<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="65001"%> MATRIX
MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado

Capítulo XV

Sobre o processo de aprendizagem


Descanse, agora. Você vai precisar
para o seu treinamento.

Antes de entrarmos no tema, se faz necessário a leitura do diálogo que ocorre entre Morfeu e Neo, durante o inicio do seu treinamento. Vejamos:

Morfeu: Este é um programa de sparring, igual a realidade programada da Matrix. Tem as mesmas regras básicas, como a gravidade. Só que essas regras não diferem das regras de um sistema de computador. Algumas podem ser destorcidas. Outras podem ser quebradas. Entendeu?

Neo: Sim.

Morfeu: Então me acerte se conseguir... Bom. Adaptação, improvisação. Mas sua fraqueza não é a sua técnica... Como eu te venci?

Neo: Você é rápido.

Morfeu:  Você acredita que ser mais forte ou mais rápido tem algo a ver com músculos neste lugar? Acha que está respirando ar?... De novo!... O que está esperando? Você é mais rápido que isso.  Não pense que é. Saiba que é... Vamos! Pare de tentar me acertar e me acerte!

Neo: Sei o que está tentando fazer.

Morfeu: Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso te mostrar a porta. Você tem de atravessá-la.

(...)

Aprender significa a capacidade de pensar de forma clara e sã, sem ilusões, e de partir de fatos e não de crenças e ideais. Não pode haver o aprendizado quando o pensamento se origina de conclusões, de preconceitos. O simples adquirir informação ou conhecimento não é aprender. Aprendizagem implica o amor de compreender e o amor de fazer uma coisa por si mesma.
A aprendizagem só é possível quando há liberdade, quando não há nenhum tipo de coerção e a coerção assume várias formas. Há a coerção por meio da influência, por meio da ameaça, por meio do apego, por meio do encorajamento persuasivo ou de formas sutis de recompensa.
A maioria das pessoas pensa que a aprendizagem é encorajada através de comparações, ao passo que na verdade é precisamente ao contrário disso. As comparações produzem decepções e só estimulam a inveja, que se chama competição. Como outras formas de persuasão, a comparação impede a aprendizagem e produz o medo. A ambição também provoca medo. A ambição, seja pessoal ou identificada com o coletivo, é sempre anti-social.
Matrix nos mostra que é necessário encorajar o desenvolvimento de uma boa mente – uma mente capaz de lidar com os constantes “desafios” das questões da vida como um todo, e que não procure “fugir” dos mesmos, e, desse modo, tornar-se contraditória, frustrada, amargurada ou cínica. Esse estado da mente frustrada, amargurada e cínica é muito bem representada pelo personagem Cypher; esse é um estado em que a mente não é consciente de seu próprio condicionamento, de suas próprias motivações e objetivos.

Bom! Adaptação, improvisação.
Mas sua fraqueza não é a sua técnica.
Matrix nos mostra que o desenvolvimento de uma boa mente dever ser a nossa maior preocupação e que, portanto, a forma de transmitir a mensagem torna-se muito importante. É preciso cultivar a totalidade da mente, não a mera transmissão de informações. Matrix, através de seu personagem Morfeu, deixa claro que no processo de comunicação de conhecimento, o educador tem de convidar o “neófito” para o “debate” e estimulá-lo a inquirir e pensar de forma independente.

Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso lhe mostrar a porta.Você tem de atravessá-la.

A autoridade, como “aquele que sabe”, não tem lugar no processo de aprendizagem. Tanto o “treinador” como o neófito estão aprendendo juntos, através do seu relacionamento especial um com o outro; mas isso não quer dizer que o “treinador” não deva levar em conta a boa ordem do pensamento.
Essa boa ordem não é produzida por meio da disciplina, sob a forma de afirmações convictas de conhecimento; mas ela ocorre naturalmente, quando o treinador compreende que, ao cultivar a inteligência, é preciso haver uma sensação de liberdade. Isto não quer dizer a liberdade para fazer o que se quer, ou pensar com o espírito de mera contradição. Trata-se da liberdade em que o “neófito” é ajudado a tomar consciência de suas próprias necessidades e motivações, que lhe são reveladas através de seu pensamento e ações diárias.

Você precisa livrar-se do medo, Neo,
da dúvida e da descrença. Liberte sua mente.
Uma mente disciplinada nunca é uma mente livre, nem pode ser livre a mente que reprimiu o desejo. Só através da compreensão de todo o processo do desejo é que a mente pode ser livre. A disciplina sempre limita a mente a um movimento dentro da “arena” de um sistema ou de um “programa” particular de pensamento ou de crença. E essa mente nunca é livre para ser inteligente.
A disciplina acarreta submissão à autoridade psicológica. Ela proporciona a capacidade de agir em conformidade com o modelo condicionado pelo pensamento social, que exige capacidade funcional, mas não desperta nunca a ação da inteligência amorosa e criativa que tem capacidade própria.
Matrix mostra que a mente que não cultivou nada, senão a capacidade através da memória, é como o moderno computador que, embora funcione com assombrosa capacidade e precisão, continua sendo apenas uma mera máquina, facilmente substituível. A autoridade psicológica pode persuadir a mente a pensar numa determinada direção.Mas, ser guiado a

pensar de uma determinada maneira, ou em termos de conclusão prévia, não é absolutamente pensar; é apenas funcionar como uma máquina humana,  o que produz irrefletido descontentamento, acarretando decepções e misérias.

Matrix aponta para o desenvolvimento total de cada ser humano, ajudando-o, por meio dos seus personagens, a compreender a sua mais alta e mais plena capacidade; não a alguma capacidade fictícia que o educador tenha em mente sob a forma de conceito ou de um ideal. Qualquer espírito de comparação impede esse florescimento pleno do individuo, a excelência humana. Quando são feitas comparações surgem o desprezo e as reações invejosas que criam tantos conflitos entre os homens.

Matrix sustenta que somente o pleno desenvolvimento de cada indivíduo pode criar uma sociedade igualitária. A atual luta social no intuito de produzir igualdade no nível econômico ou em algum nível “espiritual” não tem absolutamente sentido.

Matrix mostra que no devido interesse do desenvolvimento total do indivíduo, não convém permitir que o neófito, no inicio do seu “treinamento”, de sua aprendizagem, escolha suas próprias matérias de estudo, porque sua escolha pode basear-se em um entusiasmo passageiro ou em preconceitos, ou pode estar motivado apenas em encontrar a coisa mais fácil de fazer; ou ainda, pode fazer uma escolha baseada nas exigências imediatas de uma necessidade especifica.

Mas, se ajudarmos o neófito a descobrir por si mesmo e cultivar suas capacidades inatas, então ele escolherá com naturalidade não as matérias mais fáceis, mas aquelas através das quais possa exprimir suas capacidades no mais alto grau e mais plenamente.

Se o neófito for ajudado, desde o principio, a encarar a vida como um todo, com todos os seus problemas psicológicos, intelectuais e emocionais, não ficará amedrontado com ela.

Matrix nos mostra que a inteligência é a capacidade de encarar os “desafios” da vida com  totalidade do ser e que todo treinamento, todo aprendizado consiste no cultivo daquele estado de ser no qual a inteligência possa se manifestar com toda a sua propriedade. Isso fica bem claro ao término do seguinte diálogo entre Morfeu e Neo:

Morfeu: A Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos? Homens de negócios, professores, advogados, marceneiros. As mesmas pessoas que queremos salvar. Mas até conseguirmos, essas pessoas fazem parte desse sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não está pronta para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo. Você estava me ouvindo ou olhando para a mulher de vestido vermelho?

Neo: Eu estava...

Morfeu: Olhe de novo. Congele.

Neo: Esta não é a Matrix?

Morfeu: Não! É mais um programa de treinamento feito para ensinar uma coisa: se você não é um dos nossos, você é um deles.

Neo: Quem são eles?

Morfeu: programas sencientes. Podem entrar e sair de qualquer software ainda conectado ao sistema deles. Isso significa que qualquer um ainda não libertado é um agente em potencial. Dentro da Matrix eles são todos e não são ninguém. Nós sobrevivemos nos escondendo deles e correndo deles, mas eles são os porteiros. Eles protegem todas as portas e têm todas as chaves. Cedo ou tarde, alguém terá que lutar com eles.

Neo: Alguém?

Morfeu: Não vou mentir, Neo. Todos os homens e mulheres que lutaram com os agentes morreram. Mas, onde eles falharam, você vencerá.

Neo: Por que?

Morfeu: Já vi um agente abrir o concreto com um soco. Já descarregamos o pente neles, e não conseguimos acertar. Mas a força e a velocidade deles se baseiam num mundo feito de regras. Por causa disso eles não podem ser tão fortes ou rápidos quanto você.

Neo: O que está dizendo? Que posso desviar das balas?

Morfeu: Não, Neo. Estou dizendo que, quando você estiver pronto isso não será necessário.   

(Continua)
......
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