<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="65001"%> MATRIX
MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado

Capítulo IV

Sobre o medo, a ausência de tempo
e o poder do agora

Nesta cena, onde Neo mantém pela primeira vez contato com o observador Morfeu, fica bem clara a reação inicial de medo diante de um novo paradigma libertador. Neo, o neófito, busca segurança em cada uma de suas perguntas. O observador Morfeu quer que ele “levante, ou seja, se eleve a fim de poder ver por si mesmo, a fim de poder ser uma luz para si mesmo”. No entanto, Neo não sabe como fazê-lo e faz a tão conhecida e perniciosa pergunta para o autoconhecimento: “como?”
Esse diálogo mostra a nossa tendência inicial de buscar por segurança através de um método. O observador Morfeu quer que ele se levante, devagar, quer que ele busque pelo “elevador que possa levá-lo ao topo do prédio, mas Neo tem medo das alturas, e pelo medo, perde a ligação com o observador”. Neo mostra a dificuldade da aceitação de uma nova mensagem, uma vez que a mente condicionada não quer aceitar, fica constantemente questionando, comparando com o arquivo de conhecimento do passado.

medo e busca de segurança
Morfeu insiste várias vezes durante o diálogo que o momento da ação está no AGORA e que não há a possibilidade de tempo. Ele deixa claro que é a pessoa que tem que fazer a escolha entre ficar em seu mundo conhecido ou ousar pela busca do desconhecido e, que quase sempre é o medo do desconhecido, o medo de novos níveis de consciência que faz com que a pessoa retroceda, ou opte pela estagnação imposta pela rede do pensamento condicionado.  
Outro ponto que fica bastante claro nessa cena, é que o medo é o grande obstáculo para a elevação de consciência. O medo nos leva a nos ajustar à opinião pública, ao que os outros dizem, ao que disseram Buda, Cristo, os grandes santos - o que demonstra nossa natural tendência à adaptação, à busca de proteção e segurança. Quando buscamos a segurança, é evidente que nos achamos em estado de medo e por isso não existe integridade.

A fala de Morfeu deixa claro que toda ação só pode ser feita no agora, nesse eterno presente ativo. A idéia de desenvolvimento gradual é somente para a mente medíocre. A verdade, a integridade, acha-se em todas as coisas. Portanto, a idéia de que necessitamos progredir em direção a realidade, é uma idéia falsa. Não se pôde progredir na direção de uma coisa que sempre está presente, no agora. Não se trata de avançar para o exterior ou de voltar-se para o interior, mas sim de se libertar dessa consciência que se percebe a si mesma como separada. Quando houvermos realizado tal integridade, veremos que tal realidade não tem futuro nem passado; e todos os problemas relacionados com tais coisas desaparecem inteiramente. Uma vez que o homem realize isso, vem-lhe a tranqüilidade, não a da estagnação e do conformismo, porém a da criação, a do ser eterno. O filme Matrix é uma grande metáfora de que a realização desta verdade é a finalidade do homem. Acompanhe o diálogo desta cena:  

Neo: Alô.

Morfeu: Alô, Neo. Sabe quem está falando?

Neo: Morfeu?

Morfeu: Sim. Eu andava à sua procura. Não sei se está pronto para ver o que quero te mostrar, mas, infelizmente, nós dois não temos mais tempo. Eles vão te buscar aí, e não sei o que eles vão fazer.

Neo: Quem vem me buscar?

Morfeu: Levante-se e veja você mesmo.

Neo: Como? Agora?

Morfeu: Sim. Agora. Levante-se devagar. O elevador.

Neo: Droga!

Morfeu: Sim!

Neo: O que eles querem?

Morfeu: Não sei. Mas, se você não quiser descobrir, sugiro que saia daí.

Neo: Como?

Morfeu: Posso te guiar, mas precisa fazer o que eu mandar.

Neo: Ok!

Morfeu: O cubículo à frente está vazio.

Neo: Mas e se eles...

Morfeu: Vá. Agora!... Fique aqui só um pouco!... Quando eu mandar, vá até o fim do corredor, até a sala no fim do escritório. Vá bem agachado. Vá, agora!... Ótimo. Agora, lá fora tem um andaime.

Neo: Como você sabe disso?

Morfeu: Não temos tempo. À sua esquerda há uma janela. Vá até ela. Abra. Suba no andaime até o topo.

Neo: De jeito nenhum! De jeito nenhum! Isso é loucura!

Morfeu: Há duas formas de sair deste prédio. Uma é elevado pelo andaime. A outra é levado por eles. Nas duas há um risco. Você é quem escolhe.

Neo: Isso é loucura! Por que está acontecendo comigo? O que eu fiz? Não sou ninguém. Eu não fiz nada. Eu vou morrer.

Neo olhando a altura retorna e exclama:

Neo: Droga.

Com muito medo, caminha pelo parapeito encostado nas vidraças, até se agarrar na coluna do prédio. Ao olhar para baixo tem uma vertigem e larga o celular, perdendo assim, o contato com o observador Morfeu. Novamente ele exclama:

Neo: Droga. Eu não consigo.

Após exclamar isso, por causa do medo, Neo desiste e decide voltar para o interior do prédio onde é capturado pelos agentes da Matrix – da rede do pensamento condicionado.

O medo sempre nos acompanha, não é verdade? Medo do escuro, medo dos outros, medo da opinião pública, medo de perdermos a saúde, de perdermos nossas capacidades, medo de não sermos ninguém neste mundo monstruoso, aquisitivo, agressivo; medo de não alcançarmos o objetivo, de não “realizarmos” um estado de suprema felicidade, bem-aventurança, Deus, ou o que quer que seja. E também, naturalmente, há o medo fundamental à morte. Não estamos tratando da morte, por ora, porém apenas tentando ver, descobrir o medo. Sem dúvida, o medo está sempre em relação com alguma coisa. Não existe medo sozinho, per se. Há dúzias de manifestações de medo, todas em relação com alguma coisa. E é possível ficar-se só, completamente? É possível a mente ficar de todo só, sem se isolar, sem edificar muralhas, torres de marfim, ao redor de si? A mente está só, quando já não busca segurança. E pode ela libertar-se totalmente do medo?

Esse diálogo mostra que o passado é fragmentado, modificado e virá a ser futuro. Isso é um fato. Assim, se não há uma mudança radical no presente, amanhã seremos os mesmos que somos hoje. Portanto, o futuro é agora. Portanto, o futuro e o passado estão no presente. Então, todo o tempo - passado, presente e futuro - está contido no agora. Isso não é complicado. É lógico. Assim se o cérebro humano não se modificar no agora, no mesmo instante, o futuro será o que somos, o que fomos.

Mostra também que a menos que a mente descubra a fonte do pensamento, ver-se-á sempre de novo enredada num sistema de vida que levará finalmente ao conflito, uma maneira de vida que é violência. Aquela fonte precisa ser descoberta. Enquanto existir observador (Morfeu) e coisa observada (Neo), haverá contradição, distância, intervalo de tempo, separação entre ambos, e o pensamento tem de existir... Enquanto houver observador e coisa observada, e, entre ambos, intervalo de tempo, distância, espaço - essa separação dará origem ao pensamento. Só quando há a fusão entre o observador e o objeto observado, e não há observador nenhum, não há pensar. A menos que se liberte constantemente de sua acumulação de tradições, a mente é incapaz de descobrir o Supremo, o Eterno.

O problema é que ansiamos pela segurança e esse anseio é um obstáculo à nossa libertação pelo conhecimento da Verdade. Cada um de nós deseja submeter-se a algum padrão; porque a submissão é mais fácil do que a vigilância. A submissão a padrões representa a base de nossa existência social, pois temos medo de estar sós. O temor e a renúncia a pensar acarretam a aceitação e a submissão, a aceitação de autoridade. Tal como acontece com o indivíduo assim também acontece com o grupo, com a nação.

(Continua)
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