Esta é a
semana dos namorados, mas não vou falar sobre ursinhos de
pelúcia nem sobre bombons. É o momento ideal pra falar
de sacanagem.
Se dei a impressão de que o assunto será
ménages à trois, sexo selvagem e práticas perversas,
sinto muito desiludí-lo. Pretendo, sim, é falar das
sacanagens que fizeram com a gente.
Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor
pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não contaram pra nós que amor não é
racionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós
é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido
quando encontramos a outra metade. Não contaram que já
nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar
nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente
cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia,
é só mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula
chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo
igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que
isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos
com personalidade própria é que poderemos ter uma
relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é
obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais
amados, que os que transam pouco são caretas, que os que
transam muito não são confiáveis, e que sempre
haverá um chinelo velho para um pé torto. Ninguém
nos disse que chinelos velhos também têm seu valor,
já que não nos machucam, e que existe mais cabeças
tortas do que pés.
Fizeram a gente acreditar que só há
uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam
dela estão condenados à marginalidade. Não
nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram
as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar
outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é
uma coisa natural, simples - só é ruim quando feito
sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem
a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito
à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas
por nós mesmos.
Martha Medeiros nasceu em 20 de agosto
de 1961 em Porto Alegre, onde vive até hoje. É formada
em Publicidade e Propaganda e trabalhou como redatora e diretora
de criação em várias agências da capital
gaúcha. Em 1993, deu um tempo e foi morar em Santiago do
Chile, onde passou 8 meses apenas escrevendo poesia. Já tinha,
nesta época, publicado 3 livros, o primeiro deles "Strip-Tease",
que saiu pela coleção Cantadas Literárias da
editora Brasiliense, de São Paulo.
Quando retornou ao Brasil, foi convidada a escrever
crônicas para o jornal Zero Hora, o que nunca havia feito.
Deu certo. Desde 1994 é titular de uma coluna no caderno
ZH Donna, que circula aos domingos, e de outra coluna que circula
às quartas-feiras, na página 3 do jornal. Desde 1998
escreve uma coluna semanal para o site Almas Gêmeas e é
colaboradora também da revista Viagem e da revista Claudia,
ambas da editora Abril.
Hoje, Martha tem 14 livros publicados, sendo
que o seu maior sucesso literário é o livro de crônicas
"Trem-Bala", que foi adaptado com êxito para o teatro,
sob direção de Irene Brietzke. Entre outros livros
estão "Topless", "Poesia Reunida", "Cartas
Extraviadas e Outros Poemas" e "Montanha-Russa",
editados pela L&PM (www.lpm.com.br) e "Divã",
lançado pela editora Objetiva. Martha adoraria morar um tempo
em Londres, gosta de dirigir, de cinema, de shows de rock, de ler
livros, de vinho tinto e de bordar tapetes. É casada e tem
duas filhas.