Meus
avós maternos vieram da Calábria. A Calábria
é também conhecida como "o nordeste
italiano". Semelhante até no termo "calabrês
cabeça-chata".
Aos
15 anos eu ia para a aula de violão a pé.
Isso não representava qualquer ameaça. Freqüentemente
estava exposto a outros riscos muito maiores. O meu filho
de 14 anos hoje vai de bicicleta. Moramos numa pequena
cidade do sul de Minas. Por aqui as coisas ainda aparentam
uma certa tranqüilidade. Vamos ver até quando.
Minha
mãe dizia que aquilo que não se aprende
pelo amor, se aprende pela dor. Estava absolutamente correta.
O medo é a inquietação que experimentamos
diante de qualquer ameaça. No tempo dos nossos
avós a ameaça era apenas um presságio.
Hoje ela é real e iminente. Não provém
do mar ou de qualquer outra força da natureza,
mas de situações reais do nosso conturbado
dia-a-dia. A vida hoje vale muito menos do que naquele
tempo, e a ameaça é mais insidiosa. A violência
se transformou em banalidade. Nasce das gritantes desigualdades
sociais, do aumento progressivo das distâncias entre
as classes. Mais um pouco e retornamos à Idade
Média.
Paradoxalmente, o aperfeiçoamento
dos meios de comunicação distancia cada
vez mais os seres humanos. O medo - uma reação
normal e saudável do cérebro - hoje se tornou
patológico. Pudera, o medo como doença é
uma maneira que o cérebro encontra para preservar
sua integridade psíquica. E a rotina mental de
um cidadão comum nos tempos atuais é algo
só suportável aos insetos. Qualquer cérebro
com um mínimo de sensibilidade adoece. Excetuam-se,
é claro, aqueles indivíduos dotados de nervos
de aço e colhões de ferro. Seus cérebros
já estão por demais habituados aos raciocínios
elementares, aos cálculos triviais e rotineiros
do sistema financeiro. Tire-os fora disso e terá
criaturas tão desesperadas e desnorteadas como
bois selvagens sob o ataque de um enxame de abelhas africanas.
Haja vista o número de suicídios por ocasião
das falências. O criador se submete à criatura.
O mal não está no dinheiro, mas na grandeza
e no grau da importância que atribuímos a
ele.
As causas principais dos medos
e das angústias nos dias atuais estão nessa
mentalidade dominante, que incentiva a arrogância
tecnológica, a paixão financeira, o consumismo
exacerbado e a busca permanente da glorificação
pessoal. Que vincula a felicidade ao consumo de bens materiais
e prioriza a forma e a aparência em detrimento do
conteúdo. O pior fracasso atribuído ao ser
humano hoje é falhar na glorificação
de si mesmo e na conquista do prazer pessoal pela superação
dos demais. Para onde quer que se olhe, até nas
escolas, desde o ensino primário, há um
permanente incentivo à disputa, e uma eterna celebração
aos vitoriosos. Tive na vida, uma única professora
que me fez ver que estava ali para vencer a mim mesmo,
não aos demais. Mas acho que a imensa maioria dos
alunos nunca terá esse mesmo privilégio.
E ainda que o tenham, a pressão do meio os induzirá
a outros caminhos. Pais e professores também são
produtos do meio, e a visão subjetiva sobre a realidade
é miserável ou inexistente. O que prevalece
é a ilusão do coletivismo. E não
há a quem atribuir a grande culpa pelas tragédias,
nem ao Estado, nem à polícia ou a qualquer
outra instituição. As pequenas e as grandes
tragédias sociais não nascem do acaso. Elas
são antes pensadas, planejadas, cuidadosamente
preparadas nas mentes dos homens normais. Em maior ou
menor escala, cada um dos bilhões de homens e mulheres
normais sobre o planeta representa um dissimulado e eficiente
articulador da tragédia. E nem se dá conta
disso.
Fico, portanto, feliz, quando
vejo que meu filho está mais interessado em comprovar
as incríveis semelhanças entre o compositor
clássico Beethoven e a banda de rock Pink Floyd,
do que em tirar as maiores notas da turma, ou possuir
um celular ou um "tênis de marca", fabricado
com mão-de-obra infantil. Tenho tentado demonstrar
a ele, tal como o fez minha mãe, que é muito
mais fácil aprender pelo amor, e que a verdadeira
felicidade, o autêntico prazer em viver, está
nos diferentes, nas exceções às regras,
naqueles que já perceberam o quanto é leve,
generosa, alegre e gentil a "loucura". E é
tão gratuita quanto a luz do sol. A mesma loucura
que nós, seres comuns, também podemos viver,
livre e intensamente, tal e qual a viveram todas as grandes
almas que já passaram por aqui. Medo prá
quê?"
Afonso
do Carmo - Guaxupé/MG |