Entrevista concedida por Krishnamurti
ao escritor inglês Rom Landau, na cidade de Carmel, Estados
Unidos.
VI
Krishnamurti muito me havia falado durante
aquelas poucas horas passadas no alto da colina, e no caminho
de volta senti que seria conveniente digerir primeiro aquilo
tudo, sendo mais prudente ficar só durante o resto do
dia.
Li durante a tarde os folhetos que Krishnamurti
me havia dado e que tinham as suas últimas conferências
realizadas em Ojai e na Austrália. Se bem que neles encontrasse
muitas de suas convicções fundamentais, impressionaram-me
novamente as palavras que pronunciou diante de um auditório
australiano para explicar-lhe ser essencial eliminar o eu, o ego,
a fim de se descobrir a verdade. "A felicidade ou a verdade,
ou Deus não pode ser encontrado como uma conseqüência
do ego. Para mim, o ego nada mais é que o resultado do ambiente." Eu
me perguntava se os ouvintes, de um modo geral, teriam sido capazes
de apreender esta idéia. Não lhes fora sempre ensinado
que lhes cumpre desenvolver seu ego, sua personalidade, para que
lhes seja possível realizar qualquer coisa de importância
na vida? Não seria mais acertado se Krishnamurti fosse,
passo a passo, ensinando que só se encontra a percepção
interior gradualmente e depois de longa e demorada preparação?
Esta
foi minha primeira pergunta quando nos acomodamos na manhã seguinte
sob os pinheiros que dominavam o oceano. "Certa vez, a Sra.
Besant me disse o seguinte", respondeu Krishnamurti: "eu
nada mais sou que uma enfermeira que ajuda aqueles que não
sabem mover-se por si mesmos e que precisam de muletas. É isto
o que considero meu dever. Você, Krishnaji, se diriji àqueles
que não necessitam de muletas, que andam com os próprios
pés. Continue a falar-lhe, mas, por favor, deixe-me falar
aos que têm necessidade de auxilio. Não lhes diga
que todas as muletas são prejudiciais, pois alguns há que
não podem viver sem elas. Peço-lhe, não os
aconselhe a se recusarem a seguir aqueles sobre quem eles se podem
apoiar."
"Qual foi a sua resposta?", interrompi. "Creio
que o pedido da Sra. Besant era muito justo."
"Disse-lhe: “É impossível
fazer o que me pede. Considero muleta todo e qualquer método
ou conselho definido e, por conseguinte, uma barreira à verdade.
Tenho de continuar renegando todas as muletas - até a sua." Não
me condene por haver sido tão cruel
com uma mulher de oitenta anos, para quem julgo haver eu significado muito
e que sempre amei e admirei!".
"Percebo seu ponto de vista, Krishnaji;
não obstante, discordo
de sua justeza", disse eu. "A maioria das pessoas não são
independentes, nem conscientes de si próprias - e é por isso
que necessitam de auxílio. Sua atitude poderia ser considerada cruel.
Seu dever é, presumo, ajudar os outros, ajudar tantos quantos lhe seja
possível. Não significa isto que você deve levar em consideração
a imensa maioria das pessoas?"
"Não consigo distinguir entre maioria e minoria; é errôneo
presumir haver uma verdade para as massas e outra para os eleitos. Espiritualmente,
todos são iguais."
"Mas mesmo Jesus Cristo teve que diferençar. Primeiro, ele transmitiu
a sua mensagem a uma pequena minoria antes que ela se pudesse tornar
em propriedade pública."
"Terá realmente sido assim?
Ele transmitiu a todos que a queriam aceitar. Quer falasse diretamente a doze
ou a doze mil pessoas, isso é sem
importância. Falou sobre coisas universais que interessavam
a todos no mundo, fossem quais fossem suas características
raciais, religiosas, intelectuais ou sociais. Ele nunca se dirigiu
a apenas uma minoria.
"Mas não acha que seria mais acertado
preparar o povo lentamente para uma verdade que requer um absoluto
reajustamento interior? Só bem
poucas pessoas estão maduras para a necessária revolução
interna."
"Essas poucas importam. Aqueles que procuram
sinceramente a verdade, que a estudam sob todos os ângulos,
que a experimentam e se abrem para ela, não julgarão
difícil viver em constante vigilância
interior. Preparar os homens para isso seria uma concessão,
e uma concessão é um
acordo entre a verdade e a falsidade. Como pode esperar que eu
pregue a falsidade - não importa sob que forma - depois
de haver encontrado a verdade? Não sou um charlatão.
Só me interessa a verdade espiritual."
"Então,
que devem fazer aqueles que não sabem andar senão
de muletas?"
"Que continuem a usá-las - eu nada
tenho com isso. Quem necessita de sanatório não deve
vir a mim." Krishnamurti chegou-se
mais para perto de mim e tomou-me a mão como costumava fazer
quando se sentia desanimado ante minha incapacidade para compreender
seu modo de ver: "Você precisa
compreender que só posso dirigir-me às pessoas que
desejam transformar-se para encontrar a verdade. Não é por
meio de um regime em ocasional especial ou por um sistema complicado
de exercícios mentais que encontraremos
a verdade."
Começava a compreender que nenhum meio-termo
era possível
e que Krishnamurti só podia oferecer a verdade com todas
as suas conseqüências revolucionárias, ou nada
mais. Apesar disso, acrescentei: "Creio que você tem
razão; ainda assim, pergunto a mim mesma: Como é possível
comunicar às massas a verdade tal como a concebe?"
Estampou-se
na fisionomia de Krishnamurti aquela mesma expressão
de tristeza que eu já notara anteriormente ao falar-lhe
sobre aquele ponto. Começou lentamente, como se falasse
consigo próprio: "Eu mesmo, muitas vezes, me pergunto:
Como? Quando falo na Índia, mais de dez mil pessoas vêm
ouvir-me. Milhares vêm ouvir-me na América - outro
tanto na Europa - e na Austrália (1). Sei que a maioria
vem simplesmente por curiosidade ou para distrair-se, sendo pequeno
o número daqueles que procuram algo ainda não descoberto
em parte alguma. Quantos voltarão mais felizes, enriquecidos?...
E, ainda assim, sei que devo continuar com as minhas palestras.
Só Podemos ajudar os outros falando-lhes, discutindo com
eles a verdade" Parou durante algum tempo, voltando-se depois
para mim: "Como sabe, abomino a idéia de disciplina
e toda a futilidade do que se chama uma sociedade espiritual; não
obstante, penso, às vezes, que talvez devesse preparar alguns
poucos auxiliares, a fim de esclarecerem os que não me ouvem
por causa de minha antiga notoriedade de "Messias". Eles
ouviriam os meus "discípulos" que não teriam
um passado para apagar. Confesso ser-me pesaroso não poder
ajudar tantas pessoas quanto gostaria."
Levantamo-nos e Krishnamurti
insistiu em levar-me até a
meio caminho de meu hotel. O mar se estendia embaixo da estrada íngreme;
de um lado, via-se um jardim particular cheio de flores vermelhas,
azuis e amarelas e de árvores de mimosas cobertas de folhudos
cachos de flores douradas. Além do jardim, os morros subiam
diretamente para o céu. Embora o sol brilhasse, uma ligeira
névoa cobria o mar. Novembro se aproximava, mas a luz, o
calor e a vegetação sugeriam julho. Ao chegarmos
ao meio da estrada separamo-nos; segui a pé pela costa,
subindo Krishnamurti a montanha. Olhei para trás depois
de um minuto e o vi andando lentamente; tinha a cabeça caída,
bem como os ombros, que pareciam mais estreitos do que nunca. Tive
um desejo enorme de voltar e dizer-lhe ainda alguma coisa, mas
não o fiz.
(1)No verão de 1935 recebi uma carta
de Krishnamurti do Rio de Janeiro, na qual escrevia: "Fiz
aqui duas conferências
num estádio de futebol por não haver um teatro
tão grande que contivesse a multidão. De ambas
as vezes, vinte mil pessoas assistiram a suas conferências.