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"Nós não precisamos
de educação.
Nós não precisamos de controle da mente.
Sem ironia em sala de aula.
Professores, deixem esses garotos em paz.
No final, é só mais um tijolo no muro"
Trecho da música The Wall, de Roger Waters (Pink
Floyd)
Seria um educador
realizado se formasse um lixeiro feliz, em vez de um primeiro-ministro
neurótico." Com essas palavras, o escocês
Alexander Sutherland Neill resume a essência da
legendária escola Summerhill, fundada por ele em
1924. Neill acreditava na educação como
meio de formar indivíduos felizes. Nascido em 1883,
ele desenvolveu idéias e experiências que,
até hoje, causam espanto e são difíceis
de serem absorvidas pela sociedade.
Forçado
pelos pais a estudar e trabalhar, o criador dessa revolucionária
escola tentou ser auxiliar de escritório, entregador
de pacotes e acabou como professor. Suas idéias
libertárias logo colocaram-no em conflito com os
pensamentos vigentes. Em 1921, Neill decidiu colocar suas
idéias em prática. Em Dresden (Alemanha),
abriu a Escola Internacional, junto de outros com quem
criou afinidades em sua carreira de educador. Em 1924,
dificuldades financeiras e conflitos políticos
– autoridades exigiam o ensino religioso –
expulsaram a escola da Alemanha. Então, a escola
foi para a Inglaterra, numa casa do século XIX
chamada Summerhill (as construções vitorianas
inglesas recebiam nomes), em East Suffolk, a mais de três
horas de Londres. Cerca de 70 alunos – ingleses,
japoneses, alemães, mexicanos, norte-americanos,
africanos, australianos e europeus – pagam aproximadamente
US$ 15 mil por ano para estudar lá. A escola tem
teatro, bar, quadras esportivas, laboratório fotográfico,
biblioteca, piscina, dormitórios e algumas casas.
Em regime de semi-internato, os próprios estudantes
desenvolvem uma gestão democrática. Exceto
pela contratação e demissão de professores,
pelo funcionamento da cozinha e pelas normas de segurança
do prédio, tudo o mais é decidido em assembléias,
pelos residentes da Summerhill. Drogas são proibidas,
inclusive álcool. A justificativa é que
há uma lei nacional. Até mesmo castigos
são decididos coletivamente e, de tão variados,
são imprevisíveis. Por exemplo, uma vez
uma assembléia foi solicitada porque um garoto
usou a bicicleta de outro sem permissão. Como o
primeiro não tinha sua própria bicicleta,
decidiu-se ratear uma nova para o "infrator".
Um dos eventos
mais marcantes na trajetória do fundador foi conhecer,
em 1917, a Little Commonwealth, uma escola reformatório
autogerida pelos internos, jovens que supostamente haviam
cometido delitos. Homer Lane, o superintendente, era um
psicanalista norte-americano com experiência no
método de autogestão. Suas idéias
influenciaram Neill a ponto de ele pesquisar e incorporar
traços da psicanálise em seus estudos e
práticas educacionais. Outra figura influente foi
Wilhelm Reich, amigo de décadas e também
psicanalista. Há um forte elo entre a experiência
de Neil e a aposta de Reich na substituição
da família burguesa por uma educação
coletivista e um tipo de vida comunitário. Apesar
disso, até os críticos reconhecem que Neill
nunca se limitou a meras cópias do que aprendia;
era criador e original em suas iniciativas. As metas em
Summerhill divergem diametralmente do comum: permitir
o crescimento emocional da criança; dar a ela poder
sobre sua vida; dar tempo para ela se desenvolver naturalmente;
e criar uma infância mais feliz ao remover o medo
e a repressão dos adultos. Só o próprio
aluno busca o conhecimento.
Impulsionado
pela efervescente década de 60, o livro Summerhill:
Uma Abordagem Radical na Educação da Criança,
edição revisada das obras anteriores de
Neill, foi um sucesso e, em dez anos, vendeu mais de 2
milhões de exemplares. Suas idéias finalmente
encontravam maior eco na convulsiva sociedade da época.
Hippies em todo o mundo viviam ideais coletivos e de negação
do status quo, em casas abandonadas, acampamentos, festivais,
movimentos e na vida acadêmica. Depoimentos de ex-summer-hillianos
ressaltam a disciplina e o caráter libertário
adquiridos na escola. Eles hesitam em colocar os próprios
filhos lá – principalmente por causa da localização
isolada e do regime de semi-internato. Mas reconhecem
uma profunda influência em suas vidas. Muitos testaram
várias carreiras antes de se estabelecerem, seguiram
profissões alternativas, desde artistas a donos
de lava-rápido automotivo. Neil rebatia prontamente
as críticas ao livre desenvolvimento intelectual:
"As pessoas estão sempre me dizendo: ‘Mas
como você vai libertar as crianças de adaptarem-se
à servidão da vida?’ Eu espero que
estas crianças livres sejam as pioneiras na abolição
da servidão da vida."
Tony Blair,
primeiro-ministro britânico, que prometeu reformar
o ensino no país, já ameaçou tirar
o registro oficial da escola várias vezes, desde
1997. A liberdade sexual aumenta o coro de indignação
contra Summerhill. Zöe Readhead, atual administradora
e filha de Neill, é categórica ao afirmar
a incapacidade dos inspetores da Rainha: "É
como se um bando de ateus fosse escolhido para avaliar
uma cerimônia religiosa." Para Neill, a educação
tinha uma função redentora: a de exacerbar
a individualidade e salvar as pessoas de se tornarem tijolos
para a velha parede do sistema.
Faoze Chibli
Fonte: Revista
Educação, Edicação 72
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