiro
significado. O mero exame intelectual não cria
o conflito, é somente por meio do sofrimento que
começais a compreender o seu significado profundo,
oculto.
A maior parte das pessoas agem
mecanicamente dentro de um sistema; portanto, é
essencial que elas venham a ficar face a face com aqueles
valores e obstáculos de que são inconscientes.
Aí dá-se o despertar da verdadeira inteligência,
a única que pode dar lugar á plenitude.
Essa inteligência única revelará o
eterno. Assim como o sol aparece límpido e brilha
através das nuvens escuras, assim, através
do vosso próprio discernimento e da pureza da vossa
ação, advirá a realização
daquela vida que está sempre se renovando a si
mesma.
Krishnamurti
– Do livro: Krishnamurti no Chile e no México
em 1935 - ICK
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