| Krishnamurti:
Não é importante descobrir-se por que surge
a dúvida? Qual é a causa da dúvida?
Não surge ela quando seguimos a outrem? O problema
não é, pois, a dúvida, porém
a causa da aceitação de autoridade. Porque
aceitamos, porque seguimos autoridades?
Seguimos a autoridade de outro, a
experiência de outro, e depois duvidamos dela. Esse
desejo de autoridade e a sua conseqüência,
a desilusão, constitui um processo penoso para
a maioria de nós. Censuramos ou criticamos a autoridade,
o guia, o mestre que uma vez aceitamos, mas não
examinamos o nosso próprio anseio por uma autoridade
que nos guie e conforte. Uma vez compreendido esse anseio,
compreenderemos também o significado da dúvida.
Não existe em nós uma
tendência profundamente arraigada a procurarmos
um guia, a aceitarmos uma autoridade? De onde procede
esse impulso? Não procede de nossa própria
incerteza, de nossa própria incapacidade de conhecer
sempre o que é verdadeiro? Necessitamos de outrem
que desenhe para nós o mapa que nos guiará
pelo mar do autoconhecimento; desejamos segurança,
desejamos um refúgio seguro e seguimos, por isso,
a qualquer que nos queira dirigir. A incerteza e o temor
levam-nos a procurar quem nos guie, obrigando-nos à
obediência e à veneração da
autoridade; a tradição e a educação
criam para nós muitos padrões de obediência.
Se por vezes não aceitamos nem obedecemos aos símbolos
da autoridade exterior, é porque criamos nossa
própria autoridade interior, a voz sutil do nosso
“ego”. Mas, pela obediência não
se pode conhecer a liberdade. A liberdade chega-nos com
a compreensão, não pela aceitação
de autoridade, não pela imitação.
O desejo de expansão pessoal
gera a obediência e a aceitação, as
quais, por sua vez, dão azo à dúvida.
Consentimos e obedecemos, por que desejamos expandir o
nosso “ego”, com o que renunciamos ao pensar.
A aceitação priva-nos do pensar e impele-nos
à dúvida. A experiência, principalmente
a chamada experiência religiosa, oferece-nos um
grande deleite e tomamo-la por guia, por norma. Mas, quando
essa experiência já nos não sustenta
nem inspira, começamos a duvidar dela. Só
se manifesta dúvida a respeito de algo que admitimos
anteriormente. Mas não achais absurdo, irrefletido,
aceitar o que outrem sentiu? Vós é que deveis
pensar e sentir, plena e profunda mente, vós é
que deveis estar acessíveis ao Real. Não
podeis estar abertos se vos pondes sob o manto da autoridade,
seja de outrem seja daquela que vós mesmos criastes.
Muito mais importante é o compreender o desejo
de autoridade, de guia, do que aprovar ou desaprovar a
dúvida. Compreendido o nosso desejo de orientação,
desaparece a dúvida. Não há lugar
para a dúvida no “estado criador”.
Está sempre em conflito quem
se apega ao passado, à memória. A dúvida
não faz terminar o conflito; só depois de
compreender-se o anseio pode haver a felicidade suprema
do Real. Cuidado com o homem que afirma saber.
Pergunta: Como sois tão contra
a autoridade, existem sinais inequívocos, pelos
quais se possa reconhecer, objetivamente, a libertação
de outro indivíduo, independentemente da afirmação
pessoal do próprio indivíduo de a haver
conseguido?
Krishnamurti: Temos aqui, mais uma
vez, o problema da aceitação de autoridade,
de outro modo enunciado. Não o achais? Suponha-se
que um indivíduo afirme ter-se libertado, que importância
tem isso para outro? Suponhamos que estejais livres do
sofrimento, que importância tem isso para outro?
O que importa é procurar o indivíduo libertar-se
da ignorância, porquanto é a ignorância
a causa do sofrimento. Assim, pois, o principal não
é saber quem conseguiu a libertação,
porém saber libertar o pensamento das cadeias do
“ego”, origem de seus sofrimentos. A maioria
de nós não se interessa por esse ponto essencial,
mas somente pelos sinais exteriores pelos quais seja possível
reconhecer-se aquele que se libertou, a fim de que ele
venha curar os nossos males. Desejamos ganho, em vez de
compreensão; nosso desejo de orientação,
de conforto, faz-nos aceitar a autoridade e por essa razão
vivemos sempre à procura de especialistas. Sois
vós a causa de vosso sofrimento e somente vós
o podeis compreender e transcender; ninguém pode
libertar-vos da ignorância, senão vós
mesmos.
Não importa saber-se quem conseguiu
a libertação; o que importa é que
estejais cônscios de vossas atitudes e da maneira
como acolheis o que se vos diz. Costumamos ouvir as palavras
de outrem com esperança e temor; buscamos a luz
de outro, porém não nos pomos vigilantemente
passivos para compreender. Se o indivíduo libertado
parece satisfazer os nossos desejos, nós o aceitamos;
se não, prosseguimos em busca de outro que os satisfaça.
O que deseja a maioria de nós é a satisfação,
em diferentes planos. O que releva não é
reconhecer-se o individuo liberto, porém compreenderdes
a vós mesmo. Autoridade alguma, nem agora, nem
nunca, pode dar-vos o autoconhecimento; sem autoconhecimento
não há libertação da ignorância
e do sofrimento.
Sois o criador do sofrimento, porque
sois o criador da ignorância e da autoridade; vós
criais o guia, e depois o seguis. Vosso anseio molda o
padrão de vossa vida religiosa e mundana. É
essencial, portanto, que compreendais a vós mesmo
e transformeis, assim, a maneira de viverdes. Procurai
perceber a razão por que seguis a outrem, a razão
por que procurais a autoridade, por que ansiais por uma
orientação de vossa conduta; procurai perceber
o funcionamento do anseio. A mente-coração
insensibilizou-se, em virtude do temor e da satisfação
derivados da autoridade, mas, com a percepção
profunda do pensamento-sentimento, vem-nos o tonificante
alento da vida. Pela vigilância não seletiva,
chegareis a compreender o processo integral do vosso ser;
pela vigilância passiva alcançareis o esclarecimento.
Krishnamurti
Conferências com perguntas e respostas realizadas
nos anos de 1945 e 1946, em Ojai, Califórnia, Estados
Unidos da América. Do livro: O Egoísmo e
o Problema da Paz – Ed. ICK - 1946
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