| PENSO
que, compreendendo a vida de relação, chegaremos
a compreender o que significa independência. A vida
é um processo de constante movimento de relações,
e sem se compreender a vida de relação,
produziremos confusão, e luta, e esforços
inúteis. Assim sendo, releva compreender o que
significa vida de relação; porque são
as relações que constituem a sociedade,
e não é possível o isolamento. O
que se isola, logo perece.
Nosso problema, pois, não é
o de sabermos o que é a independência, mas,
sim, o que significa a vida de relação.
Com a compreensão da vida de relação,
que é a conduta entre seres humanos, quer íntimos,
quer estranhos, quer próximos, quer distanciados,
começaremos a compreender todo o processo da existência
e do conflito entre o cativeiro e a independência.
Cumpre-nos, pois, examinar com muito cuidado o que significa
vida de relação.
A vida de relação não
é no presente um processo de isolamento e, portanto,
de conflito constante? As relações entre
vós e outra pessoa, entre vós e vossa esposa,
entre vós e a sociedade, são produto desse
isolamento. Por isolamento queremos dizer que vivemos
a todas as horas em busca de segurança, de satisfação
e de poder. Afinal de contas, cada um de nós, em
suas relações com alguém, busca a
satisfação; e onde existe a busca de conforto,
de segurança, quer se trate de uma nação,
ou de um indivíduo, tem de haver isolamento, e
o que está no isolamento provoca sempre conflito.
Tudo o que resiste produz necessariamente conflito entre
si e aquilo a que está resistindo; e, visto que,
na maioria dos casos, as nossas relações
constituem uma forma de resistência, criar uma sociedade
que gera, necessariamente, o isolamento e, portanto, conflito,
dentro e fora desse isolamento. Precisamos, pois, examinar
as relações e sua função em
nossas vidas. Afinal de contas, o que eu sou — minhas
ações, meus pensamentos, meus sentimentos,
meus impulsos, minhas intenções —
produz aquela relação entre mim e outra
pessoa, o que chamo sociedade. Não existe sociedade
sem essa relação entre duas pessoas; e antes
de podermos falar de independência, de agitar bandeiras,
e tudo o mais, cumpre-nos compreender a vida de relação,
o que significa que devemos exa minar a nós mesmos
em nossas relações com os outros.
Ora, se examinamos a nossa, vida,
as nossas relações com os outros, veremos
que são um processo de isolamento. Na realidade
não nos importamos com os outros. Embora falemos
muito a tal, respeito, o fato é que não
nos importamos. Vivemos em relação com alguém
só enquanto essa relação nos satisfaz,
enquanto nos proporciona um refúgio, enquanto nos
apraz. Mas, no momento em que ocorre em nossas relações
uma perturbação que gera desconforto em
nós, abandonamos essas relações.
Por outras palavras, só existem relações,
enquanto nos dão prazer. Pode parecer severo isso,
mas se realmente examinardes, com muita atenção
a vossa vida, vereis que é um fato; e evitar um
fato é viver na ignorância, e isso nunca
produzirá relações adequadas. Assim,
se examinamos as nossas vidas e observamos as nossas relações,
vemos que elas constituem um processo em que levantamos
resistência uns contra os outros, em que erguemos
uma muralha, por cima da qual olhamos e observamos os
outros; mas conservamos sempre a muralha e permanecemos
atrás dela, quer seja uma muralha psicológica,
quer seja uma muralha material, uma muralha econômica,
uma muralha nacional. Enquanto vivemos no isolamento,
não há relações com outra
pessoa; e vivemos fechados, porquanto isso nos dá
muito mais satisfação, porque pensamos que
é muito mais seguro. O mundo está tão
cheio de divisão, há tanta aflição,
tanta dor, tanta guerra, destruição, miséria,
que desejamos fugir e viver dentro das seguras muralhas
do nosso ser psicológico. Nessas condições,
a vida de relação, para a maioria de nós,
é deveras um processo de isolamento e é
bem claro que tais relações hão de
constituir uma sociedade também tendente ao isolamento.
É isso mesmo que está acontecendo no mundo
inteiro: permaneceis em vosso isolamento e estendeis a
mão por cima da muralha, chamando a isso nacionalidade,
fraternidade, ou o que quiserdes; mas o fato é
que continuam a existir os governos soberanos e os exércitos.
Isto é, apegados às vossas próprias
limitações, pensais criar a unidade mundial,
a paz mundial — o que é impossível.
Enquanto tiverdes uma fronteira nacional, econômica,
religiosa, ou social, é óbvio que não
ha verá paz no mundo.
Ora bem: o processo de isolamento
é um processo de busca de poder e, quer desejemos
o poder para nós mesmos, quer o desejemos para
um grupo nacional ou racial, haverá isolamento
pois o próprio desejo de poder, de posição,
significa separatismo. Afinal de contas é isso
o que deseja cada um de nós, não é
verdade? Cada um deseja uma posição poderosa,
na qual possa exercer domínio, seja no lar, seja
no escritório, seja num regime burocrático.
Cada um busca o poder, e conseqüentemente há
de fundar uma sociedade baseada no poder — militar,
industrial, econômico, etc .— o que também
é óbvio. O desejo de poder não gera,
por sua própria natureza, o isolamento? Julgo muito
importante compreender isso; porque, se desejamos um mundo
pacífico, um mundo sem guerras, sem destruição
aterradora, sem aflições catastróficas,
numa escala imensurável, temos de compreender essa
questão fundamental, não achais? Enquanto
o indivíduo busca o poder, seja em grande escala,
seja em pequena escala, quer como Primeiro Ministro, como
governante, como advogado, quer como simples marido ou
esposa, no lar, isto é, enquanto houver o espírito
de domínio, o espírito de compulsão,
o espírito de aquisição de poder,
influência, não podeis deixar de criar uma
sociedade que é o resultado de um processo de isolamento,
porquanto o poder, por sua própria natureza, é
um fator de separação. O homem afetuoso,
bondoso, não tem o espírito do poder, e
por conseguinte não está ligado a nenhuma
nacionalidade, a nenhuma bandeira. Mas o homem em busca
do poder, sob qualquer forma que seja, quer derivado da
burocracia, quer da auto-projeção que ele
chama Deus, continua preso a um processo de isolamento.
Se examinardes muito atentamente esta questão,
vereis que o desejo de poder, por sua própria natureza,
é um processo de enclausuramento. Cada um está
interessado na própria posição, na
própria segurança, e enquanto existir esse
impulso a sociedade tem de estar baseada num processo
de isolamento. Sempre que existe a busca do poder há
o processo de isolamento, e aquilo que vive isolado cria
necessariamente o conflito. É isso mesmo que está
acontecendo no mundo inteiro: cada grupo ambiciona o poder
e está, com isso, isolando a si mesmo. Tal é
o processo do nacionalismo, do patriotismo, que leva,
afinal, à guerra e à destruição.
Ora bem; sem relações
não há possibilidade de existência;
e enquanto as relações estiverem baseadas
no poder, haverá o processo de isolamento, que
inevitavelmente gera conflito. Não há coisa
tal como viver no isolamento: nenhum país, nenhum
povo, nenhum indivíduo pode viver em isolamento;
todavia, porque viveis em busca do poder, por tantas maneiras
diferentes, criais o isolamento. O nacionalista é
uma maldição, porquanto, em virtude do seu
espírito nacionalista, patriótico, está
levantando urna muralha de isolamento. Tão identificado
está com a sua nação, que ergue uma
muralha contra outra nação. E que acontece,
senhores, quando levantamos uma muralha contra alguma
coisa? Esta coisa fica constantemente a chocar-se contra
a muralha. Quando resistis a alguma coisa, a vossa resistência
é uma indicação de que estais em
conflito com essa coisa. Está visto, pois, que
o nacionalismo, que é um processo de isolamento,
que é o resultado da busca do poder, não
pode implantar a paz no mundo. O homem que é nacionalista
e fala de fraternidade está mentindo, está
vivendo em estado de contradição.
Ora, a paz é essencial no mundo,
pois, do contrário, seremos destruídos.
Uns poucos escaparão, mas haverá uma destruição
sem paralelo, a menos que resolvamos o problema da paz.
A paz não é um ideal. Todo ideal, como já
vimos, é fictício. O que é real tem
de ser compreendido, e essa compreensão do real
é impedida pela ficção a que chamamos
ideal. O fato real é que cada um está em
busca do poder, de títulos, de posições
de mando, etc. — sendo tudo isso disfarçado,
de várias maneiras, com palavras bem intencionadas.
Esse problema é vital, não é um problema
teórico, não é um problema susceptível
de adiamento: ele exige ação imediata, pois
é bem evidente que a catástrofe se aproxima.
Se ela não vier amanhã, virá no ano
próximo, ou um pouco mais tarde, porque o impulso
do processo de isolamento já existe. E todo aquele
que medita sobre isso tem de atacar a raiz do problema,
que é a busca individual de poder, que cria o grupo,
a raça, a nação, todos ambiciosos
de poder.
Ora, pode uma pessoa viver no mundo
sem o desejo de poder, de posição, de autoridade?
Pode, é claro. Uma pessoa o faz, quando não
se identifica com algo maior do que ela. Esta identificação
com algo maior — o partido, a nação,
a raça, a religião, Deus — é
o desejo de poder. Porque, em vós mesmos, sois
vazios, inertes, fracos, gostais de identificar-vos com
algo que seja maior do que vós. Esse desejo de
vos identificardes com urna coisa maior é o desejo
de poder. Eis porque o nacionalismo ou qualquer espírito
comunalista representa uma maldição tão
grande no mundo; é sempre o desejo de poder. Assim,
o que mais importa, para a compreensão da vida,
e portanto das relações, é descobrir
o motivo que impele cada um de nós; pois o que
esse motivo é, o ambiente também é.
Esse motivo produz paz ou destruição no
mundo. É por conseguinte de grande importância
que cada um de nós fique cônscio de que o
mundo está em estado de aflição e
destruição e compreenda que, se consciente
ou inconscientemente, estamos em busca do poder, estamos
contribuindo para a destruição e, logo,
nossas relações com a sociedade serão
um constante processo de conflito. Há múltiplas
formas de poder: ele não significa apenas a aquisição
de posição, e de riquezas. O próprio
desejo de sermos alguma coisa é uma forma de poder,
que acarreta isolamento e, portanto conflito; e, a não
ser que cada um compreenda o motivo, a intenção
de suas ações, a mera legislação
governamental é de mui pouca valia, por quanto
o interior sempre há de superar o exterior. Podeis
levantar exteriormente uma estrutura pacífica,
mas os homens que a dirigirem a alterarão de acordo
com sua intenção. Eis porque muito importa
àqueles que desejam criar uma nova civilização,
uma nova sociedade, um novo estado, eis porque muito importa
que compreendam primeiro a si mesmos. Ao tornar-nos cônscios
de nós mesmos, dos nossos vários movimentos
e flutuações interiores, compreenderemos
os motivos, as intenções, os perigos que
jazem ocultos; e só nesse percebimento há
transformação. A regeneração
só poderá vir quando cessar a busca de poder;
e só então poderemos criar uma nova civilização,
uma sociedade não baseada no conflito, mas na compreensão.
A vida de relação é um processo de
auto-revelação, e se, sem compreendermos
a nós mesmos, as tendências da nossa mente
e de nosso coração, tratamos de estabelecer
uma ordem externa, um sistema externo, uma fórmula
astuciosa, isso tem muito pouco valor. Assim, o que importa
é compreendermos a nós mesmos em nossas
relações com os outros. As relações,
nesse caso, se tornam, não um processo de isolamento,
mas um movimento no qual descobrimos os nossos próprios
motivos, nossos próprios pensamentos, nossos próprios
interesses; e esse mesmo descobrimento é o começo
da libertação, da transformação.
Ê só essa transformação imediata
que pode produzir, no mundo, a revolução
fundamental, radical que se torna tão premente.
Uma revolução dentro das muralhas de isolamento,
não é revolução. A verdadeira
revolução só será possível
depois de destruirdes as muralhas de isolamento, e isso
só ocorrerá quando não mais estiverdes
em busca de poder.
Krishnamurti – 15 de agosto
de 1948
Do livro: Novo Acesso á Vida – ICK
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