Entrevista concedida por Krishnamurti
ao escritor inglês Rom Landau, na cidade de Carmel, Estados
Unidos.
VII
Que efeito tinha a mensagem de Krishnamurti sobre as pessoas que
para ela não haviam sido preparadas adequadamente, ou que
não haviam tido a sorte de poder conversar diariamente com
ele? Eu ficava a imaginar se eles não achariam grande dificuldade
para compreender a sua mensagem, se não considerariam a tarefa
além de suas forças. Havia chegado o momento de conhecer
algo sobre as reações de outras pessoas.
Carmel parecia particularmente propício a isso. Já não
havia apenas esses americanos médios que reagiriam diante
da mensagem de Krishnamurti de maneira comum, isto é, emotiva
e não criticamente, mas também pessoas bem capazes
de compreendê-la e criticá-la. Carmel não era
o que se poderia chamar de "colônia". Não
era a ilha de Capri dos romancistas ingleses - e dos "maníacos" religiosos
russos; não era a Positano indefesa sobre a qual se abateram
logo depois da guerra bordas de pintores alemães e norte-americanos;
não era a Ascona suíça, na qual os sonhadores
alemães adoravam muitos e diferentes deuses; nem era mesmo
uma daquelas aldeias de pescadores ao longo da costa do Mediterrâneo
que, descobertas por algum moderno romancista anglo-americano, da
noite para o dia se transformaram num centro internacional de frivolidade.
Carmel era uma dessas fracas sobrevivências barrocas, espalhadas
aqui e ali, sob os pinheiros e cedros ao longo da costa do passado
espanhol da Califórnia. Uma antiga igreja se encontrava fora
da pequenina cidade, com sua principal rua chamada Avenida Oceano,
onde existia uma farmácia, na qual se podia comprar tudo,
desde sanduíches quentes ate romances policiais e goma de
mascar; havia também lojas em casas de um só andar
que lembravam vagamente a arquitetura colonial. Havia até uma
galeria de arte, dirigida por algumas senhoras, destemidamente, que
se dedicavam tanto à música como à arte pictórica.
Uma vez por mês a grande sala branca da galeria se transformava
em sala de concertos, com um palco minúsculo e muitas filas
de pequeninas cadeiras. Músicos de todo mundo, que necessitavam
dum rápido descanso, durante sua tourne na América
do Norte, ali paravam por alguns dias na viagem que os levava de
São Francisco a Los Angeles. Realizavam recitais na sala branca,
cheia de quadros modernos, onde se aglomerava uma multidão
de ouvintes ansiosos. As casas residenciais estavam localizadas em
ruas menores, transversais, no meio de pequenos jardins, adornadas
de hibiscos e fúcsias de tamanho desusado. Tanto os campos
como as planícies que circundavam a cidade haviam até então
escapado à suburbanização. Uma ou duas casas
haviam sido construídas em algum promontório romântico,
dominando o mar e uma vista ilimitada do céu e da costa.
Embora
Carmel se tivesse tornado o lar de muitas personalidades criativas,
sua vida não fora sufocada por uma unidade de objetivo intelectual
ou artístico. Entretanto, a presença de Krishnamurti
parecia estar produzindo uma ligação comum, ainda pouco
visível, que afetava toda a comunidade. Carmel não
se tornou uma colônia de Krishnamurti. Não obstante,
sua presença parecia haver centralizado a atenção
de seus habitantes e das cidades vizinhas. Del Monte, Monterey e
Peble Béach. Asseguraram-me que até nas lojas da Avenida
Oceano se falava muito menos em Roosevelt ou nos últimos escândalos
de Hollywood do que em Krishnamurti.
Muitos de seus habitantes se
haviam aproximado de Krishnamurti diretamente; alguns, sem dúvida,
para satisfazer uma curiosidade despertada pela antiga notoriedade
do homem, poucos por necessidades religiosas e a maioria talvez por
se sentirem pessoalmente, atraídos
por ele. Este grupo parecia ser realmente o maior e era formado pelas
personalidades mais representativas que compunham a vida social e
intelectual da cidade.
VIII
Entre esses encontrei Robinson Jeffers, um dos maiores poetas vivos
da América do Norte. Como não se interessava por "movimentos
espirituais" ou mestres religiosos, o nome de Krishnamurti nada
significava para ele antes de se haverem encontrado, mas, ao se conhecerem,
a personalidade deste atraiu de tal maneira Robinson Jeffers que
em pouco os dois homens se tornaram amigos. Estava ansioso por encontrar-me
com Jeffers, e com prazer aceitei um convite para visitá-lo
e à sua encantadora esposa.
Viviam à beira-mar, numa
casa feita pelas mãos do
poeta, com os calhaus que se encontravam na praia. Trouxera-os, um
por um, até construir toda a casa - longo trabalho de cinco
ou seis anos, sem qualquer auxílio. Levou ainda dois anos
construindo uma torre medieval que dava para o jardim, edificada
também com as pedras e contraias na praia. Um caminho íngreme
e com degraus em espiral levava à torre, entrando-se numa
pequenina e inesperada sala, com paredes almofadadas, um sofá confortável
e uma vista maravilhosa da praia e do mar. O barulho das ondas, o
contorno negro dos rochedos - de cujas pedras cinzentas a torre e
a casa haviam sido construídas - o vento e o ar fresco e salgado
da atmosfera lembravam Cornwall.
Passei toda uma tarde na pequenina sala da torre, conversando com
o dono da casa sobre Krishnamurti. Algumas achas de madeira queimavam
na pequena lareira, e a Califórnia parecia muito distante. Robinson Jeffers era reservado e
tímido e podia-se dizer que seu persistente silêncio denotava temor
interior de que uma palavra falada destruísse imagens que amadureciam
em sua mente de poeta. Usava culatras e polainas caquis e, se não fossem
os olhos sonhadores e a grande expressão de ternura da boca, poder-se-ia
tomá-lo por um inglês. Sua esposa e amigos me haviam avisado de
que eu teria de fazer as honras da conversa, mas uma ou duas vezes consegui fazê-lo
falar. Disse-me ele no seu modo lento e hesitante: "Concordo integralmente
com a mensagem de Krishnamurti - nada há nela que eu possa contradizer."
"Julga o senhor que algum dia sua mensagem se tornará popular?"
"Agora não. Muita gente não a achará bastante inteligível."
"Que o impressionou mais, quando o viu pela primeira vez?"
"Sua personalidade. Minha senhora diz muitas vezes que uma luz parece entrar
na sala quando Krishnamurti chega; concordo com ela, pois ele é a ilustração
mais convincente de sua sincera mensagem. A mim não interessa que ele
fale bem ou não. Sinto sua influência mesmo sem palavras. Há poucos
dias demos juntos um passeio pelas montanhas. Andamos cerca de dez milhas; como
sou um péssimo conversador, mal pronunciamos algumas palavras - e mesmo
assim senti-me mais feliz depois do passeio. É sua própria personalidade
que parece difundir a verdade e a felicidade sobre as quais fala constantemente." Robinson
Jeffers acendeu o cachimbo que se havia apagado e depois sentou-se novamente,
contemplando as chamas da lareira.
"Em sua opinião, a mensagem de Krishnamurti já chegou à maturidade,
já encontrou a sua formulação final?"
"Talvez seja final, mas penso que não está inteiramente amadurecida.
Só estará quando suas palavras se tornarem inteligíveis
a todos. Atualmente ainda há certa sutileza nelas. Não concorda?
"Inteiramente. Confesso que às vezes não sei de todo como
escrever sobre ele. Tudo o que ponho no papel me parece muito pouco convincente
e torna Krishnamurti a antítese do que realmente é: fá-lo
parecer convencido, um sujeito presumido e condescendente. Interpretando-o, seus
argumentos tornam-se irritantes e nada persuasórios. E, no entanto, são
tão verdadeiros quando ele os usa em conversa. É quase impossível
descrevê-lo, pois tudo depende de sua personalidade e bem pouco, do que
diz."
"É isso mesmo; é quase impossível descrever certas
personalidades.
"Creio que isso se deve principalmente ao fato de as faculdades intelectuais
de Krishnamurti não se haverem desenvolvido tão completamente quanto
o seu lado espiritual. Afinal, intelectualmente, ele ainda é muito jovem.
A maior parte de sua vida se passou no seminário teosófico. Muitas
de suas idéias foram abafadas naqueles dias. Vários mestres impressionam
por seu saber; Krishnamurti fá-lo por sua própria personalidade,
que inspira os seus ouvintes, e não pela qualidade especial de sua sabedoria."
"Julgo ser isto mesmo", replicou Jeffers no seu jeito
calmo e moroso. "Outros
terão que descobrir uma linguagem clara e convincente para
expressar sua mensagem. Afinal, não seria a primeira vez que
os seguidores de um mestre teriam de construir uma ponte através
da qual uma nova mensagem pudesse chegar às massas."
Encontrei
várias pessoas em Carmel e também noutras partes da
América
do Norte, que externaram opiniões semelhantes. Vários
habitantes de Carmel me disseram não conseguir compreender
a mensagem de Krishnamurti nem ver o seu lado prático - mas
todos me confessaram que ele lhes dava uma sensação
de felicidade e calma que jamais haviam conhecido antes.
Nos domingos à tarde,
quem quisesse podia ir ao hotel em que estava hospedado Krishnamurti
e tomar parte na conversa geral na grande sala de estar. Essas discussões
me distraíam mais do que interessavam, pois nelas surgiam
perguntas puramente pessoais, muitas vezes sem importância
ou provocadas por simples curiosidade intelectual. Eu disse a Krishnamurti
o que pensava, mas em sua opinião
ele podia ajudar os outros a encontrar a verdade para si, quando,
juntos, estudassem as respostas. Às vezes eram vinte, outras
duzentas pessoas que compareciam a essas discussões domingueiras,
que criavam um núcleo para mensagem
de Krishnamurti na Califórnia.
Era sempre a individualidade
de Krishnamurti que mais impressionava as pessoas. Todos sentiam
que esse era um homem que vivia seus ensinamentos mais convincentemente
do que os pregava. Disseram-me que ao chegar aos Estados Unidos deram-lhe
um tempo ilimitado para residir ali. Sugeriram-lhe, no entanto, que
se fizesse constar de seu passaporte que entrava no país como
professor conseguiria condições mais favoráveis.
Vários amigos
insistiram para que ele, por conveniência própria, se
intitulasse professor; mas Krishnamurti recusou-se a fazê-lo.
Um conhecimento oficial de seu estado de professor provocaria muitas
daquelas interpretações erradas que ele repudiara quando
dissolvera todas as suas sociedades. A decisão de Krishnamurti
pode parecer pedante, mas era a única condizente com sua atitude
em relação à verdade.
Após uma semana
passada quase constantemente na companhia de Krishnamurti senti que
já podia formular minha própria opinião sobre
seus ensinamentos. Quais eram os principais pontos de sua mensagem?
A verdade só pode provir de uma iluminação interior,
e esta só será possuída
por quem reconhecer plenamente todas as facetas da vida. Encontramos
a verdade através de urna percepção interior
permanente de nossos pensamentos, sentimentos e ações.
Somente essa percepção é capaz
de libertar-nos automaticamente de nossos defeitos ou de resolver
nossos problemas, sem que procuremos forçar a sua solução.
A vida só se
torna uma realidade mediante uma afável e individual identificação
com cada um de seus momentos, e nunca através de nossas tentativas
habituais e mecânicas. Não há necessidade de
sacrifícios ascéticos
ou semelhantes, visto nossas limitações primitivas
serem eliminadas automaticamente por uma vida plena.
Facilmente podia
verificar-se que a mensagem de Krishnamurti era mais ou menos a mesma
de Cristo, Buda ou, ainda, algum verdadeiro mestre religioso. Tudo
o que ele pedia era que todos vivessem uma vida pessoal de percepção
interior. Isto, somente possível por meio de amor e reflexão,
abre-nos as portas da verdade. Numa vida tal, nenhum de nossos defeitos,
criados por nós
mesmos - inveja, ciúme, ódio, sentimento de posse -
existirá.
O problema de até onde seria compreendida
a linguagem de Krishnamurti parecia-me da máxima importância,
e decidi falar-lhe mais uma vez sobre isto. Era um dos meus últimos
dias em Carmel e eu estava passeando com ele. "Tenho conversado
com toda espécie de pessoas que já o
ouviram", disse-lhe, "e procurei verificar se seus ensinamentos
são
tão convincentes para eles como o são para mim. Muitos
julgam seus ensinos extremamente difíceis, e entristece-me
ver como acham tão
penoso entender algo que para mim é a própria simplicidade.
Por que será que Deus o fez parecer tão complicado?" Suspirei,
mas Krishnamurti apenas sorriu: "Não foi Deus, mas nós
mesmos. Parece complicado por causa de nosso poder de livre escolha."
"Por causa da livre escolha?", interrompi espantado.
"Justamente; é apenas o livre arbítrio que cria conflito
em nossa vida; e os conflitos são responsáveis pela deterioração.
Pela livre escolha começamos a inventar dificuldades e complicações,
das quais somos forçados a libertar-nos, uma por uma, para abrir o caminho
para a verdade."
"Devemos, então, desesperar-nos, segundo você, justamente porque
nos foi dada a faculdade da livre escolha? Teria sido melhor se fôssemos
como os animais, que seguem sua sorte negra e desconhecem o que significa o livre
arbítrio?"
"Nada disso. Somente os espíritos sem inteligência
exercem escolha na vida. Quando falo de inteligência, refiro-me
a ela no seu mais vasto sentido; refiro-me àquela profunda
inteligência interior da
mente, da emoção e da vontade. Um homem verdadeiramente
inteligente não pode ter escolha, porque sua mente só percebe
o que é verdadeiro,
só podendo, assim, escolher o caminho da verdade. A mente
inteligente age e reage naturalmente, dando o máximo da sua
capacidade. Identifica-se espontaneamente com a coisa certa. Ela
não pode absolutamente ter qualquer
escolha. Apenas o homem não inteligente é que exerce
o livre arbítrio."
Esta era uma interpretação
bastante inesperada do livre arbítrio. "Nunca
encontrei antes tal concepção", disse eu: "mas
ela me parece convincente."
"Não pode ser nada mais; é apenas isto."
Em várias e anteriores ocasiões já notara que
ele nunca parecia consciente da novidade de algum de seus pronunciamentos
ou do resultado inesperado de uma conversa. Nunca discutia pelo simples
prazer da discussão, nem por minha causa, mas sempre para
esclarecer-nos a ambos sobre o problema em discussão. O motivo
por que tinha de se expor à acusação de ambigüidade
tornou-se claro para mim. Somente a verdade encontrada através
de colaboração acrescida de esforço pessoal
pode ter qualquer significação.
Subitamente Krishnamurti
parou: "Muitas coisas se tornaram mais claras para
mim depois que começamos nossas palestras diárias. Eu quis dizer-lhe
no outro dia que depois de uma de nossas primeiras conversas experimentei uma
sensação particularmente viva de percepção interior
da vida. Ia a pé para casa, pela praia, quando me tornei tão profundamente
consciente da beleza do céu, do mar e das árvores ao redor de mim
que era quase uma sensação física de alegria. Toda separação
entre mim e as coisas que me rodeavam deixou de existir, e eu segui plenamente
consciente daquela espantosa unidade. Quando cheguei a casa e me reuni aos outros,
ao jantar, era como se eu tivesse de ocultar meu estado interior atrás
de um biombo; mas, embora eu estivesse sentado entre várias pessoas, falando
sobre diferentes assuntos, aquela percepção interior de unidade
com tudo não me deixou por um só segundo."
"Como chegou a esse estado de unidade com todas as coisas?"
"Muitas pessoas já me fizeram esta pergunta, e sinto
sempre que esperam ouvir o relato dramático de algum milagre
repentino que me tivesse tornado subitamente um só com o
universo. Na verdade, nada disso aconteceu. Minha percepção
interior sempre existiu, se bem que demorei a senti-la cada vez mais
claramente, tendo também custado a encontrar palavras que
a descrevessem. Não foi um repentino relâmpago, mas
um esclarecimento constante, embora lento, de algo que sempre existiu.
Não cresceu, como
muita gente pensa. Nada que encerre alguma importância espiritual
pode crescer dentro de nós. Já tem que se encontrar
presente com toda a pujança e a única coisa que acontece é tornarmo-nos
cada vez mais conscientes disso. É nossa reação
intelectual e nada mais que necessita de tempo para tornar-se mais
articulada, mais definida".
Na véspera de minha partida,
quando chegamos ao nosso local favorito, sob os pinheiros do outeiro,
senti que aquela era nossa última conversa.
Comumente as despedidas trazem a meus lábios palavras que
me sentiria acanhado de pronunciar em circunstâncias menos
excepcionais. A presença
de Krishnamurti, entretanto, excitou minhas faculdades emotivas sem
fazer-me sentir como um tolo. "Krishnaji", disse pegando-lhe
as mãos
entre as minhas, "minha visita chega ao fim. Sou-lhe muito grato
por estes maravilhosos dias. Entretanto, quero ainda falar-lhe sobre
um assunto que já discutimos
várias vezes."
"Que é? Não se sinta acanhado diga."
"Compreendo seu ponto de vista de que sua missão não é agir
como um médico, não lhe sendo possível prescrever
pílulas
espirituais para as criaturas. Mas, ainda assim, diga-me: Como pretende
você ajudá-las?
Sei que deseja que todos vivam tão integralmente que se tornem
verdadeiros e tão verdadeiramente que sejam capazes de se
libertarem do espírito
de posse, da inveja, da cobiça. Mas uma tal revolução
interior exige força que só bem poucos possuem. Você o
conseguiu, e encontra-se no topo de uma montanha na qual vive em
estado de unidade com o mundo, o que significa em êxtase constante.
Entretanto, você se
esquece de que nós todos, milhões e milhões
de seres, vivemos nas vastas planícies, ao pé da montanha.
Poucos suportariam uma vida de êxtase contínuo. Ela
os abrasaria; viver em permanente estado de percepção,
coisa essencial, os destruiria. Compreendo que seja esse o alvo;
compreendo que seja a única vida que valha ser vivida; mas
não julgo que estejamos tão amadurecidos que possamos
fazê-lo"
Krishnamurti chegou-se para bem perto de mim -
como já fizera várias
vezes antes - olhou profundamente em meus olhos e disse com sua voz
melodiosa: "Você tem
razão. Eles vivem nas planícies e eu vivo, como você disse,
no alto da montanha; mas eu espero que aumente sempre o número
de seres humanos capazes, de suportar o ar fresco do tope da montanha.
Um homem infinitamente maior que qualquer um de nós teve que
seguir seu caminho até chegar
ao Gólgota, não importava se seus discípulos
o podiam seguir ou não; não importava que sua mensagem
fosse imediata ou tivesse de esperar por séculos. Como pode
você esperar que eu tenha algo
que ver com o que deve ser feito e como ser feito? Se alguém
esteve no tope da montanha, já não pode voltar à planície.
Pode apenas tentar fazer com que outros sintam a pureza do ar e gozem
a vista infinita e se tornem uno com a beleza da vida ali".
Desta
vez não havia tristeza na voz de Krishnamurti e, em seu olhos,
percebia-se uma luz que era amor, compaixão, simpatia, que
antes já me comovera
várias vezes. Quando nos levantamos e subimos
vagarosamente a colina que levava à sua casa, não havia
nele o menor sinal de desânimo. O sol se deitava, e faixas
de nuvens verdes e rosas se espalhavam por todo o céu. A noite
desce rapidamente nessas regiões, e dentro
de poucos minutos a luz desaparece.
X
Apertamo-nos as mãos e desci em direção à praia,
como fizera diariamente desde que chegara a Carmel. Era natural que
nesse último dia em que o visitava, toda a vida de Krishnamurti
se desdobrasse diante de mim. Haverá outra vida nos tempos
modernos que se compare à dele? Tem havido muitos Mestres
e Instrutores, Ioguis e Lamas adorados por seus seguidores. Mas nenhum
deles foi arrebatado de sua existência comum para ser ungido
como o prometido Instrutor do Mundo. Nenhum deles foi aceito pelo
Oriente e pelo Ocidente, pelo mais antigo continente e pelo mais
novo, pelos cristãos, hindus, judeus e muçulmanos,
por crentes e agnósticos.
Nem Ramakrishna, nem Vivekananda
foram educados e criados para sua futura missão de Messias;
nem Gandhi, Mrs. Baker Eddy, Steiner ou Mme. Blavatsky conheceram
tão estranho destino. Nem nos
registros dos místicos do Ocidente, nem nos livros dos ioguis
e santos do Oriente encontramos a história de um "santo" que
depois de vinte e cinco anos de preparação para um
destino divino resolve tornar-se num ser humano comum, renunciando
não apenas aos bens materiais, mas também a todas as
suas pretensões religiosas. Estava quase escuro e as primeiras
estrelas começavam a aparecer. A atenção não
era dispersada por luz, cores e aspectos do dia. O misterioso exemplo
do notável fado de Krishnamurti tornava-se mais claro, e comecei
a compreender o que queria ele dizer quando me contara que até pouco
antes a vida fora um sonho para ele, mal tendo consciência
da existência externa em seu derredor. Não teriam sido
os anos de preparação? Não teriam sido os anos
durante os quais o homem Krishnamurti procurava encontrar-se a si
mesmo, para substituir aquele primitivo ego através do qual
a Sra. Besant e Charles Leadbeater, a teosofia e uma estranha credulidade
agiram durante mais de vinte anos?
Efetivamente, não era única
a história
de Krishnamurti? O mestre que renuncia ao trono no momento do seu
despertar, no instante
em que dentro dele o Deus tem de ceder o lugar ao homem, e o homem
pode começar a achar Deus dentro de si? Mesmo durante os anos
em que seu espírito penava em sonhos, não estivera
ele cheio de uma verdade que ainda hoje é tão misteriosa
que não chegamos a compreendê-la?
(Do livro de Rom Landau “God
is my Adventure”.
Tradução de Marina Brandão Machado).