MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a
rede do pensamento condicionado
Capítulo VIII
Sobre o perigo da influência externa |
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| Matrix aponta logo em seu inicio sobre os perigos da influência externa, na cena em que Neo é sugestionado pelo seu patrão, na Metacortex. Na cena entre Neo e o Oráculo, Matrix nos chama novamente a atenção para o fato de quanto que somos influenciáveis, assim como temos a forte tendência de nos relacionarmos com imagens. |
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Vejamos atentamente o diálogo entre os dois:
Oráculo: Sei que você é o Neo. Já vou te atender.
Neo: Você é o Oráculo?
Oráculo: Bingo! Não era bem o que você esperava, não é?... Está quase pronto. O cheiro é bom, não? Eu te mandaria se sentar, mas você não iria querer. E não se preocupe com o vaso.
Neo: Que vaso?
Oráculo: Esse vaso.
Neo: Desculpe.
Oráculo: Já disse, não se preocupe. Mandarei uma das crianças concertar.
Neo: Como você sabia?
Oráculo: O que vai mesmo fazer seus miolos queimarem é... você teria quebrado se eu não tivesse dito nada? Você é mais bonito do que pensei. Por isso ela gosta de você.
Neo: Quem?
Oráculo: Mas não é muito inteligente. Você sabe por que Morfeu te trouxe aqui?
Neo: Sim.
Oráculo: Então, o que você acha? Acha que é o Escolhido?
Neo: Sinceramente não sei!
Oráculo: Sabe o que isso diz? É latim. Diz: “Conhece-te a ti mesmo”. Vou te contar um segredinho. Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode te dizer se você está. Você simplesmente sabe e não tem dúvida. Nenhuma. Bem, melhor eu dar uma olhada em você. Abra a boca e diga: “Ah”.
Neo: “Ah”.
Oráculo: Muito bem, agora eu vou dizer: “Ah, interessante, mas, aí você diz...”
Neo: “Mas o quê?”
Oráculo: Mas você já sabe o que vou te dizer.
Neo: Eu não sou o Escolhido.
Oráculo: Desculpe, garoto. Você tem o dom, mas parece que você está esperando por algo.
Neo: O quê?
Oráculo: Sua próxima vida, talvez. Quem sabe? Essas coisas são assim. Qual a graça?
Neo: Morfeu. Ele quase me convenceu.
Oráculo: Eu sei. Pobre Morfeu. Sem ele, estamos perdidos.
Neo: Como assim, “sem ele”?
Oráculo: Você quer mesmo ouvir? Morfeu acredita em você, Neo. E ninguém, nem você nem eu pode convencê-lo do contrário. Ele acredita tão cegamente que vai sacrificar a própria vida para salvar a sua.
Neo: Como?
Oráculo: Você vai precisar fazer uma escolha. Numa mão você terá a vida de Morfeu. Na outra mão você terá a sua vida. Um de vocês vai morrer. Qual de vocês... Você escolherá. Sinto muito, menino. Sinto mesmo. Sua alma é boa e odeio dar más notícias a pessoas boas. Mas não se preocupe. Assim que você passar por aquela porta vai começar a se sentir melhor. Vai lembrar que não acredita nesse papo-furado de destino. Você controla sua própria vida. Lembra? Tome... Pegue um biscoito. Prometo que, quando você terminar de comê-lo vai se sentir muito bem.
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| Uma das coisas mais estranhas é a facilidade com que nos deixamos influenciar. Desde pequenos somos educados como católicos, protestantes, americanos, etc. Somos o resultado de uma propaganda incessantemente repetida, e que continuamos a repetir. Somos entes humanos de "segunda mão". |
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Quase todos somos muito facilmente influenciáveis; toda a nossa estrutura psicológica baseia-se na influência, na propaganda. Somos influenciados pelo nacionalismo, pelos alimentos ingeridos, pelo clima em que vivemos, as roupas que usamos, os livros e jornais que lemos. O rádio, a televisão, tudo nos influencia incrivelmente; e essa influencia é consciente ou inconsciente. |
| Em verdade, somos o resultado de muitas influências; e a inteligência, segundo me parece, é a faculdade que habilita a mente a estar cônscia de todas as influencias ou pelo menos do maior número possível delas, e abrir o caminho por entre elas, sem se emaranhar, sem se deixar deformar ou impregnar por elas. Estar conscientemente cônscio da influencia, e sacudi-la de si – eis a verdadeira essência da inteligência. |
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O importante é escutar a propaganda, o que é dito, e perceber diretamente, por si mesmo, o que é verdadeiro e o que é falso; mas isso não pode ser feito em conformidade com as nossas avaliações nossos gostos e desgostos, que são meras reações do nosso condicionamento cultural. Certo, ver verdadeiramente é ver o fato como é; e esse ver é imediato, não requer tempo. |
| Em geral, pensamos que a compreensão vem lentamente, pela avaliação comparativa. Mas a compreensão é comparativa, gradual? Ou é imediata? Ora, ou compreendo uma coisa agora ou não compreendo absolutamente. Será possível o futuro trazer uma modificação radical de meu modo de observação da minha visão das coisas, o futuro nenhum proveito trará. |
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Se não sacudo imediatamente o meu condicionamento, os meus preconceitos, meus gostos e aversões, eles continuarão existentes amanhã.
Só a mente indolente, preguiçosa e, portanto, não séria é que tem essa idéia de “gradualidade”.
Nesta cena Matrix nos mostra que o verdadeiro revolucionário é aquele que está livre de toda e qualquer influência, livre das ideologias e complicações da sociedade, que é a expressão da vontade coletiva da maioria. Mostra que a influência é a causa do condicionamento e que necessitamos de uma mente capaz de estar completamente só, de não se deixar influenciar pela propaganda ou a experiência de outrem. |
| A iluminação não vem de nenhum líder, de nenhum instrutor; vem da compreensão do que é, em nós mesmos, não pela fuga a nós mesmos. Cabe a cada um perceber exatamente o que se está passando em seu próprio campo psicológico; percebê-lo sem nenhuma deformação, nenhuma escolha, sem ressentimento, azedume, nenhuma explicação ou justificação - estar simplesmente cônscio. |
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| É muito importante compreender o processo da influência, porque é a influência que nos faz ajustar-nos à moralidade respeitável, a qual se apóia na autoridade da tradição, na influência da sociedade, na autoridade de um cargo; e dessa maneira a autoridade se torna predominante em nossa vida. A sociedade exige obediência, e, porque somos escravos da influência, aceitamos instintivamente a autoridade da sociedade, a autoridade do sacerdote, a autoridade do símbolo, a autoridade da tradição. |
| É preciso compreender a aceitação da autoridade que realmente exprime exigência psicológica de segurança, de certeza, de garantia de que se está seguindo o caminho do correto. Temos de nos libertar de toda a autoridade, de todo seguir, de todo obedecer, e isso é dificílimo. Só quando compreendemos individualmente nossa escravidão às palavras, à influência, à autoridade --- compreender, e não, reagir --- pode haver liberdade. |
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| (Continua) |
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