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MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado

Capítulo XVI

Sobre a libertação do medo

Só pode haver o florescimento da inteligência quando não há mais a presença do medo. O medo surge quando imaginamos o que as pessoas possam pensar ou dizer a nosso respeito; quando tememos ser criticados, punidos, expostos a situações que fogem do nosso controle. O medo é certamente uma das maiores barreiras da inteligência. E sem dúvida é da própria essência da aprendizagem, ajudar o neófito a tomar consciência das causas do medo e a compreendê-las, de modo que dessa compreensão em diante possa viver livre do medo.

A função da aprendizagem é a de ajudar o neófito a libertar-se do medo, de modo que ele possa despertar a Inteligência. Enquanto há medo, há insensibilidade e conseqüentemente, a impossibilidade de observar o que ocorre à nossa volta. Enquanto tivermos medo, estaremos amarrados pela tradição, pelos sistemas de crenças e pelo modismo social, e, quando estamos presos a tudo isso, perdemos a dignidade como seres humanos individuais.


Matrix aponta para a conscientização dos
nossos medos que nos correm por dentro.

Portanto, a função do aprendizado é libertar o homem do medo, de modo que, em contato com o mundo, seja um ser humano inteligente, cheio de verdadeira iniciativa. A iniciativa é destruída quando nos limitamos a copiar, a ser uma pessoa de 2ª mão. Seguir quem quer que seja é, por certo, prejudicial à inteligência. O próprio processo de seguir cria uma sensação de medo; e o medo exclui a compreensão da vida com todos os seus conflitos, com suas lutas, suas tristezas, sua pobreza, sua riqueza e beleza.
Quando se tem medo, nossa sensibilidade fica embotada. É preciso estar extremamente conscientes de que o medo impede a iniciativa porque faz com que nos apeguemos às pessoas, às coisas e às instituições, da mesma forma que uma planta trepadeira se apega a uma árvore. Apegamo-nos aos pais, aos maridos, aos filhos, às filhas, às esposas e às nossas posses. Esta é a forma exterior do medo.
Estando interiormente amedrontados, receamos ficar sós. Podemos ter muitas roupas e sapatos caríssimos, jóias, aplicações ou outras propriedades; mas, interiormente, psicologicamente, estamos muito pobres. Quanto mais pobres interiormente, tanto mais procuraremos enriquecer exteriormente, apegando-nos às pessoas, a uma posição de respeito, às propriedades.

Neo entra em pânico e tenta retroceder no processo
Quanto mais sentimos medo, não só nos apegamos as coisas exteriores como também as coisas interiores, como por exemplo, à tradição. Para a maioria dos mais antigos e para as pessoas internamente deficientes, medíocres e vazias, a tradição tem muita importância. Para essas pessoas, logo que o medo aparece, refugiam-se na respeitabilidade proveniente da tradição e, desse modo, perdem a iniciativa própria. Porque não tem iniciativa própria e estão apenas seguindo, feito pessoas de 2ª mão, a tradição torna-se importante. Quando uma pessoa está com medo, sempre tem a tendência a imitar. Pessoas que tem medo sempre imitam outras; apegam-se à tradição, aos pais, às esposas, aos irmãos, aos maridos. 
Matrix nos mostra que a imitação destrói a iniciativa própria. Nos mostra que para podermos despertar a inteligência amorosa e criativa, se faz necessário ter a mente livre, ter uma mente que não esteja onerada pelo peso da tradição, da imitação. Matrix nos convida para que examinemos nossas vidas e as vidas das pessoas ao nosso redor e constatemos, por nós mesmos, o quanto são tradicionais e imitativas.

Quero libertar sua mente, Neo.

Se queremos despertar a inteligência amorosa criativa é preciso ir além do nível da consciência coletiva e sentir-se livre para pensar por nós mesmos, de modo que não sejamos mais influenciados  pelas coisas irrefletidamente ditas por outras pessoas. Pensar independentemente e não seguir os outros é muito importante; porque seguir os outros é indicativo de medo e o medo paralisa a mente de modo que não podemos ser livres.
Não sabemos o que é uma mente livre; estamos sempre à espreita do que nossos amigos, parentes e familiares possam dizer sobre nós. Nossa mente é como uma casa velha cercada por arame farpado. Nenhuma coisa nova pode ocorrer nela. Algo de novo só pode ocorrer quando não há a presença do medo. E é extremamente difícil libertar a mente do medo, do desejo de imitar, de seguir o movimento coletivo, do desejo de acumular riquezas, de seguir a tradição e da escravidão dos hábitos arraigados.

Liberte a sua mente, Neo.
Matrix nos mostra que é muito importante começar a entender a mente enquanto se é jovem, do contrário, a dependência do sistema faz com que a pessoa se conforme e até defenda com unhas e dentes, irrefletidamente, os costumes da tradição, passando a ser mais um que é todos mas não é ninguém. Quanto mais velha a pessoa, maior o peso que sofre da tradição, e carregada com esse peso, sua mente nunca é livre.

Temos uma regra: nunca libertamos uma mente
após ela atingir certa idade.
Como indivíduos nunca somos realmente livres para descobrir as coisas por nós mesmos; estamos sempre seguindo – seguindo um ideal, um mentor, um instrutor ou alguma superstição, ou esoterismo absurdo. Desse modo, toda nossa vida é constrangida, limitada, confinada em certas idéias; e, no âmago de nós mesmos, há medo. Como podemos pensar livremente se na base do nosso ser está o medo com seu veio pútrido?

Você precisa livrar-se, Neo, do medo,
da dúvida e da descrença. Liberte sua mente.

Eis porque é tão importante estar conscientes de todas estas coisas para depois podermos trabalhar com elas, contestá-las, estudá-las; mas se aceitarmos tudo cegamente, porque nos últimos trinta séculos tudo tem sido assim, então isso tudo não tem sentido.

Matrix nos mostra que, certamente, o que o mundo precisa não é de mais imitadores, mais lideres, mais seguidores. O que precisamos agora é de indivíduos como nós, que comecem a examinar esses problemas, não de forma superficial ou passageira, mas com profundidade cada vez maior, de modo que a mente seja libertada para ser criativa, esteja livre para pensar, livre para amar. 

(Continua)
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