| Escolas
que são gaiolas existem para que os pássaros
desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados
são pássaros sob controle. Engaiolados,
o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros
engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser
pássaros. Porque a essência dos pássaros
é o vôo.
Escolas que são asas não
amam pássaros engaiolados. O que elas amam são
os pássaros em vôo. Existem para dar aos
pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo,
isso elas não podem fazer, porque o vôo já
nasce dentro dos pássaros. O vôo não
pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um
sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo
grau, em escolas de periferia. O que elas contam são
relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria,
desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente,
pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a
burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa,
fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos,
vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados,
garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes,
fazendo ameaças fracas demais para a força
dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para
ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos?
O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não
podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a
mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância,
eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas
próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava
escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído
pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava
no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente
eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho
e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se
lançava furiosamente contra os arames, batia as
asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos.
Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço,
ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza
da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta
contra os arames da gaiola? Ou violenta será a
imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes
de periferia? Ou serão as escolas que são
violentas? As escolas serão gaiolas? Vão
me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os
adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem
de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes,
que todos, tenham uma boa educação. Uma
boa educação abre os caminhos de uma vida
melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando
uma boa educação? O que é uma boa
educação?
O que os burocratas pressupõe
sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação
se aprendem os conteúdos dos programas oficiais.
E, para testar a qualidade da educação,
criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos
dos novos exames elaborados pelo Ministério da
Educação.
Mas será mesmo? Será
que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica
com o ideal de uma boa educação? Você
sabe o que é "dígrafo"? E os usos
da partícula "se"? E o nome das enzimas
que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram
do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico
o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra
"mesóclise"? Pobres professoras, também
engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os
programas mandam, sabendo que é inútil.
Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim
relata sua experiência com as escolas: "Fui
forçado (!) a estudar o que os professores haviam
decidido que eu deveria aprender. E aprender à
sua maneira".
O sujeito da educação
é o corpo, porque é nele que está
a vida. É o corpo que quer aprender para poder
viver. É ele que dá as ordens. A inteligência
é um instrumento do corpo cuja função
é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que
ela, a inteligência, era "ferramenta"
e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa
educacional do corpo: aprender "ferramentas",
aprender "brinquedos".
"Ferramentas" são
conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais
do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas
aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade
como ferramentas, dão prazer e alegria à
alma.
Nessas duas palavras, ferramentas
e brinquedos, está o resumo da educação.
Ferramentas e brinquedos não são gaiolas.
São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos
do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos
caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas
e brinquedos está aprendendo liberdade, não
fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim
todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso
que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?"
Se não for, é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam
o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados.
Esses dados não me dizem nada. Não me dizem
se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há
professores que amam o vôo dos seus alunos.
Há esperança...
Rubem Alves
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