FIZERAM A GENTE ACREDITAR!

Martha Medeiros

Esta é a semana dos namorados, mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons. É o momento ideal pra falar de sacanagem.

Se dei a impressão de que o assunto será ménages à trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludí-lo. Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é racionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existe mais cabeças tortas do que pés.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.

Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples - só é ruim quando feito sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

Martha Medeiros
Fonte:
http://www.terra.com.br/almas/martha/conheca_martha.htm


Martha Medeiros nasceu em 20 de agosto de 1961 em Porto Alegre, onde vive até hoje. É formada em Publicidade e Propaganda e trabalhou como redatora e diretora de criação em várias agências da capital gaúcha. Em 1993, deu um tempo e foi morar em Santiago do Chile, onde passou 8 meses apenas escrevendo poesia. Já tinha, nesta época, publicado 3 livros, o primeiro deles "Strip-Tease", que saiu pela coleção Cantadas Literárias da editora Brasiliense, de São Paulo.

Quando retornou ao Brasil, foi convidada a escrever crônicas para o jornal Zero Hora, o que nunca havia feito. Deu certo. Desde 1994 é titular de uma coluna no caderno ZH Donna, que circula aos domingos, e de outra coluna que circula às quartas-feiras, na página 3 do jornal. Desde 1998 escreve uma coluna semanal para o site Almas Gêmeas e é colaboradora também da revista Viagem e da revista Claudia, ambas da editora Abril.

Hoje, Martha tem 14 livros publicados, sendo que o seu maior sucesso literário é o livro de crônicas "Trem-Bala", que foi adaptado com êxito para o teatro, sob direção de Irene Brietzke. Entre outros livros estão "Topless", "Poesia Reunida", "Cartas Extraviadas e Outros Poemas" e "Montanha-Russa", editados pela L&PM (www.lpm.com.br) e "Divã", lançado pela editora Objetiva. Martha adoraria morar um tempo em Londres, gosta de dirigir, de cinema, de shows de rock, de ler livros, de vinho tinto e de bordar tapetes. É casada e tem duas filhas.

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