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MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado

Capítulo II

A relação entre a “mente inocente” e o “medo”

Há uma cena no filme Matrix, que retrata muito bem a relação entre “inocência” e o “medo”. Essa cena é a do “menino” e a “colher”. Nessa cena, a inocência é representada pelas crianças, ainda não condicionadas, ou seja, sem ciência das experiências. Todos nós temos muitas experiências, e cada experiência deixa sua marca; cada pensamento, cada influencia molda-nos de certa maneira a mente. E é uma coisa essencial morrermos para tudo que temos experimentado, para que a mente se torne jovem, fresca e “inocente”. Só a mente que é “inocente”, por estar morta para o passado com seu acumulo de experiências, só essa mente pode ter uma maneira de olhar os acontecimentos e perceber o real. Só essa mente “inocente” pode perceber o que é verdadeiro e transcender as coisas fabricadas pelo homem. E o medo é uma das forças corruptoras e destrutivas que tornam impossível a manifestação de uma mente inocente. Observe as falas entre o menino e Neo:

Menino: Não tente entortar (transformar) a colher (medo). É impossível. Em vez disso, apenas tente ver a verdade.

Neo: Que verdade?

Menino: A colher (medo) não existe.

Neo: A colher (medo) não existe?

Menino: Então você verá que não é a colher que entorta (transforma). É você mesmo.

O medo é pensamento e, para compreender o medo, temos de compreender todo o processo do pensar, todo o mecanismo do pensamento. O descobrimento da causa do medo não é a libertação do medo. E, se não estivermos realmente livres do medo, qualquer espécie de busca só produzirá mais ilusão e desfiguração (o entortar da colher).
Um homem verdadeiramente livre não tem medo, não busca mais por mecanismos de fuga. O homem livre é o “homem total”, e não aquele que é meramente sentimental ou foge do mundo, tal como Cypher, narcotizando-se com idéias, ilusões e visões. A mente de um homem livre é muito tranqüila, sã, racional, lógica; e é dessa mente que necessitamos e não de uma mente sentimental, emotiva, medrosa, enredada em condicionamentos.

Observe o diálogo entre Cypher e Neo e, em continuidade, Cypher com o agente Smith:

Cypher: Você quer uma bebida?

Neo: Claro.

Cypher: Sabe, sei o que está pensando. Porque estou pensando a mesma coisa. Na verdade, penso nisso desde que cheguei aqui. Por que eu não tomei a pílula azul?

Neo engasga com o gole do liquido oferecido por Cypher.

Cypher: Gostoso, não? O Dozer faz. Serve para duas coisas: desengraxar motores e queimar neurônios.

(...)

Smith: Negócio fechado, Sr. Reagan?

Cypher: Sabe, sei que este bife não existe. Sei que quando eu o coloco na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Após nove anos sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa.

Smith: Então negócio fechado.

Cypher: Não quero me lembrar de nada. Nada. Entendeu? Eu quero ser rico. Você sabe, alguém importante. Tipo um ator.

Smith: O que deseja, Sr. Reagan?

Cypher: Ok. Leve meu corpo de volta à usina, me coloque de novo na Matrix e eu te dou o que deseja.

Smith: Senhas de acesso à área de Sião.

Cypher: Não. Eu já disse, eu não sei. Vou te entregar o homem  que sabe.

Smith: Morfeu.

Esse diálogo entre o Agente Smith e Cypher, mostra que a grande maioria de nós não quer ficar frente a frente com seus problemas psicológicos (o bife?). Infelizmente, a maioria de nós deseja apenas ser curada dos sintomas. Não sabemos evitar que o problema psicológico surja. Há grande beleza, grande sensibilidade em estar cônscio de cada problema tão logo se apresenta, tratar dele imediatamente, liquidá-lo no mesmo instante, de modo que não seja “transportado” para o dia imediato. Isso se pode fazer, não tomando nenhuma droga ou procurando esquecer ou fugir do problema psicológico, porém simplesmente percebendo que o problema, qualquer que ele seja, não têm solução separada dele próprio. Quando se considera um problema com atenção total, extingue-se o problema e não se faz necessário buscar pelo esquecimento, tal como fez o personagem Cypher.

O homem de mente livre é representado no filme Matrix, na cena do confronto final entre Neo – já morto para o condicionado – e o agente Smith, representação do pensamento condicionado e seu processo divisor. As características da mente livre, sã, tranqüila, racional e lógica são expressas através dos movimentos do personagem Neo durante tal confronto, onde pode-se observar que não há nenhum tipo de esforço e perda de energia de sua parte.

Há uma facilidade prática de observar todos os rápidos movimentos do pensamento condicionado sem a identificação com o mesmo. As balas do medo, assim como das demais influencias condicionantes já não possuem o poder de atingi-lo.

Essa cena deixa claro que é somente quando a mente está livre da identificação com o passado que ela pode ser realmente livre. Libertar-se completamente do passado, destruí-lo totalmente, com toda sua história, todas as suas memórias, é o findar do sofrimento e o surgimento de uma mente livre, inocente. E, o que traz a liberdade é a atenção, que significa olhar o fato (a colher/o medo) face-a-face, de dentro do vazio, e ver as coisas como realmente são, sem nenhuma desfiguração. Nesse estado de atenção se apresenta uma “inocência” que é virtude, que é humildade. Através dessa cena, torna-se claro que, quando se considera um problema psicológico com atenção total, extingue-se o problema.

Isso também é demonstrado novamente na cena em que Neo, abraçado com Trinity, ao ter que disparar sua arma contra os fios que suportam o elevador, novamente faz menção a falsidade da colher, a falsidade do medo que naquele momento se apresentava.

(continua)

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