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MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado

Capítulo VII

Sobre a morte e o fim do tempo psicológico

Na cena em que Neo abre a porta do quarto 303 – o mesmo em que no inicio do filme Trinity faz uma ligação – e se depara com o agente Smith, recebendo dele vários tiros, mostra que quando se busca algo, psicologicamente, esse algo já é o resultado do condicionado pensamento e que, ao abrir-se a porta do que condicionalmente se busca, o que se encontra é tão somente o próprio pensamento condicionado. Esta cena aponta para a necessidade da morte do pensamento condicionado, através de uma espécie de “egocídio”.

A morte deve ser algo extraordinário, assim como é a vida. A vida é uma totalidade. Sofrimento, dor, angústia, alegria, idéias absurdas, posse, inveja, paixão, a torturante agonia da solidão – tudo isso é a vida. E, para compreendermos a morte, devemos compreender o todo da vida, e não apenas tomar um fragmento dela e ficarmos vivendo com este fragmento, como o faz a maioria de nós. No próprio compreender da vida há o compreender da morte, porque as duas coisas não estão separadas.

O homem que deseja saber o que significa morrer, que deseja realmente experimentar o seu pleno significado, deve estar cônscio da morte em vida, isto é, deve morrer psicologicamente todos os dias. As coisas que temos acumulado como experiência, conhecimentos, os prazeres e as dores que conhecemos – morrer para tudo isso.

Mas a maioria de nós não deseja morrer psicologicamente, porque estamos satisfeitos, conformados com o nosso viver fragmentado. Nosso viver é muito tedioso, mesquinho, invejoso, uma luta constante. Nosso viver é uma tortura, um seqüencial de conflitos, com esporádicos clarões de alegria que logo se tornam memória e o medo da morte é também para nós uma grande e silenciosa tortura.

Mas a morte real é morrer psicologicamente para tudo que conhecemos – isto é, sermos capazes de enfrentar o amanhã, sem saber o que é o amanhã. A maior parte das pessoas teme a morte e, por isso se apegam à algum tipo de crença. Mas ao homem que realmente deseja descobrir o que é a morte, a crença não interessa, pois a crença revela imaturidade. Para saber o que é a morte, devemos saber morrer psicologicamente. Se soubermos morrer, cada dia, cada minuto, conheceremos então a terminação do tempo psicológico.

Essa cena nos mostra que devemos morrer para tudo isso: morrer para a sociedade, para a religião organizada, para as várias formas de segurança a que a mente está apegada. Afinal de contas, as crenças e dogmas oferecem a segurança psicológica que dá vida ao processo de estagnação e conformismo. A crença nos impede de descobrir o que é verdadeiro.
Para descobrir o que é novo, precisamos de uma mente “inocente”, uma mente fresca, jovem, não contaminada pela sociedade com sua rede de pensamento condicionado.  A Matrix é a representação da sociedade com toda a sua estrutura de inveja, avidez, ambição, busca de poder e prestigio; e para descobrir o que é verdadeiro, precisamos morrer para toda essa estrutura, não teoricamente, não abstratamente, porém, morrer para a inveja, a perseguição do mais. Enquanto houver essa perseguição do mais, em qualquer forma, não poderá haver compreensão do imenso significado da morte. Todos sabemos que mais cedo ou mais tarde morreremos fisicamente, que o tempo passa, e a morte nos alcança no caminho; e, porque temos medo, inventamos teorias, coordenamos idéias a respeito da morte, racionalizando-a. Mas isso não leva a compreensão da morte.
Afinal de contas, com a morte não se discute; ela não é democrática, não podemos pedir-lhe por mais um dia de vida. Ela é terminante, decisiva, inexorável. E não é possível morrer para a inveja da mesma maneira, sem discutir, sem perguntar o que nos acontecerá amanhã, se morrermos para a inveja ou para a ambição?  Na verdade, isso é o que significa compreender o inteiro processo do tempo psicológico.

Sempre estamos pensando em termos relativos ao futuro, planejando o amanhã, psicologicamente. Desejamos, psicologicamente, vir-a-ser alguma coisa amanhã, diferente do que hoje somos. A mente condicionada se ocupa com o que ela foi e o que irá ser, e toda a nossa existência confusa é dedicada nessa base. Somos o resultado de nossas “memórias”, e  memória é tempo psicológico. Nesta cena Matrix nos convida a meditar na possibilidade ou não de morrermos, sem esforço, sem resistência para todo este processo.

Todos queremos morrer para o que nos é doloroso, no entanto, não queremos morrer para o que nos dá prazer ou um forte sentimento de respeitabilidade (lembra-se da cena em que Neo fala da cantina e a macarronada?). Se morrermos para as lembranças de uma experiência estimulante, morrermos para as nossas “visões”, nossas esperanças e preenchimentos, nos veremos frente a frente com um extraordinário sentimento de solidão, sem nada termos para nos agarrar. Instituições, crenças, igrejas, livros, instrutores, filosofias, programas, métodos – em nada disso confiaremos mais, o que é muito certo, muito sensato; porque se depositarmos confiança em qualquer dessas coisas, estaremos ainda alimentado o medo, a inveja, a avidez, a ambição e a busca de poder e prestigio.

Infelizmente, a grande maioria quando em nada mais confiam, tornam-se geralmente amargurados, mordazes, superficiais, e vivem então, simplesmente, dia após dia, dizendo que tanto basta. Mas, por mais sagaz ou filosófica que a mente seja, por mais que se considere “espiritualizada”, o que daí resulta é uma vida muito superficial, muito medíocre.

Nesta cena Matrix nos convida a fazer a experiência de morrer, sem esforço, sem resistência, para tudo o que conhecemos, morrer não superficialmente, intelectualmente, porém, realmente, sem nos preocuparmos com o que nos acontecerá amanhã. Se formos capazes de fazê-lo, nos encontraremos com um extraordinário sentimento de solidão, um estado de negatividade, no qual não existirá o amanhã – e, se experimentarmos esse estado até o fim, veremos que não é um estado desesperador; ao contrário, é um estado em que a limitação das palavras não pode expressar a realidade vivida do presente momento ativo que é o agora.

Mas, por causa do medo, nunca ousamos experimentar esse estado até o fim, para descobrir o que ele é. Procuramos ligar o rádio, a TV, o computador e a internet, ler um livro, ligar para um amigo, ir à uma reunião, à igreja, ao cinema, ao shopping ou ao bar – tudo isso são meras expressões de fuga. O que para muitos é mais difícil perceber é que “Deus” é uma fuga estimulante, tal e qual a bebida ou o Prozac. Sociologicamente, talvez não seja bom beber; mas, fugir para Deus ou para os calmantes também tem lá os seus inconvenientes.

Assim, para compreendermos a morte, não verbal ou teoricamente, porém, experimentá-la realmente, é preciso morrer para o ontem, para todas as suas lembranças, seus conhecimentos, suas feridas psicológicas, os elogios, os insultos, as ofensas, a mesquinhez, a inveja – é preciso morrer para tudo isso, quer dizer, morrer para si mesmo. Por quer tudo isso é o que somos. E veremos então, se chegarmos até aí, que existe uma solidão que não é isolamento. Solidão e isolamento são duas coisas completamente diferentes. Mas não podemos alcançar a solidão, se não experimentarmos até o fim e compreendermos esse estado de isolamento em que as relações nada mais significam. Quando formos capazes de experimentar esse tal estado até o fim e ultrapassá-lo, quando já não mais nos assustarmos com a palavra “só”, quando estivermos mortos para todas as coisas que conhecemos, e a sociedade com sua rede de pensamento condicionado já não tiver o poder de nos influenciar, conheceremos então “a outra coisa”.

A Matrix, a sociedade nenhum poder de influência terá sobre nós se cortarmos todos os laços psicológicos que a ela nos vincula. Só poderá nos influenciar se estivermos presos psicologicamente a ela. Estaremos então livres das garras da moralidade e da respeitabilidade social. Mas o experimentar desse estado de solidão, até o fim, sem procurar fugir ou verbalizar – e isso significa “ficar” com ele, completamente –

isso requer uma grande soma de energia. Essa energia não contaminada é a solidão que devemos alcançar; e, dessa negação, desse vazio total, nasce a criação.

Toda criação se verifica no vazio, e não quando a mente está cheia. A morte só tem significado quando morremos para todas as nossas vaidades, superficialidades, todas as nossas inumeráveis lembranças. Apresenta-se então algo que transcende o tempo, algo que não podemos alcançar se sentirmos medo, se estivermos apegados a crenças, se estivermos nas redes do pensamento condicionado com todos os seus sofrimentos.   

(Continua)
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