EU NÃO POSSO CRESCER!?
Hilda Kemp
CRP-SP 06/59255-6

Amanda era uma menina de seis anos que morava num bairro da capital de São Paulo e como a maioria das crianças de sua idade, gostava de brincar de bonecas, correr, pular corda, questionar e aprender.

Era costume entre os moradores de sua rua, as crianças brincarem nas casas de vizinhos e acabarem não percebendo o tempo passar e assim sendo, era comum serem convidadas para o almoço ou lanche da tarde, dependendo do horário.

Certo dia Amanda estava na casa de sua amiguinha Débora e quando a sua mãe (dela) a convidou para o almoço, foi com grande alegria que ligou para sua casa avisando e pedindo permissão, que felizmente foi concedida e, após terem lavado as mãos, as duas meninas se colocaram à mesa, esperando por suas refeições. Assim que a mãe de Débora, dona Wilma colocou a comida em seus pratos, disse o que a maioria das mães costuma dizer a seus filhos nessas horas:

- “É para comerem tudo, para crescerem e ficarem fortes e bonitas”, ao que a Amanda respondeu:

- “Mas tia, eu não posso comer tudo, porque eu não posso crescer!”

Naquele momento D. Wilma questionou:

- “Nossa Amanda! O que a faz pensar que você não pode crescer? De onde você tirou essa idéia?

E Amanda então respondeu:

- “É que outro dia, quando minha mãe estava me trocando, disse que eu não paro de crescer e que ela terá que comprar roupas novas outra vez. Então eu sei que ela não quer que eu cresça mais, para ela não ter que comprar roupas novamente e gastar mais dinheiro!

Naquele momento a mãe de Débora falou para Amanda que deveria ser um problema de má interpretação e que ela mesma duvidava de que D. Ana, mãe de Amanda, tivesse aquela intenção, mesmo porque D. Wilma a conhecia e sabia da dedicação dela para com a filha. Assim que pode falou com a vizinha a respeito do ocorrido e posteriormente, numa conversa franca, mãe e filha esclareceram o fato.

Amanda entendeu então que sua mãe só tinha feito um comentário quanto ao seu crescimento, não sabendo que isso estaria prejudicando a filha.

Este relato nos leva a refletir sobre o fato de que muitas vezes nós, adultos, não damos conta do que estamos falando, como estamos falando e como podemos influenciar uma pessoa e principalmente, uma criança, tanto positiva, quanto negativamente.

Somos levados a refletir também sobre o quanto fomos influenciados no passado, por pessoas que falaram com ou sem intenção, mas que marcaram profundamente nossas experiências, a ponto de nos bloquearem em alguns aspectos de nossas vidas.

Podemos dizer que hoje Amanda é uma jovem de 23 anos, mede 1,69 m, está cursando uma universidade, namora, mora com os pais e não é nada diferente de outras meninas de sua idade que procuram um lugar ao sol.

Podemos, constantemente, rever nossas crenças, nossos valores e questionar se realmente são nossos, ou se foram sugeridos ou impostos por pessoas significativas do nosso convívio, como familiares, amigos, professores entre outros.

Nem todos têm a sorte de, como Amanda, encontrarem pessoas como D. Wilma, que teve a sensibilidade de perceber uma situação e poder revertê-la, mas sempre é tempo de novas descobertas e é aqui que entra o papel do psicólogo, como elemento auxiliador no processo do seu desenvolvimento pessoal, pois é através do autoconhecimento que podemos crescer interiormente, perceber nossos limites e potencialidade, superar obstáculos, vencer desafios, resignificar experiências, conseguindo assim, melhor qualidade de vida.

Hilda Kemp

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