| KRISHNAMURTI: Qual é
a função da educação? Nós
somos educados? Porque mandais os vossos
filhos à escola? Tende a bondade de pensar —
pensemos juntos. Aqui também uma revolução
se impõe na maneira de resolver o problema.
Qual é a função da educação?
Não é a de preparar o estudante, o jovem
ou a jovem, para enfrentar a vida, para viver sem temor?
Meu espírito está nublado pelo temor, quando
há competição. Há temor quando
não sei enfrentar este vasto e complexo problema
do viver. Há temor quando sou ambicioso. O homem
feliz não é ambicioso, e só os ambiciosos
são infelizes. A função da educação,
pois, não é a de ajudar o estudante, para
que cresça sem temor e possa enfrentar a vida inteligentemente,
e não de acordo com a vossa inteligência,
ou a minha inteligência, não de acordo com
vossas idiossincrasias ou vossa condição
religiosa, política ou econômica; para que
cresça plenamente, integralmente, como um ente
humano completo?
O interrogante pergunta: “como é possível
educar uma criança, um jovem, um estudante, sem
alguma forma de disciplina?” Qual é a finalidade
da disciplina, para os velhos ou para os jovens? Porque
nos disciplinamos, por imposição de outros
ou de nós mesmos? Porque disciplinamos as crianças?
Qual é a função da disciplina numa
escola? Sois pais, felizmente ou infelizmente, e deveis
sabê-lo. Qual é na vida, a função
da disciplina? Disciplina não é o cultivo
da resistência? A disciplina implica resistência,
e a resistência produz o medo, não é
verdade? Vede: tendes uma grande classe de alunos, uns
quarenta ou sessenta. Como manter a ordem num grupo tão
grande? Não é possível. Por isso
recorreis à disciplina. Não estais interessados
na educação; interessa-vos, tão-somente
transmitir aos jovens certos conhecimentos, para que passem
nos exames e obtenham empregos, e é só nisso
que os pais estão interessados. Os pais não
estão interessados na educação, e,
para a maioria de nós, a educação
está terminada depois de passarmos em todos os
exames. Após isso, provavelmente nenhum de nós
abre mais um livro. E se não abrimos, paramos também
de pensar. — Vós vos consumistes inteiramente
e estais vivendo automaticamente. Nessas condições,
para compreendermos qual a função da educação,
não é importante averiguarmos como se pode
educar um estudante, um jovem, sem coerção,
sem persuasão, sem o disciplinarmos, para que ele
possa funcionar como um ente humano? Isso requer naturalmente
uma escola muito pequena, uma classe pequena dirigida
por mestres capazes de compreender o “processo”
que faz nascer aquela inteligência, sem se recorrer
à compulsão, sem a perene competição
das notas e dos exames — sem esse processo em que
o indivíduo se consome para os odiosos exames.
Senhores, vós credes nas almas; credes no progresso
individual; e credes em tudo o mais; no entanto, fazeis
exatamente o contrário, não é verdade?
Impõe-se, pois, uma revolução total
em nossa educação. Um jovem ou estudante
não necessita só de conhecimento técnico
para habilitar-se a obter emprego; requer-se algo mais,
algo diferente: um ente humano, um ente humano integrado
— e não um ente humano com uma constante
batalha interior; um ente humano capaz de criar. Não
se pode ser criador quando se está em competição.
Não se pode ver a Realidade, se temos medo; e,
em todas as coisas que estamos fazendo, em nossa educação,
em nossa atividade política, em nossa obediência
aos vários gurus que seguimos,
etc., nisso tudo há temor, e não há
criação nem felicidade, mas só inquietação
interior. Como podem tais indivíduos criar um mundo
novo e uma nova existência? Eis tudo o que a questão
da educação sugere; e o mestre, o educador
que não compreende tudo isso, recorrerá
naturalmente a disciplina, por ser o meio mais fácil
de controlar um grupo numeroso. Visto estarem os governos
tão-somente interessados na educação
em massa, a educação que conheceis impede
a revolução, não é verdade?
Sois muito bem educados, não sois? Sabeis ler,
escrever, e ler os jornais matutinos. Nunca vos rebelareis,
porque estais sempre a ver tantas facetas, que não
podeis descobrir o que é verdadeiro. Por conseguinte
para se inaugurar a educação correta, que
requer uma revolução por parte do pai, por
parte do mestre, necessita-se uma compreensão completa
deste nosso problema de sabermos o que é um ente
humano integrado — o que não requer uma definição,
mas uma constante investigação desse todo
integral. Essa investigação naturalmente
começa quando estamos livres do temor, das bases
psicológicas do temor, dos temores conscientes
e inconscientes. A libertação mental do
temor é meditação.
Krishnamurti – 19 de dezembro de 1953
Do livro: O Problema da Revolução Total
– Editora ICK
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