Interessam-se realmente por isso? Suponho
que sim, pois, de outro modo, não fariam a pergunta. Mas,
um momento: por que perguntam se existe uma vida futura? Só por
divertimento, curiosidade, porque estão atemorizados com o
presente e, portanto, pretendem saber qual será o futuro,
ou simplesmente para aprender? Ora, sabem que alguns cientistas modernos,
bem conhecidos, estão
afirmando que existe uma vida futura. Dizem eles que, através
de médiuns, podemos descobrir que existe uma vida após
a morte. Muito bem, tomemos isso como decidido, que ela existe. Que
acontece se existir uma vida futura? Que fizeram ao descobrir que
existe uma vida futura? Não são, por isso, nem mais
felizes nem mais inteligentes nem mais humanos nem mais sensatos
nem afetuosos. Estão onde sempre estiveram. Tudo que aprenderam
foi outro fato - o de que existe uma vida depois desta. Isso pode
ser um consolo, mas o que resulta daí? Dirão: "Isso
me dá a certeza de que viverei na próxima vida".
Mais uma vez: o que decorre daí? Mesmo que isso lhes dê a
certeza de que viverão, defrontam-se ainda com os mesmos problemas,
os mesmos aborrecimentos, as mesmas alegrias e prazeres transitórios,
não obstante exista outra vida. Para mim, embora ela seja
um fato, é de pouca importância. Senhor, a imortalidade
não está no futuro; a imortalidade, a eternidade, ou
como queiram chamá-la, está no agora, no presente,
e só poderão compreender o presente quando a mente
estiver liberta do tempo.
Receio tornar-me, agora, um tanto metafísico,
mas espero que não se incomodem. E não é, realmente,
ser metafísico.
Enquanto a mente for escrava do tempo, tem de haver o temor da morte,
o temor e a esperança de uma vida futura e uma constante investigação
do problema. Isso significa que, enquanto houver temor, haverá uma
lenta decadência, uma morte lenta, embora continuem vivos.
A própria indagação quanto ao futuro evidencia
que já estão morrendo. Para viver completamente, para
viver na plenitude do presente, no eterno agora, a mente precisa
estar liberta do tempo. Não é assim? Não
estou usando essa palavra na acepção comum, no sentido
de tomar um navio ou um trem na data marcada etc.; estou empregando
a palavra com o significado de memória. Se, a cada manhã,
nascessem de novo, renovados, sem as lembranças de ontem,
sem os fardos nem a carga do passado, então cada dia seria
novo, cheio de vida, simples e, no viver assim, estariam libertos
do tempo. Isso quer dizer que a mente se tornou um armazém
da memória atormentada pelo passado, sobrecarregada das incontáveis
experiências que já realizamos.
Espero que, por favor,
pensem comigo sobre tudo isso, pois, do contrário,
nada compreenderão. O que acontece com o fardo do passado,
com a carga das inúmeras recordações é que
enfrentamos cada nova experiência, cada novo pensamento, cada
novo ambiente, cada novo dia sobrecarregados com o cenário
do passado; é assim que defrontamos o presente. Não é isso? Se
são cristãos, têm como base a mente cristã,
os dogmas cristãos, as crenças e tradições
cristãs e tentam enfrentar a vida com tais idéias.
Se forem socialistas ou qualquer outro tipo de pessoa, terão
certos preconceitos, certas idéias, certos dogmas bem definidos
e encararão a vida com esse fundo, com esses óculos.
Assim, pois, estão continuamente enfrentando o presente com
o fundo do passado e, por isso, não compreendem o presente.
Essa permanente incapacidade de compreensão cria a memória
e produz o acúmulo e a intensificação da memória;
daí, o desejo de saberem se voltarão a viver na próxima
vida. Se, no entanto, olharem tudo que é novo com mente não
infeccionada, com mente não sobrecarregada pela possessividade
do passado nem com a perspectiva do futuro, verão que não
existe essa coisa de morte, verão que não há mais
temor. A vida, então, se tornará um êxtase contínuo
e, não, uma luta terrível, pavorosa; para isso, porém,
precisamos estar muito alerta, conscientes do pensamento, com a mente
e o coração no presente.
Receio que o interrogante esteja
desapontado. Ele deseja saber se há ou não há -
quer uma resposta categórica:
sim ou não. Lamento não haver resposta categórica
para dar. Cuidado com as respostas categóricas - sim e
não. Não será, na realidade, mais importante
saber viver do que verificar o que acontece quando se morre? Só aquele
que já está morrendo é que quer saber o que
acontece após a morte; não, aquele que está vivo.
Perguntemos e procuremos, portanto, como viver ricamente, humanamente,
completamente, divinamente em vez de tentar averiguar o que está para
além. Saberão, depois, o que está para além,
quando souberem como viver supremamente, inteligentemente. Só então
saberão o que está para além. Mas essa descoberta,
então, não será uma coisa teórica; será um
fato.
Ai, então, vão descobrir que isso tem muito pouca
significação,
pois não existe além. A vida é um todo completo,
sem começo nem fim. É esse êxtase, essa sabedoria,
que produz a plenitude do viver no presente.
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